Nas Ilhas Caimão, o treinador português já serviu de tradutor num negócio imobiliário e conheceu conterrâneos que por ali passaram em férias. Por cá, viveu anos de aprendizagem no Fiães e no Boavista, que viu cair, com mágoa, aos distritais da AF Porto. «Quando lá estive, já se conseguia prever um pouco o que está a acontecer agora», assume
Até há dois anos, Bruno Cancela vivia uma vida «pacata» juntamente com a família. Fez toda a formação no mesmo clube, o Fiães, de Santa Maria da Feira, onde também deu os primeiros passos como treinador, antes de três anos marcantes como treinador e coordenador nas camadas jovens do Boavista.
No Bessa, aprendeu a gostar de um clube «muito particular, do qual os adeptos são a força viva, o palpitar do coração», e que lhe ensinaram o significado real «do que é sofrer, chorar e reerguer», desabafa, num tom contido, que denuncia a mágoa pelo estado atual do clube.
A queda abrupta da equipa profissional dos axadrezados, da I Liga até aos distritais da AF Porto, foi um golpe duro, mas não totalmente inesperado para Bruno Cancela. «Quando lá estive, já se conseguia prever um pouco o que está a acontecer agora. O dia a dia era difícil. Quando saí do Boavista (em 2023) já estávamos na altura dos impedimentos de se inscrever atletas a partir dos 16 anos. Eu e muitas pessoas tentámos fazer adiar este desfecho, mas havia forças maiores e alguns “esqueletos” escondidos pelo Bessa. Se não se conseguisse tirá-los de lá, este desfecho poderia ser uma possibilidade. Infelizmente, isto aconteceu, para tristeza minha», desabafa.
No dia em que decorreram buscas da Polícia Judiciária no Estádio do Bessa, Bruno não conseguiu evitar por lá passar. «Vi lá o senhor Marques, o senhor do futebol de formação do Boavista. É uma referência na minha vida, uma pessoa que vive o clube como quase ninguém, que ama o clube e me ensinou a amar o Boavista. Também tenho muita estima pelo líder da claque, o Sousa, sei o quanto ele está a sofrer. Envio-lhes um forte abraço de muita força. Não tenho dúvidas de que após a tempestade vai voltar a bonança e o Boavista vai voltar a ser o quarto grande de Portugal», acredita.
Mesmo a mais de sete mil quilómetros de distância, Bruno Cancela nunca deixou de acompanhar o clube. «Confesso, com mágoa mas sem vergonha, que quando o Boavista conseguiu manter-se no jogo com o Vizela (em 2023/2024), com o penálti do Miguel Reisinho, vieram-me as lágrimas, nas Ilhas Caimão. Chorei porque achava que poderia ter sido um balão de oxigénio para que algo mudasse», recorda.
«Os adeptos têm como lema “enquanto houver um boavisteiro, o Boavista não acaba”. São pessoas boas, que merecem o melhor. É um clube com muito potencial, com muita força. Espero que volte ao rumo certo», remata Bruno Cancela.
A atração de Bruno Cancela pelo treino começou bem cedo, ainda nos tempos do liceu, quando cumpriu um estágio no Fiães, clube que tão bem conhecia. Teve como orientador Tiago Freitas, um treinador que rapidamente se tornou numa referência, a par de Bruno Pinto e Nelson Pinho. Era a forma como «viviam o futebol, planeavam os treinos e trabalhavam em conjunto» que o cativava, e que catapultou o clube, naquela altura, para os campeonatos nacionais de sub-15 e sub-17.
Desde cedo que Cancela dava especial atenção ao lado emocional do jogo. Deixou-se levar pela «ótima influência» de Nuno Batista, hoje adjunto de Luís Castro no Al Wasl, que conheceu nos tempos em que este orientava o irmão, André, nos juniores do Fiães. «O Nuno é um grande exemplo do que é a carreira desportiva, porque conheci-o num contexto amador, onde conseguia motivar e agregar pessoas», recorda, uma capacidade à qual Bruno sempre deu especial valor. A isso e aos «bons valores do que é o futebol e de como estar nele» que Adolfo Teixeira, de quem foi adjunto na equipa principal do Fiães aos 25 anos, lhe mostrou.
Já terá dado para entender que Bruno Cancela é um homem ligado às suas raízes, mas nunca se deixou enredar nelas ao ponto de deixar fugir uma boa oportunidade.
Quando completou o curso UEFA B (Nível II) de treinador, na Associação de Futebol de Aveiro, conheceu Paulo Mourinho, que o desafiou a atravessar o Atlântico para se mudar para um país que pouco ou nada lhe dizia. «Ele inteirou-me de tudo. Já lá estava há um ano e meio e deu-me uma noção da realidade de lá», conta Bruno, que ainda assim só se deixou convencer à segunda.
Até aí, nunca tinha andado de avião sequer, mas «o desafio sociocultural, de ter de falar uma língua nova e de desenvolver a capacidade de adaptação», falou mais alto e permitiu-lhe, aos 31 anos, cumprir «o objetivo pessoal de ir treinar fora (de Portugal) até aos 35 anos».
Nas Ilhas Caimão, Paulo Mourinho e o irmão, Nuno, receberam-no em sua casa e foram um apoio fundamental nos primeiros tempos. Duas semanas depois de ter aterrado, Bruno teve de cumprir uma avaliação aos conhecimentos da língua inglesa para ver aprovado o visto de trabalho. Entretanto, foi-se habituando ao quotidiano local.
«Lá, as temperaturas não baixam dos 27 graus. É clima tropical e, quando chove, é muito rápido. Os treinos são da parte da tarde. Quando treinamos de manhã é as 7:30, porque a partir das 9:00 fica impossível», explica.
Os passeios e corridas matinais na praia, na companhia do diretor técnico da federação, Cláudio Pereira, viraram rotina e permitiram-lhe até “matar” algumas saudades do nosso país.
«Todas as semanas chegam navios gigantes com pessoas. Às vezes, estou a dar minha caminhada ou corrida junto à praia e ouço falar em português. Já conheci algumas pessoas assim», conta, ele que já serviu até de tradutor num negócio imobiliário.
«Tenho um amigo italiano que vendeu uma casa a um casal brasileiro. Ele não sabia falar português e os brasileiros não falavam inglês. Então, ele pediu-me ajuda para servir de tradutor. Felizmente, ele vendeu a casa. Foi muito engraçado. O casal brasileiro até me convidou para ir visitar a fazenda deles no Brasil», recorda Bruno Cancela.
Por falar em negócios, as Ilhas Caimão são um conhecido paraíso fiscal, nada que impacte a forma como os locais vivem o seu quotidiano. «Tens muita gente de fora, mas nem dás por isso. Todos os meses descontamos 10 por cento do ordenado e quando sais da ilha tens direito a levantá-lo. É como se fosse um plano de reforma», explica o português.
O país «só há cerca de dois meses criou um canal de televisão» e tem um jornal semanal como meio de informação mais conhecido. Por isso, as redes sociais desempenham ali um papel importante na divulgação de coisas tão básicas como as datas dos jogos da Liga ou da Seleção. «Colocamos até posters dos jogos nos cafés ou em sítios em que as pessoas param muito», acrescenta.
«Os portugueses são diferenciados»
Além de futebol, Bruno Cancela praticou também futsal, já em adulto, o que o ajudou a perceber a complementaridade que existe entre as duas modalidades.
No Boavista, chegou a pensar em integrar atletas até aos 13 anos num treino semanal de futsal, com o objetivo de desenvolver a «técnica individual e a relação com a bola». «No pavilhão é tudo mais intenso, o impacto é muito maior», salienta, para além de que isso iria permitir «criar estímulos diferentes nos atletas».
«O Benfica faz esse tipo de trabalho nos Centros de Formação e Treino e o FC Porto optou por esse caminho também. Tem os seus prós e os seus contras, mas, numa fase de maior assimilação, tem um impacto muito positivo na criança», acredita Bruno Cancela, que aponta Richard Ríos como exemplo do sucesso da interligação entre as duas modalidades: «É a contratação mais cara do Benfica e jogou futsal até aos 18 anos».
Admirador de treinadores com carreira feita no estrangeiro como José Mourinho, André Villas-Boas, Vítor Pereira ou Tiago Oliveira, este último adjunto de Jorge Jesus no Al Nassr, Bruno Cancela sente que «Portugal deveria dar mais valor às pessoas que estão fora, que continuam a ganhar e a abrir portas para que outros portugueses possam também emigrar».
«Não só aos profissionais, mas também a quem está num contexto diferente. O Ricardo Costa, que está no Feirense, fez um grande trabalho na Geórgia, tal como o Rui Mota, agora no Ludogorets. Nós, portugueses, somos diferenciados. Devíamos dar esse ênfase e carinho», conclui.