Fundação do Gil, 25 anos e milhares de crianças apoiadas: "Em cada vida que nós tocámos, tivemos uma intervenção verdadeiramente transformadora"

7 dez 2024, 18:00
Patrícia Boura

ENTREVISTA | Patrícia Boura está à frente dos destinos da Fundação do Gil há quase 11 anos. Antes, já tinha passado pela direção financeira da instituição. Numa altura em que o projeto completa 25 anos, dá uma entrevista à CNN Portugal, onde fala dos novos projetos e dos maiores desafios da Fundação

A Fundação do Gil nasceu em 1999. O simpático boneco que foi mascote da Expo'98 tornou-se o “rosto” de um projeto dedicado ao bem-estar global das crianças. Começaram por levar conforto a crianças internadas em hospitais, passaram para projetos de apoio domiciliário a crianças doentes, com “um impacto muito grande” na vida dos utentes, mas também das famílias.

Do apoio a crianças doentes ao acolhimento institucional de crianças com fragilidades sociais e familiares, nasceu a Casa do Gil, que já acolheu temporariamente mais de 400 crianças.

A Fundação tem crescido em dimensão e em número de projetos. O mais recente é a Clínica do Gil, que veio, diz Patrícia Boura à CNN Portugal, “para democratizar a saúde mental” de crianças, adolescentes e jovens adultos em Portugal.

Vou começar por lhe perguntar se, 25 anos depois, a Fundação do Gil, é aquilo a que se propôs?

Eu diria que temos feito um caminho muito, muito consistente e muito além daquilo que eu penso que eram as expectativas iniciais. Obviamente que a ideia inicial dos fundadores era apoiar crianças vulneráveis e isso, obviamente, nós continuamos a fazer. Mas, hoje, fazemo-lo de várias formas e com vários projetos. Portanto, acho que crescemos imenso nestes 25 anos.

Começámos a fazer apoio nos hospitais. Hoje, a nossa intervenção e o nosso impacto social são bastante mais profundos. Nós temos a Casa do Gil, que é o centro de acolhimento temporário para crianças dos 0 aos 12 anos. Aqui, como equipa multidisciplinar, aquilo que nos propomos é recuperar as vidas destas crianças, restituir-lhes o sentido de família e a dignidade, para depois as devolver às suas famílias ou a uma nova família, mas estruturadas e com muita dignidade.

São crianças muito marcadas pela vida…

Percebemos, ao longo dos últimos anos, com este projeto específico, que estas crianças já vinham muito marcadas por questões de saúde mental e emocional, naturalmente, por todos os traumas que viveram. E, portanto, desenhámos um projeto novo, a Clínica do Gil que lançámos este ano. Ela nasce desta necessidade específica, mas é um projeto autónomo.

E é mais um exemplo do crescimento do âmbito de atuação da Fundação…

A Fundação tem vindo a fazer isso: dos seus dois projetos iniciais, a Casa do Gil e os cuidados domiciliários pediátricos, temos vindo a crescer naquilo que são necessidades complementares e naquilo que são as necessidades que vivemos na sociedade. A Clínica do Gil nasceu, em primeiro lugar, para dar resposta às crianças da Casa do Gil, mas é um projeto autónomo, que está aberto ao mercado.

Percebemos que os problemas de saúde mental das crianças não eram um exclusivo das casas de acolhimento e que uma em cada cinco crianças tem questões de saúde mental (e isto são relatórios antes da pandemia de covid-19). Portanto, decidimos abrir um projeto totalmente virado para a comunidade, onde apoiamos as nossas crianças e as crianças de outras casas de acolhimento, mas vamos muito além disso. A Clínica do Gil vem aqui com este chapéu de saúde mental apoiar os projetos já existentes e, na verdade, expor-se a toda a comunidade e dar espaço para democratizar a saúde mental.

Que especialidades é que tem e quantas crianças tem capacidade para apoiar?

Estamos abertos há cinco meses. O objetivo é apoiar bebés, crianças, jovens adolescentes e jovens adultos, dos zero aos 25 anos. A ideia é acompanhar inclusive jovens universitários, porque achamos que é aqui um target que faz todo o sentido acompanhar.

Temos um conjunto alargado de especialidades, porque pretendemos ter uma intervenção multidisciplinar e olhar a criança de uma forma holística. Temos psicologia, terapia da fala, terapia ocupacional e uma vertente grande de terapias pelas artes, como musicoterapia, ou terapia pela dança. Vamos implementar agora o ioga e a meditação. Além da intervenção pura e dura da neuropediatria, da pedopsiquiatria, da psicologia, da psicopedagogia, da terapia da fala, da terapia ocupacional, da terapia familiar, temos um conjunto muito alargado de valências e que vão crescendo à medida das necessidades. É um projeto dinâmico e à medida que vamos percebendo que precisamos ter aqui outras especialidades, vamos procurá-las.

Temos ainda grupos terapêuticos, compostos pelos nossos pedopsiquiatras e pelos nossos terapeutas para condições específicas. Temos um dedicado ao autismo e outro dedicado a questões da linguagem, por exemplo.

Patrícia Boura diz que a Clínica do Gil nasceu "para democratizar a saúde mental" de crianças, adolescentes e jovens adultos (DR)

Isso envolve um grande número de profissionais?

Sim. Temos um leque de cerca de 30 profissionais que decidiram dar um conjunto de horas à clínica. Ao invés de estarem nas suas clínicas privadas, estão alguns dias da semana ou algumas horas a fazer algumas consultas a preços muito mais baixos, porque acreditaram neste projeto. Recebem valores bem abaixo do que estão habituados a ganhar e isso é de uma grande generosidade.

Como é que se assegura a sustentabilidade de um projeto da envergadura da Fundação do Gil?

Fomos crescendo ao longo dos anos, sempre de forma muito cuidada e muito sustentável. Este é sempre aqui o grande problema das organizações sem fins lucrativos: como não têm fundos, não têm recursos financeiros, às vezes os projetos correm o risco de começarem e depois terminarem por falta de fundos.

Criámos inclusive um espaço que é a Casa do Jardim, que nasceu precisamente para trabalhar a nossa sustentabilidade financeira. É um espaço que nós temos no jardim da Fundação do Gil e que alugamos às empresas e à sociedade civil. As empresas vêm aqui fazer reuniões, team buildings e uma série de atividades. Ao invés de irem para um outro espaço, vêm para aqui e sabem que estão a contribuir para uma causa. A sociedade civil também usa muito o espaço para fazer festas de aniversário, por exemplo. E isto é uma forma de nos financiarmos.

Temos sempre muito esse cuidado de ir avançando nos projetos, mas com sustentabilidade, que é sempre muito frágil.

Por isso é que é importante ter à frente da instituição uma pessoa da área financeira, como é o caso da Patrícia?

Estas organizações são muito mais desafiantes de gerir do que as empresas, precisamente porque não têm recursos. Também não temos acesso a uma série de departamentos. Eu não tenho um departamento de comunicação, de marketing ou de recursos humanos ou mesmo um departamento financeiro. Não temos capacidade de ter essas estruturas todas, precisamente porque não temos fundos e todas as pessoas estão alocadas diretamente aos projetos. Por isso, eu acho que é muito importante que a pessoa que está à frente de um projeto destes tenha, de facto, uma noção de como é que as coisas funcionam, sob pena de o projeto, por mais válido que seja, se não for sustentável financeiramente, deixar de existir.

É pensar nas pessoas sem perder de vista os números…

É esse desafio: tentar melhorar sempre o impacto social e manter este contributo para a sociedade, mas sempre com este peso às costas que é precisar ter dinheiro para pagar salários no fim do mês.

Quantas crianças e quantas famílias é que a Fundação do Gil já ajudou nestes 25 anos?

Na Casa do Gil, são mais de 400 crianças. Nos cuidados domiciliários pediátricos são quase 10 mil crianças e famílias. É um impacto muito grande.

Acima de tudo, mais do que os números, são vidas. Em cada vida que nós tocámos, tivemos uma intervenção verdadeiramente transformadora e de verdadeiro impacto social.

A Fundação do Gil já apoiou mais de 10 mil crianças doentes nos seus domicílios (DR)

Quantas crianças é que a Casa do Gil tem neste momento a residir?

A Casa do Gil tem sempre 16, a ocupação máxima. Agora passará para 15, porque a nova legislação assim o impõe. O projeto de cuidados domiciliários acompanha mil crianças por ano e, agora com a Clínica do Gil, podemos acompanhar mais de 500 crianças por ano.

Quais são os maiores desafios que a Fundação enfrenta neste momento?

Voltamos ao desafio da sustentabilidade. Aquilo que nós temos vindo a sentir, ao longo dos últimos anos e sobretudo depois da pandemia, é que as empresas estão a dar apoios cada vez mais pequenos. Estão mais viradas para dentro, mais preocupadas com o bem-estar dos seus funcionários - e bem -, mas isso significa que sobra menos dinheiro para projetos de impacto social e para a comunidade. E, mesmo quando sobra, dividem por várias organizações e isso significa que temos de fazer um esforço cada vez maior para conseguir os mesmos recursos. É um esforço diário muito, muito grande.

Só a Casa do Gil é que tem um financiamento por parte do Estado e, ainda assim, não é a 100% e, portanto, não é suficiente. Temos sempre de recorrer ao mercado e ao setor empresarial, às campanhas que vamos fazendo e àquilo que vamos inventando para angariar fundos.

Vamos falar um pouco sobre si, Patrícia. Está agora como presidente da Fundação do Gil, mas a sua ligação à instituição não é de agora e já teve outras funções. Fale-me desse seu percurso profissional e daquilo que a levou, ao fim de dez anos no setor empresarial, a virar-se para o setor social.

Eu comecei a minha vida profissional no setor empresarial e adorei. Mas, a dada altura, senti que faltava ali um pequeno propósito. Comecei a achar que o meu propósito podia ser um pouco maior do que apenas os objetivos legítimos das empresas, de gerar lucro para ser distribuído aos seus chefes e aos seus acionistas. Na altura surgiu o desafio de vir para a Fundação do Gil enquanto diretora financeira, porque a Fundação estava a construir a Casa do Gil e precisava de ter um rigor maior nas contas. Eu aceitei o desafio e vim experimentar esta área social e apaixonei-me. Decidi fazer um mestrado em Economia Social e Solidária, no ISCTE e, depois, fui convidada para tomar conta de um organismo público que é a Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES). Nunca tinha tido um cargo público e fui experimentar. Quando terminou essa minha função, que durou três anos, o presidente do Conselho de Curadores da Fundação do Gil, Guilherme Magalhães, ligou-me e disse-me: “eu preciso de si, a Fundação precisa de si! Venha lá! Vamos lá pegar nisto outra vez!”. E assim se passaram dez anos, num abrir e fechar de olhos.

Além das terapias convencionais, a Clínica do Gil aposta na terapia pelas artes (DR)

A Patrícia tem lançado nestes dez anos uma série de projetos que vêm provar que a sustentabilidade pode andar de mãos dadas com o apoio a quem mais precisa. Podemos , de facto, apoiar quem precisa de uma forma sustentável financeiramente?

Não podemos esquecer os números. Temos de olhar para as pessoas, mas não podemos esquecer os números. Qualquer causa social, por mais sentido que faça e por mais bem estruturada que esteja, se não tiver um suporte financeiro atrás, ou não vai acontecer ou vai acabar por morrer. E, às vezes, o impacto dessa morte é pior do que se não tivesse chegado a acontecer.

Essa é a grande preocupação que nós temos aqui: não começamos um novo projeto sem ter a garantia de que ele vai ter capacidade de se aguentar nos primeiros dois anos e ter capacidade de angariar fundos para os anos seguintes. Eu não posso, de repente, tirar as crianças dos hospitais e pô-las em casa, porque lhes vou fazer o acompanhamento a casa e, de repente, fico sem dinheiro para fazer esse acompanhamento. A cama do hospital já foi ocupada, portanto, a criança já não pode voltar para o hospital e ficar sem cuidado.

Estamos a mexer na vida das pessoas e, infelizmente, precisamos de dinheiro. Infelizmente porque é difícil de conseguir bens para suportar estes projetos.

A Clínica do Gil, por exemplo, nasceu nesta lógica de negócio social, mas tem de ser autossustentável. Claro que eu preciso do apoio das empresas para nos suportarem as bolsas sociais, mas a ideia é que, ao fim de três ou quatro anos, a clínica, com o que der das consultas de mercado, possa financiar as outras e seja autossustentável.

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