Um leão metade vítima, metade cúmplice
«A história determina-nos ao mesmo tempo que a fazemos.» No caso do Sporting, a frase de Jean-Paul Sartre, que há precisamente 46 anos deixou o mundo dos vivos, passa a ser lida sob a luz baça do passado. Pelo menos no que à Liga dos Campeões diz respeito. Não que o tivesse merecido, mas a história não perdoa tantas perdidas.
Filosoficamente, este jogo foi o espelho do mundo atual, com os músculos a travarem o virtuosismo dos sagazes. A robustez de um Arsenal maquinal a fazer das vitórias épicas do Sporting frente ao campeão europeu PSG, em Bilbau e mais recentemente com o Bodo/Glimt meros fragmentos de uma história que merecia outro final.
Mesmo com um dérbi e um Clássico no horizonte, Rui Borges não foi em poupanças em Londres. Nem podia, o momento era sublime.
A novidade foi Eduardo Quaresma no lado direito da defesa, no lugar do lesionado Fresneda. Apesar de forçada, a mudança até ajudou o Sporting a controlar melhor a largura do ataque do Arsenal, com Geny Catamo a baixar à direita e Quaresma a juntar-se a Diomande e Gonçalo Inácio no meio para o que desse e viesse frente aos vigorosos avançados dos Gunners.
Isso era sem bola, porque com ela Geny lá se soltava no ataque, ainda que fosse do outro lado que o Sporting mais tentava furar. É o que dá juntar ali Maxi Araújo, Francisco Trincão e Pedro Gonçalves, que entre si construíram três ocasiões flagrantes para marcar.
A melhor surgiu em cima do intervalo, quando Geny Catamo, servido por Maxi, atirou ao poste da baliza de Raya, ele que, instantes antes, quase depositava o ouro no Pote com um passe horrível à saída da sua baliza, mas Pedro Gonçalves nem conseguiu finalizar nem assistir Trincão. O mesmo Trincão que, aos 19 minutos, rematou com perigo, mas ao lado da baliza inglesa.
E se até aqui não surgem referências ao Arsenal não é por um qualquer acesso patriótico ou algo do género. Os Gunners podem ter tido mais bola (59 por cento), ataques (25 contra 13) e remates (sete contra três), mas oportunidades decentes, nem vê-las.
Isso mudou na segunda parte, ainda que tenha pertencido a Maxi a primeira boa oportunidade, com um remate cruzado no coração da área contrária. Se tivesse sido com o pé esquerdo…
Depois veio a resposta do Arsenal. O líder da Premier League não podia continuar a ser a presa inofensiva de até então. E num par de minutos ficou perto de resolver a eliminatória, com remates perigosos de Martinelli e Eze. Ainda assim, ambos desenquadrados com a baliza de Rui Silva, diga-se.
Se isso deveria fazer encolher o leão, não resultou. O Sporting encheu o peito e continuou a desbravar caminho no ataque, mas o golo não aparecia. Aos 66 minutos, Maxi chegou a vislumbrá-lo, só que chegou atrasado a um cruzamento-remate de Geny Catamo.
Tantas oportunidades perdidas criavam um cenário tremido para os leões, que oscilavam os humores entre uma exibição de luxo e o vislumbre do adeus à Champions. É duro. Mas foi isso que aconteceu.
Perto do fim, o Arsenal ainda acertou no poste, por Leandro Trossard (84m), antes de João Simões ter fechado o jogo com um remate que saiu a rasar a baliza de Raya.
Como bem disse Sartre, «és metade vítima e metade cúmplice, como todos os outros». O Sporting percebeu-o esta noite.
MOMENTO: bola ao poste de Geny Catamo (43m)
Num jogo em que criou várias ocasiões para, pelo menos, levar a eliminatória para prolongamento, saiu dos pés de Catamo a mais flagrante. Descoberto por Maxi Araújo solto ao segundo poste, rematou cruzado ao ferro da baliza de Raya. Ainda por cima, o lance foi em cima do intervalo...
FIGURA: Maxi Araújo (Sporting)
Mais um jogo completo do lateral uruguaio do Sporting. “Secou” Madueke a defender e esteve em muitos dos lances perigosos no ataque. Na segunda parte, esteve muito perto do golo num par de situações. Se havia alguém que o merecia, era ele.
NEGATIVO: Viktor Gyökeres
Quem o viu e quem o vê. Foi uma espécie de desaparecido em combate no ataque do Arsenal, confirmando que não é o mesmo que deslumbrou Alvalade nos últimos dois anos. Em 57 minutos, não fez um remate sequer enquadrado com a baliza de Rui Silva, acabando substituído, cedo e sem surpresa, por Havertz. Por onde andará o Homem da Máscara?