Desde o crescimento «consolidado» de clubes como o Torreense e o Valadares Gaia, até ao papel de «integração» das jogadoras mais novas na Seleção Nacional e o futuro próximo. Jéssica Silva analisa os dois anos e meio que passou pelas águias, marcado pela conquista de todos os troféus a nível nacional - PARTE IV
Em Portugal, Jéssica Silva representou três clubes: Albergaria, Sp. Braga e Benfica. A passagem pelas águias marcou a internacional portuguesa, que destaca os títulos que conquistou (todos a nível nacional), num período «glorioso» que foi muito para além da relação com a treinadora Filipa Patão.
No que toca à Seleção Nacional, a jogadora de 31 anos vê com orgulho o papel de integração que desempenha para as jogadoras mais novas e mantém o futuro em aberto, já que o contrato com o Al Hilal termina no fim da temporada... e o próximo destino é uma incógnita.
Maisfutebol (MF): Depois da tua passagem pelo Kansas City, estiveste duas épocas e meia ao serviço do Benfica. Como descreves essa passagem pelo clube e a relação que deu que falar com a treinadora Filipa Patão?
Jéssica Silva (JS): Foram muito bem maiores do que o ruído que foi criado à volta do tema Jéssica e Filipa Patão. É mais fácil focarem-se naquele momento que foi extremamente difícil para mim e deixou alguma mossa no meu coração. Vivi momentos muito felizes no Benfica, o ter ido para Portugal e assinado pelo clube é um dos momentos mais especiais da minha carreira. Fui muito feliz. Foram bons números. Gostava de ter jogado mais tempo, mas no fim de contas, o importante é o que somas à equipa e ganhámos tudo o que tínhamos para ganhar. Fiz parte de um ano muito especial de Benfica, a melhor participação de todos os tempos do Benfica na Champions. Ganhei uma Taça de Portugal que, para mim, no meio de todos os títulos é a competição mais especial. Já a tinha jogado antes e nunca a consegui ganhar, a festa da Taça é algo especial na minha carreira. Sempre joguei na Taça de Portugal por equipas que eram o “elo mais fraco”.
MF: (...)
JS: Fiz parte dos anos gloriosos do Benfica e é isso que marca a minha carreira. Fui sempre muito bem tratada por parte dos adeptos, pelas colegas e esse foi apenas um episódio. Claro que criou muito ruído e não estava habituada a esse tipo de ruído, mas acho que o importante é falar das coisas boas. É sempre mais fácil falar das coisas más e parece que isso é que é bom de se ler e de se falar. Vivi momentos muito bonitos e especiais, tive a oportunidade de jogar pelo Benfica, marcar golos, marcar ao Sporting e ajudar a ganhar. Ninguém o pode apagar e é isso que guardo, as coisas boas. Foram muito mais as coisas boas e não há comparação. O que conta é o que acrescentas nas equipas onde estás.
MF: Tens acompanhado o futebol português desde que saíste do Benfica? Como olhas para o sucesso do Torreense e o crescimento de clubes como o Valadares Gaia?
JS: É um aparecimento porque aparecem os títulos, mas é importante ressalvar que o Torreense e o Valadares Gaia têm uma aposta consolidada. Agora estão a colher os frutos daquilo que tem sido uma aposta de anos. Às vezes os títulos não aparecem logo, mas as exibições nomeadamente do Torreense, que acaba de conquistar mais uma Taça, já mostrava que estava a caminhar bem e a fazer o processo que tinha de fazer. O sucesso existe mesmo quando não é visível, é importante haver estas apostas no futebol feminino e o Valadares está aqui há muitos anos. Fico muito feliz que haja este sucesso visível.
MF: Sentes que há algum desinvestimento por parte dos clubes com maior sucesso nos últimos anos, como Benfica ou Sporting?
JS: Queremos as atletas a terem mais e melhores condições, com contextos ideais que ainda não são. Não sei se se trata de um desinvestimento, mas Portugal ainda está numa fase de crescimento. As equipas estão-se a aproximar, não porque Benfica ou Sporting desinvestiram, são coisas separadas. As outras equipas com menos recursos estão a fazer jus à aposta que fizeram e nem é justo falarmos em desinvestimento quando existem outras equipas com projetos já com visão e profundidade de anos. É uma falta de respeito quando não separamos as coisas. Desejo que quando tiver a minha filha e ela quiser jogar futebol, que tenha acesso a condições ideais ou melhores do que as que eu vivi.
MF: (...)
JS: É importante as pessoas olharem para a frente, nunca está bom. Quando a realidade ideal existir é só fazer o mínimo e dá. Temos de pensar mais à frente e não de uma forma singular. Quando uma equipa portuguesa vai à Champions ganhamos sempre todos, ganha o futebol feminino. Há que pensar nisto de uma forma coletiva. Foi assim que cresci e fui desenvolvida no meu ecossistema. Dou os meus parabéns aos projetos, temos de bater palmas.
MF: Temos assistido a uma «renovação» da Seleção Nacional, com a entrada de novas jogadoras. Tens gostado desse novo papel de integração às mais novas?
JS: Já são alguns anos a integrar. É divertido fazer isso, é bom ver caras novas e é bom sentir que há três e quatro jogadoras capazes de acrescentar ao grupo. Quando há mais soluções é a parte mais bonita. Quer dizer que estamos a crescer. Ninguém é eterno e já estou muito mais próxima do fim, acho que o meu papel é importante nesse sentido, continuo muito focada no meu trabalho dentro e fora de campo. Não há nada mais bonito do que fazer parte desta transformação. Se calhar ainda não podemos lutar por títulos internacionais, mas mostramos um Portugal competitivo, com vontade de ter bola e pressionar. São ciclos e um dia vamos poder sonhar com títulos.
MF: Quais são as principais diferenças que encontras desde a tua primeira convocatória na Seleção Nacional e a mais recente?
JS: Dentro de campo, a nossa evolução permite-nos competir com grandes seleções e isso é uma grande diferença. Entrávamos no campo a pensar por quantos é que íamos perder. Lembro-me de um jogo terrível, contra Dinamarca ou Países Baixos, em que já sabíamos que íamos perder e só corríamos para trás. Portugal cresceu bastante e entrarmos em campo com a possibilidade de nos batermos contra as melhores seleções do mundo faz-me sorrir. Era algo inimaginável, nem eu achava que um dia Portugal ia conseguir fazer isto.
MF: Ainda há um caminho a percorrer, mas caso Portugal chegue ao Mundial 2027, com o que é possível sonhar?
JS: Ainda falta, mas naturalmente queremos fazer mais do que fizemos na última vez. O principal objetivo é estar lá e é um “dever”, enquanto Seleção e grupo, porque temos qualidade para lá estar. Não podemos saltar etapas, estamos numa fase de qualificação e temos de nos apurar. Vai haver muitos jogos até lá e queremos ganhar todos. Depois o selecionador vai definir os objetivos, mas acho que naturalmente o objetivo é fazer mais do que fizemos.
MF: Para terminar, falemos um pouco sobre o teu futuro. Onde te vês daqui a um ou dois anos. Planeias ficar na Arábia Saudita?
JS: Ainda não sei, não tenho contrato para o próximo ano, portanto não sei onde vou estar. Claro que tenho as minhas ideias, mas sinto-me numa fase muito lúcida da minha carreira. Estou muito saudável dentro e fora de campo e isso é muito importante. Sei muito bem o meu lugar e o que posso acrescentar nos projetos onde estou. Não tenho muitos mais anos para jogar, por isso cabe-me desfrutar do que tenho para dar dentro de campo, já que tenho paixão por este jogo.
MF: Existe alguma possibilidade de regressares a Portugal?
JS: Acho que é muito difícil acontecer, muito sinceramente, mas não posso dizer que não. É uma realidade um pouco difícil de acontecer, mas nunca se sabe. Seja onde for, vou acrescentar.