Fuga de cérebros dos EUA alimentada por Trump pode ser uma conquista para o resto do mundo

CNN , Lex Harvey
11 jun 2025, 08:00
Fuga de cérebros Ilustração: CNN

Tendo crescido no Brasil, a neurocientista Danielle Beckman sempre sonhou em mudar-se para os EUA para trabalhar. Assim, em 2017, quando Beckman teve a oportunidade de trabalhar no Centro Nacional de Investigação de Primatas da Califórnia, na UC Davis, aproveitou-a.

“Fiquei muito entusiasmada”, recorda. “Vir para os EUA foi sempre um sonho. Foi sempre o sítio ideal para estar, onde há o maior investimento na ciência.”

Mas, meses após o início do segundo mandato do Presidente Donald Trump, enquanto a sua administração trava uma guerra sem precedentes contra as principais universidades e instituições de investigação do país, Beckman já não vê os EUA como um lar bem-vindo para ela ou para a sua investigação, que se centra na forma como as infeções virais como a Covid-19 afetam o cérebro.

A investigadora diz à CNN que planeia mudar-se e que está a analisar oportunidades na Alemanha e em França.

Danielle Beckman, neurocientista brasileira radicada na Califórnia, planeia deixar os EUA na sequência dos cortes da administração Trump no financiamento da investigação foto: cortesia Danielle Beckman

Beckman faz parte de uma onda crescente de académicos, cientistas e investigadores que deixam os EUA, no que muitos alertam poder ser a maior fuga de cérebros a que o país assistiu em décadas.

Mas a perda dos Estados Unidos pode ser o ganho do resto do mundo.

À medida que a administração Trump congela e corta milhares de milhões de dólares em fundos de investigação, interfere nos currículos e ameaça a possibilidade de os estudantes internacionais estudarem nos EUA, os governos, as universidades e as instituições de investigação do Canadá, da Europa e da Ásia estão numa corrida para atrair os talentos em fuga.

A União Europeia comprometeu-se a investir 500 milhões de euros (562 milhões de dólares) para os próximos três anos “para fazer da Europa um íman para os investigadores”.

Uma universidade em Marselha, França, está a atrair académicos perseguidos ao abrigo de um novo programa denominado “Lugar Seguro para a Ciência”. A maior organização de investigação na área da saúde do Canadá está a investir 30 milhões de dólares canadianos (19,18 milhões de euros) para atrair 100 cientistas em início de carreira dos EUA e de outros países. O Conselho de Investigação da Noruega lançou um fundo de 100 milhões de coroas (8,68 milhões de euros) para atrair novos investigadores. O presidente da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura, disse recentemente a uma multidão numa cimeira sobre o Ensino Superior que a escola está a identificar investigadores americanos “superestrelas” para lhes fazer ofertas logo no dia seguinte.

A Academia Australiana de Ciências também lançou um novo programa de talentos para recrutar cientistas americanos desiludidos e atrair australianos de volta para casa.

“Sabemos que estes indivíduos são altamente qualificados, talentosos e têm muito para oferecer”, diz Anna-Maria Arabia, diretora executiva da academia, referindo que o programa tem recebido ‘um interesse encorajador’ até agora.

Arabia diz à CNN que a vaga de instituições que se apressam a preencher o vazio deixado pelos cortes de financiamento dos EUA reflete uma “fome global” de profissionais de ciência e tecnologia.

“É de vital importância que a ciência possa continuar sem interferência ideológica”, diz Arabia.

O Shine Dome na Academia Australiana de Ciências em Camberra, Austrália foto: Simon McGill/Moment Mobile ED/Moment Editorial/Getty Images

Os EUA podem perder a sua vantagem científica

Os EUA são, desde há muito, uma potência no que diz respeito à investigação e desenvolvimento (I&D), atraindo talentos de muito longe com os seus grandes orçamentos, salários elevados e laboratórios sofisticados.

Desde a década de 1960, a despesa pública dos EUA em I&D mais do que duplicou, passando de 58 mil milhões de dólares (50,82 mil milhões de euros) em 1961 para quase 160 mil milhões de dólares em 2024 (em dólares ajustados à inflação, correspondente a cerca de 140 milhões de euros), de acordo com dados federais. Se incluirmos o financiamento de I&D do setor privado, esse número aumenta para mais de 900 mil milhões de dólares (788 mil milhões de euros) em 2023.

O enorme investimento dos EUA em I&D conduziu a uma influência desproporcionada na cena mundial. Os EUA acumularam mais de 400 Prémios Nobel, mais do dobro do que o país seguinte, o Reino Unido. Mais de um terço dos prémios dos EUA foram conquistados por imigrantes.

“Há décadas que somos respeitados em todo o mundo porque formámos as gerações seguintes de investigadores que estão a avançar para novos territórios”, afirma Kenneth Wong, professor de política educativa na Universidade de Brown.

Mas o segundo mandato de Trump alterou a relação entre o Ensino Superior e o governo federal.

As reduções nas agências federais de Saúde e Ciência ordenados por Trump levaram a grandes perdas de emprego e cortes de financiamento, incluindo nos Institutos Nacionais de Saúde, que financiam cerca de 50 mil milhões de dólares (43,8 mil milhões de euros) em investigação médica todos os anos em universidades, hospitais e instituições científicas.

Entre o final de fevereiro e o início de abril, a administração cancelou quase 700 bolsas dos NIH num total de 1,8 mil milhões de dólares (1,58 mil milhões de euros), de acordo com uma análise publicada no Journal of the American Medical Association. A administração Trump propôs uma redução de 40% do orçamento dos NIH em 2026.

A National Science Foundation também reduziu os subsídios em cerca de 1,4 mil milhões de dólares (1,23 mil milhões de euros). No início de junho, 16 estados norte-americanos processaram a administração Trump por causa dos cortes na NSF, que, segundo eles, irão impedir “a investigação científica inovadora” e pôr em risco “a segurança nacional, a economia e a saúde pública”.

Manifestantes seguram cartazes durante um protesto de apoio aos estudantes internacionais na Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts, na terça-feira, 27 de maio de 2025 foto: Sophie Park/Bloomberg/Getty Images

Trump também tem como alvo as universidades de elite e está no meio de uma batalha legal com a Universidade de Harvard por causa da sua recusa em ceder às diretivas da administração Trump para eliminar programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), resultando em milhares de milhões em financiamento federal congelado. Essa batalha agravou-se significativamente no final de maio, quando Trump proibiu a capacidade de Harvard de inscrever estudantes internacionais – uma decisão rapidamente travada por um juiz federal horas depois de Harvard ter apresentado uma ação judicial.

Há duas semanas, a Casa Branca ordenou às agências federais que cancelassem todos os contratos restantes com Harvard.

“O presidente está mais interessado em dar o dinheiro dos contribuintes a escolas de comércio e programas e escolas públicas que promovam os valores americanos, mas, acima de tudo, educar a próxima geração com base nas competências de que necessitamos na nossa economia e na nossa sociedade: aprendizes, electricistas, canalizadores”, disse a assessora de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, na Fox News.

“Precisamos de mais pessoas assim no nosso país, e menos licenciados LGBTQ da Universidade de Harvard.”

‘Não me sinto muito bem-vinda’

As instituições estrangeiras já aproveitaram a oportunidade para acolher os estudantes de Harvard que se encontram num limbo jurídico. No final de maio, a Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong declarou que aceitará todos os estudantes de Harvard que desejem transferir-se, bem como os futuros estudantes com uma oferta atual de Harvard.

“Considero que esta é a crise mais significativa que as universidades estão a enfrentar desde a II Guerra Mundial”, ressalta Wong. “Estamos a assistir a uma redefinição completa desta relação de colaboração entre o governo federal e as principais instituições de investigação.”

A Universidade de Ciiência e Tecnologia de Hong Kong em Guangzhou, na China, fotografada a 19 de março de 2025 foto: VCG/Getty Images/File

Outrora o farol da investigação científica, os EUA tornaram-se agora um local cada vez mais hostil para estudar, ensinar e fazer investigação. Três quartos dos cientistas norte-americanos inquiridos pela revista Nature, em março passado, disseram que estavam a considerar deixar o país devido às políticas da administração Trump.

Alguns já abandonaram o barco. Os professores de Yale Jason Stanley, Marci Shore e Timothy Snyder, proeminentes estudiosos do fascismo, anunciaram em março que estavam de partida para a Universidade de Toronto, do outro lado da fronteira, no Canadá, devido às afrontas de Trump à liberdade académica.

Beckman, a neurocientista brasileira, diz que o seu laboratório viu cancelados 2,5 milhões de dólares (2,19 milhões de euros) de financiamento nos últimos meses. Além desses problemas de financiamento, Beckman disse que a repressão do governo Trump aos imigrantes e a mudança de atitudes em relação aos estrangeiros nos EUA também a levaram a procurar trabalho noutros lugares.

“É a primeira vez, desde que me mudei para cá, que já não me sinto assim tão bem-vinda”, diz.

À medida que o ecossistema de investigação dos EUA responde à redução dos orçamentos e às intrusões na liberdade académica, os cientistas em início de carreira vão ser os mais afetados, refere Wong. Mas os investigadores mais jovens também têm mais mobilidade e as instituições de todo o mundo estão a recebê-los de braços abertos.

“O que estamos a perder é todo este quadro de investigadores altamente produtivos, jovens, enérgicos, bem formados, conhecedores e avançados, que estão prontos para descolar”, diz Wong.

Segundo Wong, há muito que os outros países têm vindo a descurar o investimento em investigação científica, uma vez que os EUA absorveram as necessidades de I&D do mundo. Mas essa tendência está a mudar.

As despesas em I&D na China aumentaram nas últimas décadas e o país está quase a reduzir a diferença em relação aos EUA. A China gastou mais de 780 mil milhões de dólares (683 mil milhões de euros) em I&D em 2023, de acordo com dados da OCDE. A União Europeia também está a gastar mais em I&D. O investimento em I&D no bloco aumentou de cerca de 336 mil milhões de dólares (294 mil milhões de euros) em 2007 para 504 mil milhões de dólares (441 mil milhões de euros) em 2023, de acordo com a OCDE.

Durante alguns meses, Beckman diz que considerou afastar-se da sua investigação sobre a Covid-19, que se tornou cada vez mais politizada sob a administração Trump.

Mas depois começou a receber convites de entrevistas em instituições de outros países.

“Há interesse em virologia em todo o mundo, exceto nos EUA, neste momento.”

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