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«Neste contexto sinto que estou no Albergaria, há uma paixão muito grande e ingenuidade das colegas»

10 abr, 00:19
Jéssica Silva pela Seleção Nacional (FOTO: Diogo Cardoso/Getty Images)

Jéssica Silva garante que a transferência para o Al Hilal não foi um «passo atrás» na carreira e fala numa realidade semelhante à que encontrou no Albergaria, quando dava os primeiros passos no futebol profissional - PARTE II

Jéssica Silva é uma das muitas jogadoras estrangeiras que se mudaram para o futebol saudita na última temporada, num processo que tem algumas semelhanças com o que acontece no futebol masculino, ainda que sejam realidades bem distintas, sobretudo do ponto de vista financeiro.

Em entrevista ao Maisfutebol, a avançada do Al Hilal destaca a forma como foi recebida no clube e compara a realidade que encontrou no Al Hilal à que viveu nos tempos do Albergaria, quando começou a dar os primeiros passos no futebol profissional.

Maisfutebol (MF): Como olhas para o investimento feito no futebol feminino pela Arábia Saudita? Existe algum termo de comparação quanto ao que é realizado no masculino?

Jéssica Silva (JS): Não tem nada a ver, não se pode equiparar. Acredito que se existisse esse investimento estariam cá mais jogadoras. Há sim uma vontade de crescimento, uma vontade de aproximar as realidades que vivemos noutros contextos, não aqui na Arábia Saudita. São números irreais para aquilo que é a realidade feminina. Também acho que isso é muito desproporcional, mas a verdade é que nós mulheres ainda estamos atrás, a fazer o nosso caminho. Não é uma realidade sequer próxima com o futebol masculino.

MF: (...)

JS: Para mim, que estou nisto há algum tempo e comecei a jogar em pelados, deixa-me muito feliz estar aqui e sentir que há ambição. Há miúdas a poder jogar, a poder ir contra as famílias e terem espaço para jogar, estar no nosso ecossistema e terem essa oportunidade. Cada país tem o seu ritmo e o importante é que essa evolução e esse crescimento esteja a acontecer. Que haja essa ambição por parte de todas as entidades e toda a gente que está por trás disto. Esta realidade faz-me lembrar Portugal há 12 anos, com a diferença de que as coisas estão a evoluir muito rápido. Há recursos e o investimento mínimo aqui faz a diferença.

MF: Sentes que as tuas colegas de equipa olham para ti como um exemplo, tendo em conta o teu currículo e os clubes por onde passaste?

JS: Nunca me senti como uma estrela e aqui digo que somos todas colegas. Fiz o máximo para que apenas fosse mais uma aqui, gosto de me sentir em casa, gosto de ajudar. A Arábia Saudita é um país que tem o dom de receber e senti muito isso no balneário. Recebi prendas durante o primeiro mês, levavam-me sempre o café, ofereciam-me peluches.

MF: (...)

JS: Eu estou neste contexto e sinto que estou um bocadinho no Albergaria, sinto-me em casa e a ingenuidade das colegas. Sinto uma paixão muito grande, como se ainda fosse tudo muito “verde”. Senti que elas me viam com outros olhos e sei que tenho aqui uma responsabilidade acrescida. Tento-lhes dizer que somos uma equipa e que estou aqui para ajudar. Sinto-me nos tempos do Albergaria e é algo muito bonito e especial que estou a viver na Arábia Saudita. Faz-me lembrar da Jéssica a desfrutar do futebol, como antigamente. Sinto que elas me tratam super bem e eu retribuo isso, que dentro de campo, quer fora dele.

MF: Existe a ideia de que as jogadoras e os jogadores que vão para o futebol saudita estão a dar um passo atrás na carreira. Sentes isso?

JS: Claro que não. Quando vim para cá senti que ia para um campeonato pouco competitivo e a minha realidade foi sempre ir atrás dos melhores contextos competitivos, estar com as melhores jogadoras do mundo. Esse foi sempre o meu objetivo, estive sempre a querer ir buscar mais de mim. O campeonato não ia ser tão “fixe”, mas ao mesmo tempo ia-me dar outras coisas. Sabia que ia ter oportunidade para fazer um bom contrato, mas também pensar no meu futuro e na minha família. Sempre vivi à procura de um prestígio, porque queria estar entre as melhores. Isso às tantas vai ficar nas prateleiras e não me arrependo de nada na minha vida. Estou a ter a sensação de que tomei a decisão certa, sinto-me numa fase muito lúcida da minha carreira desportiva. Deixa-me muito feliz sentir-me capaz a nível físico.

MF: (...)

JS: Eu chegar a um contexto de Seleção Nacional, com jogadoras nas melhores equipas do mundo e estar capaz de dar o meu melhor, continuar a ajudar e acrescentar na Seleção ainda faz mais jus ao que é o meu pensamento. Foi uma decisão diferente, com um objetivo ligeiramente diferente, foi numa de estabilidade a todos os níveis e a verdade é que me sinto bastante realizada. A nível coletivo podíamos ter sido mais competentes, mas continuo a mesma jogadora, com a mesma ambição pelo jogo. Não vejo isto como um passo atrás na minha carreira, mas sim como um desafio diferente. Gosto bastante de treinar, fazer treinos extra e sentir-me competitiva. Na minha fase de vida não é um passo atrás, até porque não tenho 20 anos, tenho 31. Estou bastante feliz, nunca viro a cara a um desafio. É algo que estou a gostar de viver.

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