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Jéssica Silva na Arábia Saudita: «Vivo como uma mulher privilegiada aqui»

10 abr, 00:18
Jéssica Silva pelo Al Hilal (FOTO: Twitter Al Hilal)

Aos 31 anos, a internacional portuguesa abraçou a primeira experiência no Médio Oriente e diz estar «bastante feliz» de um ponto de vista pessoal. Em entrevista ao Maisfutebol, refere também que não quer romantizar o contexto saudita, mas que acredita que as mulheres podem abrir horizontes - PARTE I

Jéssica Silva é um dos principais nomes do futebol feminino em Portugal e esta época ficou marcada pela sua mudança para o futebol da Arábia Saudita, mais concretamente para o Al Hilal. Desde a adaptação ao campeonato, passando pela importância da relação com Andreia Faria, jogadora do Al Nassr, a internacional portuguesa confessa, ao Maisfutebol, estar «bastante feliz» a nível pessoal.

Esta temporada, ainda que sem qualquer título conquistado, Jéssica Silva é a segunda melhor marcadora do Al Hilal (11 golos) e uma das atletas com mais jogos realizados (18 jogos), a par da colega de equipa Asisat Oshoala.

Maisfutebol (MF): Para a Jéssica Silva enquanto mulher, no contexto da Arábia Saudita, como tem sido essa adaptação a um contexto muito diferente dos que já vivenciaste? 

JS: Vivo como uma mulher privilegiada aqui. Não posso de maneira alguma romantizar o contexto. Eu sabia, antes de vir para cá, que me podia vestir da maneira que quisesse e o importante é seres tu, para que essa evolução também aconteça. Se eu estou a respeitar a cultura está tudo bem, não quero fazer nada que vá contra a cultura porque senão posso ir presa. Acho que é importante nós atrevermo-nos, no bom sentido, se não estou a fazer nada que seja desrespeitoso e se há essa liberdade, eu faço. A verdade é que vivo muito à vontade, mas a única diferença é do ponto de vista social. É muito mais difícil eu dar-me a conhecer. Sempre fui uma mulher que conhecia pessoas e fazia amizades nos países onde estive e aqui nota-se que há um vácuo a nível social. É um bocado difícil construir relações. Sempre tive as minhas dinâmicas, ir a um café ler um livro, comer sempre no mesmo sítio, ouvir música lá, e isso ajudou-me a criar relações nesses diferentes contextos.

MF: (...)

JS: Aqui não há muita interação com outras pessoas. Já tive homens a dizerem-me: “Oh, nice hair (bonito cabelo]”. Sinto que as pessoas já tentam interagir e é algo que está a crescer no país. Visto-me da maneira que quero, vou à piscina, posso usar biquíni e não tenho problema nenhum. Vivo num contexto em que não me é proibido nada, basicamente. Foi bom ter vindo aqui para perceber o contexto e criar espaço para uma conversa. Temos de respeitar as diferenças, mas nós, estando presentes, há valor. Eles também reconhecem quando uma pessoa está e quer falar abertamente sobre isso, para mudar. Acho que é aqui que podemos ser ponte, nós mulheres, e eu que sempre dei a mão a muitas causas. É importante percebermos a realidade e que eles percebam que nós podemos contribuir para algo bom. Acredito muito que quando estamos aqui podemos ajudar o país a crescer e a abrir horizontes. Sinto mesmo que o facto de estarmos aqui tem mais valor do que estar lá fora e criticar. Posso conhecer uma outra realidade que me enriquece enquanto pessoa e jogadora.

MF: E como avalias esta experiência no futebol da Arábia Saudita?

Jéssica Silva (JS): Está a ser uma experiência enriquecedora. É sempre um desafio a nível cultural, a parte social é completamente diferente. É um campeonato que não está desenvolvido como todos os outros campeonatos em que estive, mas eu já vinha preparada para isso. Ao mesmo tempo sinto que foi uma decisão muito bem tomada da minha parte, sinto-me bem e em boa forma. Sobretudo quando vou para a Seleção sinto que estou capaz de ir e estar bem fisicamente. A questão é estar bem o suficiente para jogar num contexto competitivo superior ao que convivo todos os dias.

MF: (...)

JS: De um ponto de vista pessoal estou bastante feliz, sinto-me bem e capaz. Sabia que este projeto estava no primeiro ano a investir a sério no futebol feminino e é um projeto que ainda está para ser consolidado. Acho que devíamos ter melhores resultados porque temos a melhor equipa, mas isso não faz jus ao que tem sido a nossa época. Estamos vivos na Taça, estamos a disputar o terceiro lugar e a meu ver fica um bocadinho aquém das nossas capacidades.

MF: (...)

JS: É um projeto que está a crescer, ainda que as coisas não tenham corrido tão bem como queríamos, a nível de campeonato, mas estou muito feliz aqui. Não somos uma equipa que faz muitos golos, mas sinto que fui uma das jogadoras que mais ajudou a equipa com golos e a criar situações. É muito bom para mim sentir-me bem fisicamente, sem lesões e com o meu corpo saudável. Quem acompanha futebol feminino sabe que tive umas dores de cabeça no passado e nem eram propriamente lesões desportivas, mas acabaram por abanar a minha carreira. É uma experiência que está a servir para crescer, que também é importante.

MF: Além de ti, também a Andreia Faria se mudou para o futebol saudita, desta feita para o Al Nassr. Falas com ela regularmente?

JS: A Andreia Faria veio para cá depois de mim e é claro que falamos. Não todos os dias, mas ainda ontem estivemos uma hora à conversa. Acabamos por ser o apoio uma da outra, temos ideias e questionamo-nos. É bom quando tenho uma colega de Seleção, que também já foi uma colega de clube com quem posso partilhar coisas e falar, sendo este um contexto diferente e que está a crescer muito rápido. É sempre bom termos colegas ao nosso lado, independentemente de jogarmos em equipas rivais, apoiamo-nos mutuamente. Ela até foi campeã no reduto do Al Hilal e eu estou aqui para a apoiar e dar-lhe os parabéns. É mais uma portuguesa, como muitas estão pela Europa e pelo Mundo, a somar títulos e a mostrar que é muito boa e que tem qualidade.

MF: Como vês a aposta da Arábia Saudita nas jogadoras estrangeiras, à semelhança do que acontece no futebol masculino?

JS: Há muita ambição da Arábia Saudita em querer crescer, naturalmente através do futebol que é o desporto-rei. Acho que pode ser uma ferramenta para o país desenvolver, para o país evoluir. No nosso ecossistema que é o futebol, sabemos que as jogadoras internacionais têm muita qualidade e acrescentam à Liga saudita. Isso faz com que a liga cresça muito mais e muito mais rápido. Claro que as pessoas falam sobre o dinheiro que se ganha aqui, fala-se dos contratos que nós (mulheres) temos noutros contextos, até porque nós queremos fazer parte da transformação.

MF: (...)

JS: Como jogadora de futebol, não tenho como não pensar nisso. Queremos desenvolver o futebol feminino neste país, fazê-lo crescer e estou muito feliz, é um incentivo extra que o futebol me dá. Essa é a minha maneira de estar no futebol, fazer parte de projetos em que eu possa ajudar com a minha experiência. Os jogadores internacionais que vêm para aqui é para acrescentar qualidade. Comportamento gera comportamento e, às tantas, o desporto pode ajudar o país a abrir horizontes e criar uma ponte cultural. Até porque há muitos outros temas que precisam de ser desenvolvidos e o futebol pode ser uma “arma secreta”, no bom sentido.

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