Dos distritais do Porto à Kings League: «Foi o destino»

9 abr 2025, 23:55
João Pelegrini (Foto: Direitos Reservados)

João Pelegrini dá nas vistas no futebol de sete. «Já fomos a um churrasco em casa do Neymar», o dono da equipa onde atua

Lá diz o povo que quando se fecha uma porta, logo se abre uma janela, e dela o horizonte pode ser igualmente imenso. E promissor. Na adolescência, João Pelegrini atravessou o Atlântico pelo sonho de fazer carreira no futebol. Depois de anos entre os distritais do Porto e o Campeonato de Portugal, viu na mediática Kings League Brasil uma oportunidade de saltar para a ribalta e não demorou a consegui-lo. Ainda para mais na equipa do ídolo, Neymar. «Estou a gostar muito, está a ser muito bom para mim em termos de visibilidade», admite Pelegrini.

À medida que os últimos anos foram passando, o então defesa via crescer em si uma certa frustração pelo constante adiar em alcançar competições com maior projeção. Por cá, ainda foi da Divisão de Honra da AF Porto até ao Campeonato de Portugal, mas a sua ambição pedia mais. Aos 27 anos, encontrava-se numa encruzilhada. Do nada, a Kings League, competição de futebol de sete, surgiu como uma alternativa inesperada. «Foi o destino», desabafa o futebolista, desde o Brasil, em conversa com o Maisfutebol.

Até chegar a esse ponto, João Pelegrini provou ser um jovem destemido. Cresceu na formação do Santos, ao lado de Arthur Gomes, que em Portugal deu nas vistas no Estoril e no Sporting. «Também joguei com o Yuri Alberto (Corinthians) e o Rodrygo (Real Madrid), mas pouco», ambos três anos mais novos, que por vezes saltavam escalões em busca de maior competitividade.

Pelegrini deixou o Peixe no último ano de júnior, que cumpriu em Itália, pelo Génova. Concluída a formação, sem empresário nem convites concretos para se lançar no futebol profissional, rumou a Portugal para reencontrar o amigo Rodrigo Otero, que também procurava uma oportunidade no nosso futebol.

«Disse-lhe que também ia passar lá 15 dias e, se conseguisse encontrar alguma coisa, ficava. Fui fazer um teste no Oliveira do Douro, mas as inscrições já estavam a acabar e não deu certo. No Vilanovense (Vila FC), um clube que já teve a sua fama mas que hoje está bem lá em baixo, fiz amizade com o presidente, eles gostaram muito do meu futebol e comecei por lá», recorda.

Ajudou o Vila FC a subir à Elite da AF Porto e, em 2019/2020, chegou a outro histórico do futebol português, o Beira-Mar, onde viveu o melhor momento desportivo por cá. «Eliminámos da Taça de Portugal o Marítimo, que na época jogava na I Liga. Foi um momento bem especial que guardo comigo», conta.

Porém, a meio dessa época, João regressaria ao Vila FC, onde conheceu Abílio Novais, que foi seu treinador em três dos sete anos que passou em Portugal. «As pessoas em meu redor foram-me contando que ele fez história no Porto e no Leixões. Vi alguns lances dele na internet e todos me diziam que o Abílio era craque. Quando ele fazia uma “pelada” connosco, dava para perceber que tinha muita qualidade e era muito inteligente», lembra Pelegrini, por entre elogios à postura do técnico: «Ele pega bem firme com todos, não deixa que ninguém fique na mesmice. Ele gosta que todos evoluam e trabalhem no limite. Aprendi muito com ele».

Por cá, sentiu na pele o rigor do inverno nortenho, que o levou a disputar jogos em condições agrestes. «Uma vez, o campo do Oliveira do Douro ficou impraticável. Era mais fácil nadar naquele campo do que jogar futebol. A bola não rolava, mas mesmo assim o árbitro quis que houvesse jogo. Acabámos empatados a um golo. Por incrível que pareça, houve golos», conta, entre sorrisos, sem esquecer os «banhos gelados» com que ele, e os colegas de equipa, eram brindados em alguns jogos fora de casa. «Era complicado», no mínimo.

Foi precisamente com Abílio Novais como treinador que o brasileiro se despediu do futebol português, pelo Oliveira do Douro, no Campeonato de Portugal. Fê-lo cumprindo o sonho de jogar ao lado do irmão, Bruno Pelegrini, que completou a formação no Sp. Braga. «Era um sonho da família até», assinala João, enquanto recorda «o carinho das pessoas e as grandes amizades» que fez em Portugal, mas também «os passeios na Ribeira» do Porto e o «bacalhauzinho com natas» de que se tornou fã.

Nos campeonatos que disputou, encontrou futebolistas com «muito talento». Dá como exemplo o antigo companheiro de equipa Miguel Paiva, hoje no Leça. «É um guarda-redes que tem tudo para alcançar patamares superiores. Este ano vai brigar pela subida à III Liga, mas poderia estar numa II Liga, bem tranquilo», acredita.

Testes, draft, overall: eis a Kings League

Terminada a última temporada, João Pelegrini decidiu voltar ao Brasil em busca de um novo rumo na carreira. O seu Personal Trainer falou-lhe na Kings League e ele decidiu arriscar.

«Tive de enviar um vídeo (com jogadas no futebol). No total, foram sete mil inscrições. Dessas, só selecionaram 300 pessoas para fazerem os testes: treinos de finalização, um contra um, passe, força e velocidade. Havia pessoas a analisar o que eu fazia e, daí, criaram uma carta com o meu overall (nível)», explica.

Foi com essa carta que Pelegrini seguiu para o draft, onde «de quase 200 jogadores, só 100 foram escolhidos, em dez rodadas». O seu nome surgiu como a 21.ª escolha da Furia FC, equipa que tem como dono o internacional brasileiro, Neymar.

«Ele não costuma ir muito aos treinos, porque tem a sua rotina no Santos. Vai mais aos jogos, mas sempre que pode está connosco. Até já fomos a um churrasco em casa dele», conta Pelegrini, que define Neymar como «uma pessoa muito competitiva e que cobra bastante, no bom sentido». «Torce muito, está sempre a gritar e a gesticular, a querer vencer os jogos. Está a viver aquilo connosco. É um treinador à parte», acrescenta.

A estreia de João Pelegrini na Kings League Brasil foi memorável, tendo marcado na vitória da Furia FC frente ao Dendele FC, por 6-2. «Foi um momento muito especial. Jamais imaginaria marcar um golo e a primeira pessoa com quem festejar ser o Neymar. Isso vai ficar marcado para a minha vida toda. Parece que a ficha ainda não caiu, que esse momento realmente aconteceu», confessa.

Junho é mês de Mundial da Kings League

Na Kings League Brasil, Pelegrini encontrou a «visibilidade» que nunca tinha tido até então. «Estamos sempre expostos na internet e o público que assiste está a crescer», diz, dando como exemplo o duelo «contra a equipa da Ludmilla, que teve 700 mil pessoas a assistir em simultâneo» pelas plataformas de streaming. «É muita gente», de facto.

Para quem não conhece, Ludmilla é um fenómeno da música brasileira, contando com biliões de streams (visualizações) nas plataformas digitais. Para além da artista, também Kaká ou Iran Ferreira, por todos reconhecido como Luva de Pedreiro, são donos de equipas numa competição que «só tende a crescer», acredita João Pelegrini.

«A Kings League não se vai comparar ao futebol, vai ser um outro tipo de atrativo para o público. As crianças começam a querer jogar, a brincar com as cartas que o jogo tem. Quem está acostumado a ver futebol, de repente vê (na Kings League) uma equipa a jogar com cinco e outra com quatro (jogadores) ou um golo que vale por dois. Isso faz com que as pessoas fiquem focadas no jogo», atira o brasileiro.

A expansão da Kings League, prova de futebol de sete com origem em Espanha que foi criada pelo antigo jogador do Barcelona, Gerard Piqué, terá na primeira edição do Mundial, em França, no próximo mês de junho, um passo decisivo. O Brasil será representado pelas quatro equipas que atingirem as meias-finais da Liga local.

Para já, a Furia FC, de Pelegrini, segue no primeiro lugar da fase regular. A concorrência é feroz, com alguns craques a participarem no torneio, como é o caso do internacional brasileiro Zé Roberto, hoje com 50 anos, antigo futebolista do Real Madrid e do Bayern de Munique, entre outros. A prova, mais uma, de que a paixão pela bola não tem idade. Nem formato.

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