Muitos investigadores, juniores e seniores, receiam que esta decisão inesperada seja um retrocesso no compromisso do Estado com o conhecimento científico e a inovação, sinalizando uma eventual subordinação da ciência a agendas político-administrativas num horizonte a curto-médio prazo.
A decisão do Governo de extinguir a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) caiu como uma bomba numa quota-parte da comunidade científica em Portugal. Para uns, é vista como que uma jogada incompreensível que desvaloriza uns tantos e quantos anos de esforço em prol da investigação nacional e dos centros de investigação, laboratórios, politécnicos e universidades. Para outros, uma hipótese ou alternativa (há muito esperada e aguardada) de (re)começar do zero.
Quantos investigadores não se queixaram já de candidaturas intermináveis, relatórios kafkianos e decisões que pareciam sair de uma autêntica lotaria?
Não havia burocracia a mais e estratégia a menos?
Mas extinguir a FCT? Sem aviso, sem debate público, sem escutar os principais stakeholders da ciência portuguesa?
A ciência não se faz nem evolui em ciclos políticos de quatro anos… O Governo fala em simplificação, em modernização, em ligar melhor a ciência às empresas.
A extinção da FCT pode vir a ser uma oportunidade — mas apenas se for acompanhada por um verdadeiro compromisso com a valorização da ciência, com reforço orçamental, simplificação administrativa e, acima de tudo, respeito pelos investigadores. Caso contrário, será apenas mais um episódio de descontinuidade institucional que a memória da ciência portuguesa lamentará.
Portugal não tem qualquer margem que seja para desvalorizar a investigação. Somos um país que precisa desesperadamente de inovação, de mais e melhor investigação, bem como de atrair e fixar talento. Que não se enfraqueça a base de apoio à ciência, num país que sempre coxeou no que toca ao investimento público em I&D diz respeito.
Podemos e devemos reformar a forma como financiamos a ciência?
A comunidade científica merece melhor. A sociedade igualmente. E o país também.
