Cinco jovens mulheres olham ansiosamente para um computador portátil. Esta é a chamada que há muito esperavam. Uma mistura de emoções toma conta delas quando cada uma descobre que foi selecionada pela FIFA para integrar a equipa feminina de refugiadas do Afeganistão.
As jogadoras afegãs exiladas têm lutado pelo direito de representar o seu país desde que fugiram do Afeganistão, quando os talibãs retomaram o poder há quatro anos.
A CNN passou dois dias, em setembro, com algumas das atletas que vivem no norte de Inglaterra. Fazem parte de dezenas de jogadoras que fugiram para países como a Austrália, os Estados Unidos e Portugal.
“Obviamente, é um momento incrível para todas nós. Mal posso esperar para partilhá-lo com a minha família”, conta à CNN a guarda-redes Elaha Safdari.
“Tenho a certeza de que os meus pais vão sentir orgulho em mim e provavelmente vão ver-me na televisão”, acrescenta a jovem de 21 anos antes de desatar a chorar. Os pais foram forçados a permanecer no Afeganistão por razões de saúde, deixando Safdari e o irmão a começar uma nova vida como refugiados em Inglaterra.
A seleção de 23 jogadoras – anunciada publicamente pela FIFA – deverá disputar uma série de jogos num torneio amigável no Dubai em outubro, organizado pelo organismo que rege o futebol mundial e antecedido por um estágio de preparação. As afegãs vão defrontar as seleções do Chade, da Líbia e dos Emirados Árabes Unidos.
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, saudou a criação da equipa feminina como um momento “histórico”. No entanto, a iniciativa fica aquém do reconhecimento oficial como seleção nacional do Afeganistão, algo que sempre foi o objetivo principal das jogadoras.
Os regulamentos da FIFA exigem o reconhecimento por parte da Federação Afegã de Futebol (AFF), que baniu totalmente o desporto feminino. Apesar de os próprios estatutos de igualdade de género da FIFA afirmarem que a discriminação com base no género “é estritamente proibida e punível com suspensão ou expulsão”, o organismo continua a reconhecer a AFF.
“Estou muito grata por isto acontecer depois de quatro anos — a FIFA deu-nos a oportunidade e, basicamente, abriu-nos as portas e acolheu-nos”, afirma a defesa Narges Mayeli.
“Mas eu preferia o título de seleção nacional feminina do Afeganistão, e sinto que muitas das minhas colegas estão na mesma página que eu neste momento.”
Mayeli conta que continua determinada, apesar de não ter sido chamada para a equipa. “Vamos continuar a lutar, de qualquer forma”, acrescenta com um sorriso.
E há ainda o facto de a FIFA ter escolhido o nome equipa feminina de refugiadas do Afeganistão. Embora as atletas estejam plenamente conscientes da sua condição, é um termo que muitas vezes as faz sentir-se como forasteiras, especialmente quando entram em campo.
“Queremos mais do que isso por parte da FIFA”, afirma a jogadora Zainab Mozaffari. “Estamos cansadas de ser chamadas de ‘refugiadas’.”
Questionada pela CNN, a FIFA afirmou em comunicado que “a organização da equipa feminina de refugiadas do Afeganistão representa um passo importante e histórico no sentido de dar às jogadoras afegãs a plataforma e o reconhecimento internacionais a que aspiram.
“Apesar dos desafios e circunstâncias complexos e excecionais, acreditamos que estamos no caminho certo e orgulhosos do que já foi alcançado, mesmo nesta fase inicial de implementação desta estratégia histórica”, lê-se no comunicado. A FIFA afirmou ainda ter trabalhado para melhorar a situação do futebol feminino afegão dentro do país e para apoiar as jogadoras no exílio desde que deixaram o país em 2021.
"O futebol salvou a minha vida"
Mayeli tinha 18 anos quando os talibãs tomaram o poder.
“Estava muito assustada… Tinha todas as minhas camisolas e medalhas”, recorda. “Pedi ao meu pai para as enterrar.”
Sentado em frente à filha, na sala de estar em Doncaster, Inglaterra, Abdul Raziq confessa que esconder o equipamento da equipa juvenil da filha foi doloroso, tendo em conta o esforço que ela dedicou ao futebol em Herat. Reviver essa memória emociona ambos.
Após meses de caos e uma operação internacional de resgate, a família Mayeli, juntamente com várias outras jogadoras e alguns dos seus familiares, conseguiu chegar a Doncaster. Muitas não falavam inglês e acabaram por viver num hotel durante dois anos enquanto aguardavam a aprovação dos seus pedidos de asilo.
“O futebol salvou a minha vida e, obviamente, a vida da minha família e de tantas outras raparigas e pessoas”, afirma Mayeli, que acaba de iniciar uma licenciatura em gestão desportiva.
Futebol como plataforma para os direitos humanos
O facto de os talibãs praticamente terem apagado as mulheres da vida pública no Afeganistão pesa sobre as atletas. A defesa Najma Arefi, de 22 anos, quer tornar-se advogada de direitos humanos.
“Como seres humanos, nascemos livres… e de repente tudo desabou”, afirma, lamentando que o seu país esteja novamente sob o controlo do regime islâmico radical.
Arefi sublinha que as mulheres foram as mais afetadas pelo sismo mortal do mês passado — uma mensagem ecoada pela Representante Especial da ONU para as Mulheres no Afeganistão — apenas um dos muitos exemplos do seu sofrimento.
Usar o futebol como ferramenta de defesa dos direitos humanos é a missão de vida de Khalida Popal. A ex-capitã da seleção feminina afegã fugiu do país em 2011 depois de denunciar corrupção e abusos de poder dentro da federação. Permanecer no Afeganistão tornou-se impossível.
O ativismo de Popal continua até hoje, a partir do exílio na Dinamarca, onde se mantém como mentora das atletas. Conta que viver como refugiada lhe permite relacionar-se com as jogadoras a um nível mais profundo.
“Sacrificámos tanto. Para nós, o futebol sempre foi uma ferramenta de luta pelos nossos direitos humanos, pelas nossas irmãs, que nunca tiveram verdadeiramente voz”, afirma Popal, enquanto observa as jogadoras durante um treino em Doncaster. Reúne-se com elas no relvado antes do aquecimento e diz-lhes que a equipa criada sob a égide da FIFA “é apenas o começo”, transbordando de orgulho.
“Temos gritado bem alto. Temos batido a todas as portas fechadas para chamar a atenção da FIFA, para que ouvissem as nossas vozes, para que nos escutassem”, acrescenta, referindo-se à sua missão de recuperar o nome de seleção nacional do Afeganistão.
Por agora, as 23 jogadoras da equipa podem olhar em frente e preparar-se para se reencontrarem este mês no Dubai. “Os talibãs tiraram-me o meu sonho, e estou ansiosa — faminta por jogar”, afirma a guarda-redes Safdari. No entanto, não consegue disfarçar a frustração com a luta contínua pelo reconhecimento da equipa.
“É só futebol. Deixem-nos jogar. Deixem-nos representar o nosso país.”
