"Num primeiro momento é tudo muito tranquilo" e em segundos "as coisas desencadeiam-se". Como as polícias apanham os fugitivos

7 fev, 20:53

Os elementos policiais visíveis na detenção dos dois fugitivos de Vale de Judeus, em Alicante, são todos espanhóis. Mas a fórmula é igual em quase todas as polícias do mundo. "Num primeiro momento é tudo muito tranquilo” e em segundos “as coisas desencadeiam-se", explica à CNN Portugal fonte da Polícia Judiciária

Aprender a deter e imobilizar suspeitos faz parte do treino de todos os inspetores da Polícia Judiciária. Mas não só. A PSP e a GNR também têm treinos específicos para estas situações. O vídeo divulgado pelas autoridades espanholas do momento exato da detenção dos dois últimos fugitivos de Vale de Judeus mostra imagens pouco habituais nos noticiários e mais frequentes em filmes ou séries. 

“Num primeiro momento é tudo muito tranquilo, e parece que é apenas o trânsito normal da cidade, e, de um momento para o outro, as coisas desencadeiam-se”, explica à CNN Portugal fonte da Polícia Judiciária. E foi “o que se passou em Espanha”: “Vemos entrarem numa garagem várias viaturas e, a dada altura, um conjunto de pessoas atira-se para cima de outra pessoa.”. O vídeo divulgado tem depois um corte de imagens, propositado, “para não se verem imagens que podem ser chocantes” e, no momento seguinte, “já vemos duas pessoas deitadas no chão com não sei quantas em cima delas”.

E porquê tantas? “Numa situação daquelas nunca sabemos se elas estão armadas, não é?”, observa a fonte da PJ. Imobilizar para não fugirem, reagirem ou usarem armas é determinante nestas situações. “Há obviamente uma parte que se treina, mas que é integrada numa outra que não se treina, que se constrói”, explica a mesma fonte. E o que se treina “é a parte física”.

Como por exemplo a capacidade de imobilizar um suspeito. Sendo que a forma mais segura e eficaz é deitá-lo no chão de barriga para baixo. A extração de suspeitos de veículos também pode ser um momento-chave, mas no caso dos fugitivos de Vale do Judeus eles estavam no exterior.

“Basicamente, há técnicas de imobilização no sentido amplo e literal. Imobilizando não permitindo que a pessoa fuja, imobilizando não permitindo que a pessoa reaja e imobilizando não permitindo que a pessoa use uma arma.”

Todos os elementos da investigação criminal da Polícia Judiciária portuguesa recebem este treino. As mulheres, sublinha a fonte, são de uma “agilidade e de uma velocidade de execução” incrível. No vídeo há mesmo um momento que “o argentino está a ser controlado por uma mulher só”, que se encontra de pé, por cima dele.

No momento da imobilização, “o alvo deve ficar completamente trancado”. “Quer levantar o braço e já não consegue, quer mexer a perna e já não consegue, quer levantar o pescoço e já não levanta.”

Apesar do treino ser igual para todos, dentro da Polícia Judiciária há diversas especializações e umas usam mais a sua capacidade física que outras. “Há pessoas que, em função das suas tarefas, estão mais dedicadas a isso e outras estão mais dedicadas a outro tipo de coisas”, assume a fonte. 

Mas a melhor garantia de que os elementos da PJ estão sempre aptos para efetuarem o seu trabalho requer “supervisionar e adequar”. Não basta aprender, não basta treinar, não basta praticar. É preciso mais fases. Depois é preciso supervisionar, porque a gestão passa também por adequar as pessoas àquilo que fazem com mais eficácia."

E quem faz este tipo de operações treina regularmente? "Nós fazemos treinos, fazemos exercícios, fazemos seleção, fazemos discussão. Mas preparar uma equipa para fazer aquilo que aconteceu [em Espanha], não se prepara. Vai-se preparando, vai-se construindo, vai-se desenvolvendo", esclarece a fonte da PJ.

"Objetivo do treino é que o cenário nunca se complique"

No fundo, "todas as polícias treinam técnicas de abordagem a suspeitos", acrescenta Portugal Carla Pinto, presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal da Polícia Judiciária (ASFIC/PJ). "A polícia espanhola será igual, depois a PSP é igual, a GNR é igual, cada um treina, tem os seus treinos específicos". sendo certo que "o objetivo do treino é que o cenário nunca se complique".

"Não existe um treino psicológico para fazer abordagens", no entanto, a PJ "tem um gabinete de psicologia, que os colegas podem usar se necessário".

Certo é que "qualquer pessoa que trabalha na investigação criminal" faz tudo. "Tanto trabalha no escritório, como a seguir faz abordagens. Não temos pessoas só para as abordagens. Há áreas onde isso acontece mais, áreas onde acontece menos, mas todos os inspetores da PJ têm as duas vertentes", acrescenta Carla Pinto.

A preparação física, essencial neste tipo de detenções, é uma preocupação de grande parte dos inspetores, mas nem todos os departamentos conseguem ter as mesmas condições. "Eu sou do Porto e no Porto há um ginásio e um pavilhão. Nós à sexta-feira temos uma hora para treinar, dentro do horário de serviço. Em Lisboa também sei que existe um ginásio, mas há outros departamentos onde isso não existe", indica Carla Pinto.

Prever o que pode acontecer é sempre difícil e o que pode ser simples, às vezes, complica-se. "Em abstrato, se foram fazer uma busca a um gabinete de um contabilista, em princípio, é tranquilo. Em princípio. Porque depois pode não ser. Já uma busca a um domicílio ou uma abordagem a alguém na rua, pode sempre correr mal", exemplifica.

O mais importante é ter "cautela". "Ou seja, em princípio a pessoa não tem uma arma, mas pode ter. Em princípio não vai disparar, mas pode disparar." E, claro, planear. "Qualquer abordagem, qualquer busca, qualquer detenção, se possível, é planeada", garante Carla Pinto. "Às vezes, as coisas não são assim tão previsíveis, mas o que se tenta fazer é exatamente isso. Planear e prever o possível."

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