Nos últimos 10 anos, colaborou ainda com a McDonald's, McCain Foods e Nestlé, gerando preocupações junto de especialistas
O responsável pelo programa de obesidade da Fundação Novo Nordisk presta consultoria remunerada à Ferrero, empresa produtora de chocolate, situação que tem gerado críticas de especialistas em saúde pública, avança o Financial Times.
Arne Astrup, que lidera a área de obesidade e ciências nutricionais na fundação, tem uma trajetória marcada por colaborações com grandes multinacionais do setor alimentar. Nos últimos 10 anos, foi consultor de empresas como McDonald's, McCain Foods e Nestlé, além da Ferrero.
A Fundação Novo Nordisk, que detém a maioria do capital da farmacêutica Novo Nordisk – uma das maiores do mundo no desenvolvimento de fármacos para perda de peso e diabetes, como Ozempic – esclarece que a colaboração de Arne Astrup com a Ferrero é realizada "a título pessoal", sem qualquer ligação às atividades da fundação.
O mesmo jornal adianta que a Ferrero, terceira maior produtora mundial de confeção de chocolate, confirma a ligação ao especialista, referindo que este "partilhou a sua experiência em nutrição", à semelhança do que fez com outras empresas. A colaboração incluiu palestras em cursos de mestrado numa universidade parceira e sessões de formação para funcionários da empresa.
A polémica intensificou-se após a nomeação de Arne Astrup no ano passado, como mentor num projeto da Universidade de Copenhaga que pretende reformular a classificação Nova – um dos principais sistemas científicos de categorização de alimentos ultraprocessados. Segundo o Financial Times, o projeto tem financiamento da Fundação Novo Nordisk.
A ligação entre Arne Astrup e a indústria alimentar levanta preocupações entre especialistas em saúde pública. Citado pelo jornal, o professor Carlos Monteiro, cientista brasileiro e criador da classificação Nova, sublinha ao jornal britânico que as políticas de saúde devem basear-se em "ciência independente" e não ser moldadas por entidades com interesses financeiros em doenças associadas à alimentação. O especialista observa ainda que Arne Astrup tem um "grave conflito de interesses", por ter trabalhado com diversas indústrias de produtos ultraprocessados.
Também Katharine Jenner, diretora do grupo de campanha Obesity Health Alliance, expressa as suas reservas sobre o envolvimento de Arne Astrup, indicando ao FT que há um "flagrante conflito de interesses". Para a dirigente, é preocupante que quem trabalha na redefinição dos alimentos ultraprocessados mantenha laços com a indústria que beneficia destes produtos, "seja por venderem os alimentos que nos adoecem ou por fornecerem os medicamentos que tratam essas doenças".
A Fundação Novo Nordisk assegura, no entanto, que a investigação conduzida pela Universidade de Copenhaga decorre de forma independente, sem interferência da instituição, apesar do financiamento concedido. Por sua vez, a universidade afirma ao FT que todos os seus projetos são conduzidos de acordo com o código de conduta para investigação responsável e que, até ao momento, não há indícios de qualquer violação ética.
Arne Astrup ingressou na Fundação Novo Nordisk em 2020, depois de ter sido responsável pelo departamento de nutrição da Universidade de Copenhaga.
A classificação Nova tem sido amplamente debatida na comunidade científica, impulsionando novas investigações sobre o impacto dos alimentos ultraprocessados na saúde, nomeadamente na obesidade e na diabetes. No entanto, o modelo tem gerado divisões, com críticos a argumentarem que a categorização se baseia excessivamente no grau de processamento dos alimentos, sem considerar outros aspetos nutricionais.
