"A Fuga" tem coragem, traição, emoção, um carro blindado e um homem que torna possível o que se julgava impossível. Paulo Caetano e Jorge Mateus transformaram a fuga de oito detidos da prisão de Caxias, em 1961, num livro de banda-desenhada
Era um Chrysler preto, de sete lugares, completamente blindado. Tinha sido oferecido por Hitler a Salazar, que o usou como carro oficial durante algum tempo, mas depois trocou-o por outro mais novo. O carro esteve nas garagens da Pide e acabou por ir parar à prisão de Caxias. Ficou ali esquecido, com a chave na ignição, mas não andava. “O senhor é que me vai pôr aquele carro a trabalhar”, disse o diretor da prisão a António Tereso. O preso, que tinha caído nas boas graças do diretor com os seus dotes de mecânico, viu ali a oportunidade que tanto esperava. “Foi como um relâmpago! Em segundos, logo ali vi como se ia dar a fuga, como ia transportar todos os camaradas. Que alegria eu senti!”, contaria mais tarde. Foi naquele carro que no dia 4 de dezembro de 1961, oito detidos, opositores ao regime, fugiram, de forma espetacular.
A história poderia dar um filme, mas para já dá um álbum de banda-desenhada: "A Fuga", de Paulo Caetano e Jorge Mateus. O livro centra-se na figura de António Tereso, o herói improvável.
Operário da Carris e militante do PCP, foi preso por estar envolvido em atividades subversivas. Em fevereiro de 1960 foi condenado à pena de dois anos e três meses de prisão, além da suspensão de direitos políticos por 15 anos. Na prisão de Caxias foi abordado por outro preso, José Magro, dirigente do Comité Central do PCP, com a proposta de que simulasse o abandono das suas convicções para obter um tratamento especial da parte da polícia e assim poder ter acesso a outras áreas da prisão e arranjar um plano de fuga para alguns presos. Tereso não queria. Não queria ser visto como "rachado", ou seja, um traidor. Mas acabou por aceitar.
Começou a dizer que que já não queria saber de política. "Antes era comunista, agora sou comodista", dizia. Meteu-se em zaragatas com antigos camaradas, com quem partilhava a cela. Pediu para ser transferido e ser admitido como trabalhador da prisão. Só dois dos presos, os camaradas José Magro e Afonso Gregório, com quem ele comunicava, sabiam a verdade. Todos os outros acreditaram que ele tinha, de facto, mudado de lado. Assim como os seus antigos companheiros fora da prisão e até a mulher. Foi desprezado e ostracizado por todos, mas manteve-se focado no seu objetivo. Até ter acesso ao Chrysler e conseguir um trabalho como motorista dos polícias da prisão.
“O que me interessou na fuga não foi tanto a fuga em si, mas como um tipo normal, que é como qualquer um de nós, perante certas circunstâncias, consegue superar-se a si próprio, vencer os seus medos, e aceita pôr em risco a sua vida e a sua liberdade em nome de um ideal, de algo que é mais importante”, explica Paulo Caetano. “Sem ele não teria havido fuga.”
A 4 de Dezembro de 1961, Tereso conduziu o carro contra o portão da prisão, que não resistiu ao choque. Sob uma "chuva de balas", fugiram da prisão completamente ilesos, além de Tereso, sete militantes e dirigentes do PCP: José Magro, Francisco Miguel, Domingos Abrantes, António Gervásio, Guilherme de Carvalho, Ilídio Esteves, Rolando Verdial.
Paulo Caetano, antigo jornalista, autor de documentários e de diversos livros sobre natureza e ambiente, é também um fã e colecionador de banda desenhada e há muito que tinha vontade de experimentar também este formato. A sua primeira obra em BD foi publicada em 2022: “Feras e Homens: A Fauna no Portugal Medieval”. A parceria com o ilustrador Jorge Mateus correu tão bem que, desde então, a dupla manteve-se. “O Segredo dos Mártires”, publicado em 2024, mergulhava nos segredos da Nossa Senhora dos Mártires, a caravela portuguesa que em 1606 foi até à Índia, mas acabaria por naufragar no regresso, após oito meses de viagem e já com Lisboa à vista. “A história do Tereso surge nessa minha busca por histórias reais", conta Paulo Caetano. "A Fuga” é o terceiro livro de BD dos dois autores (mas não será o último, fica já aqui o aviso).
O autor tentou saber tudo que havia para saber sobre este homem. Depois da fuga, Tereso passou à clandestinidade com o apoio do PCP e exilou-se na Checoslováquia. Regressou a Portugal depois do 25 de Abril de 1973 e foi reintegrado na Carris. António Tereso morreu em 2017, com 89 anos. “Fui conhecê-lo através dos olhos da Pide. Passei uns dias na Torre do Tombo a consultar os vários processos, dele e dos seus companheiros”, conta Paulo Caetano. Além de tudo o que leu, nos jornais e livros, entrevistou Domingos Abrantes, o único envolvido na fuga que ainda está vivo, e foi ao Museu do Caramulo ver o famoso carro. “O Tereso já estava a chegar ao final da pena, faltavam-se poucos meses, e ainda não tinha ainda um plano de fuga. E de repente o próprio diretor da cadeia oferece-lhe esta oportunidade - mostra-lhe o carro. Se o carro não fosse blindado a fuga poderia ter falhado”, explica Paulo Caetano.
O objetivo era relatar o acontecimento o mais fielmente possível. Por exemplo, quando se refere a onda de prisões que levou Tereso a Caxias, todos os nomes referidos são de pessoas reais. No julgamento, o nome dos agentes da Pide que depuseram é o nome real e o que eles disseram terá sido, de acordo com os relatos existentes, muito parecido com o que está no livro. “Construo sempre as histórias a partir da base real, com muito rigor. Tudo o que são factos e dados são verdadeiros. Não adultero os factos para caberem na narrativa”, garante Paulo Caetano. “Não há aqui muita ficção. Só os diálogos são ficcionados, mas baseados naquilo que li e no que o Domingos Abrantes me contou.”
Paulo Caetano preocupa-se inclusivamente em fazer também pesquisa de imagens que possam ajudar o ilustrador. Como era a cidade de Lisboa naquele tempo? Como eram as varinas? Como agia a polícia? Como eram os interrogatórios? Como era a prisão? Toda essa investigação é importante, quer para a construção da história quer para a ilustração.
No caso da fuga de Caxias, Paulo Caetano e Jorge Mateus tiveram ainda mais uma fonte, preciosa: “Na altura, a Pide achou que havia uma toupeira, alguém da prisão que tivesse ajudado os presos. Então, para tentar perceber o que se tinha passado, fizeram uma reconstituição da fuga. Essas imagens ajudaram-nos muito.”
Apesar de tudo, este trabalho não se confunde com o jornalismo que antes fazia, diz. “Tem uma componente de ficção, por isso não é jornalismo. Não é como a banda desenha de Joe Sacco, que é verdadeiramente documental. Tem mais a ver com Paco Roca, pegas numa situação real, protagonistas reais e ficcionas algumas partes para compor a história.”