Numa altura de enorme incerteza a nível internacional, Jéssica Silva garante ser «inimaginável» viver num país onde não se sente segura e recorda a lesão no olho que a afastou dos relvados durante algumas semanas há cerca de um ano - PARTE III
Não é todos os dias que se vêem mísseis a passar pelos céus, mas a verdade é que Jéssica Silva tem essa imagem bem presente na cabeça, numa altura em que o mundo assiste ao conflito entre Estados Unidos e Irão. O Médio Oriente tem estado debaixo de «fogo» e, apesar de se sentir segura, a internacional portuguesa não descarta a hipótese de deixar o país, caso o problema escale.
Maisfutebol (MF): Vivemos um período de enorme incerteza a nível mundial, com o conflito entre Estados Unidos e Irão. Como te tens sentido no meio deste contexto? Já ponderaste sair do país?
Jéssica Silva (JS): Tenho uma irmã que vive no Dubai e quando isto despoletou eu estava na Seleção Nacional e ela estava aqui em minha casa. A verdade é que sempre me senti muito segura aqui, claro que há uma diplomacia muito grande entre os países. A Arábia vai tentar sempre não entrar na guerra, senti-me muito segura. Tive um episódio há dez dias, porque vi pela primeira vez dois mísseis, antes de irmos para um jogo de treino e aí tremi. Uma coisa é ver notícias que dizem que drones foram intercetados ou mísseis intercetados, não vemos e não ouvimos.
MF: (...)
JS: Outra coisa é quando estás a ir para o treino e a situação aconteceu quando estava com a minha irmã. Passei-lhe os telemóveis porque ia treinar e ela perguntou-me se tinha visto um míssil a passar. Eu disse-lhe: “Achas, deve ter sido uma estrela cadente”. Olho para cima e vejo outro míssil a passar, ouço uma explosão e comecei a chorar dentro de uma casa de banho. O treinador perguntou se estávamos em condições, porque íamos jogar contra os rapazes, e foi uma situação muito desconfortável para mim. Estava com receio de ser uma das jogadoras que não estavam capazes de treinar, mas não disse nada, mantive-me no meu canto, e eles tomaram a decisão de não realizar o treino. Isso abanou-me um bocadinho, falei com algumas pessoas, e disse que não queria que fosse uma realidade para mim.
MF: (...)
JS: Ver mísseis a passar, como acontece em Israel, sendo que as pessoas têm bunkers em casa. A verdade é que isso nunca mais aconteceu, espero que não escale para estes lados, mas para mim é inimaginável viver num país onde não me sinta segura. Não quero mesmo, não tenho intenção, é importante estar atenta a esta situação. Não tivemos avisos por parte de ninguém, mas estou sempre atenta às notícias. O importante é não viver com um sentido de alerta, por enquanto estou ok.
MF: Há coisa de um ano sofreste uma lesão grave no olho e estiveste afastada dos relvados durante um mês. Como foi todo esse período de incerteza e alguma vez ponderaste colocar um ponto final na carreira?
JS: Houve notícias um pouco agressivas, mas não sei se foi de má vontade. Sei que houve notícias mal escritas, mas houve títulos sensacionalistas que não tornaram a minha fase fácil. Não estava atenta aos ecrãs, mas da minha parte nunca ponderei desistir. Claro que senti o meu chão a tremer mais uma vez, já tinha sentido uns meses antes quando fui operada a um mioma de urgência e isso abanou-me. De repente, ficar sem ver de um olho durante duas semanas fez com que tudo se metesse em questão. Os médicos nos EUA apresentam o pior cenário e isso assustou-me. Já tinha estado lá antes, mas não percebi que era assim que eles faziam as coisas. Vi a minha vida a andar para trás uma vez mais, não era uma lesão desportiva, ainda que tenha sido causada num treino, numa parvoíce. Ninguém me sabia dizer quando é que ia voltar a ver. Se me dissessem que era uma questão de um ou dois meses… eu não sabia.
MF: (...)
JS: Não estou totalmente recuperada, mas o facto de poder jogar é algo que me deixa bastante feliz. Já tinha tido outras más experiências, mas quando nos acontece algo negativo ainda damos mais valor. Foi um processo complicado porque todos me questionavam e eu não sabia. O meu olho ainda dá sinais de não estar perfeito, mas o corpo tem uma capacidade imensurável de adaptação. Esse cenário de não jogar mais pode ter sido um cenário para os médicos, mas era uma questão de tempo, não sabendo quando ia ficar bem. Foi um processo duro. Era algo que me podia criar alguma limitação para o resto da vida. Ficamos alerta para outras coisas mais importantes. Estava sozinha e repensas a tua vida, foi duro e estar a questionar sobre a minha vida. Estou recuperada no sentido de que posso fazer o que amo, jogar futebol.