Adeus, coligação semáforo. Olá, GroKo? Kiwi? Quénia? O que vai acontecer na Alemanha a seguir às eleições?

23 fev 2025, 08:00
Friedrich Merz CDU eleições Alemanha (Michael Probst/AP)

Apesar do passo muito criticado de Friedrich Merz no final de janeiro, quando se aliou à AfD no Bundestag para aprovar duas moções sobre migrações e segurança, o cordão sanitário à extrema-direita mantém-se e a CDU segue à frente nas sondagens. Chegado o dia das eleições federais antecipadas, este domingo, é seguro dizer que o líder dos conservadores será o próximo chanceler alemão. Aparte isso, só incógnitas

Um pastor alemão com um ar resignado repousa no colo de uma mulher com a sigla AfD impressa no colarinho da camisa. Está açaimado e com uma trela presa à coleira, que a mulher segura firmemente. No lombo do bicho lê-se “CDU” e pousados no seu focinho estão uns óculos de armação retangular, em tudo semelhantes aos do mais que provável futuro chanceler alemão. Uma chapa pendurada na coleira do cão anula qualquer dúvida: “Merz”.

É assim que o cartoonista Joep Bertrams pinta o atual cenário político da Alemanha – Friedrich Merz, líder do partido conservador, nas mãos de Alice Weidel, a líder do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD). A ilustração foi publicada duas semanas antes das legislativas deste domingo, nas quais o partido de Merz deverá ficar em primeiro lugar e a formação política de Weidel, de ideologia nazi, deverá conquistar o seu melhor resultado de sempre desde a queda do III Reich.

Ainda que todos os outros partidos continuem a excluir qualquer coligação com a AfD, a maioria dos analistas não discorda da visão de Bertrams sobre uma CDU/CSU a comer da mão da extrema-direita – a começar pelo programa eleitoral dos conservadores, nomeadamente no que toca às migrações e asilo, que inclui propostas como deportações em massa e o fim da atribuição de asilo nas fronteiras alemãs.

Foi precisamente por questões de migração e asilo que, a menos de um mês da ida às urnas, o cartoon satírico de Joep Bertrams começou a delinear-se. Num passo inédito em décadas, que na prática traduziu a queda do ‘brandmauer’ (muro de proteção) erguido no pós-II Guerra para manter a extrema-direita fora do poder na Alemanha, a CDU aceitou o apoio parlamentar da AfD para aprovar duas moções não-vinculativas no Bundestag.

No rescaldo da votação, várias cidades alemãs assistiram a protestos de milhares, mas a condenação popular sonora à postura dos conservadores não se traduziu em mudanças nas sondagens. Como até então, a CDU chega ao dia das eleições com uma média de 30% das intenções de voto, contra 22% para a AfD e 16% para o Partido Social Democrata (SPD) de Olaf Scholz, claramente um dos partidos que deverá ser mais castigado hoje nas urnas.

Angela Merkel, arquirrival de Friedrich Merz dentro da CDU, que liderou a Alemanha entre 2005 e 2021, pode ter abandonado o poder há quatro anos, mas ninguém tem dúvidas de que a chancelaria Scholz foi uma mera continuação da sua. Se alguma coisa é certa, estas eleições marcam o fim de uma era e, dado o tamanho do país e o peso da sua economia no continente europeu, isso é verdade também para o resto da União Europeia – o que acontecer em Berlim não vai ficar em Berlim.. 

A coligação semáforo que colapsou no final de 2024, entre o SPD de Olaf Scholz (ao centro), Os Verdes de Robert Habeck (esquerda) e o FDP de Christian Lindner (direita), foi a primeira tripartida da Alemanha em mais de 60 anos (Markus Schreiber/AP)

É provável que os resultados eleitorais inaugurem intensas semanas de negociações que, no limite, poderão conduzir a novas eleições legislativas. Eis, então, o que pode acontecer, com base nas diferentes variáveis aritméticas:

Primeiro, as regras

As eleições federais ao Bundestag, o Parlamento alemão, ocorrem de quatro em quatro anos. Inicialmente, as deste ano estavam marcadas para 28 de setembro, mas o colapso da chamada coligação semáforo – entre o SPD de Scholz, Os Verdes e os liberais do FDP – no mesmo dia em que Donald Trump venceu as presidenciais norte-americanas, ditou que fossem antecipadas.

Podem votar todos os cidadãos com 18 ou mais anos, sendo que cada eleitor tem direito a dois votos: o Erststimme, primeiro voto, serve para eleger diretamente o representante do seu círculo eleitoral (de um total de 299 no país); o Zweitstimme, segundo voto, vai para a lista do partido político que quer a representá-lo no seu estado (de um total de 16 que compõem a Alemanha federal). Qualquer partido que conquiste mais de 5% do segundo voto tem entrada garantida no Bundestag, com as listas estatais a alumiarem a composição da respetiva bancada parlamentar. 

Com recentes alterações às regras eleitorais, o Bundestag deixou de ter 733 assentos e passou a ser composto por 630, uma redução de mais de 100 lugares. Uma das antigas regras foi, contudo, mantida: se um partido falhar o limiar mínimo de 5% de votos, mas conseguir ficar em primeiro lugar em pelo menos três dos 299 círculos eleitorais, elege deputados ao Parlamento federal.

Neste momento, uma das grandes dúvidas é se os liberais do FDP, tidos como os grandes responsáveis pela queda da anterior coligação governamental, vão conseguir cumprir esses critérios e assegurar a eleição de deputados. As sondagens indicam que é bem possível que fiquem de fora. Restam igualmente dúvidas sobre outros partidos menores, cuja entrada ou não no Bundestag ditará, em larga medida, o tom das negociações para a futura coligação alemã.

"A composição do próximo governo depende, em larga medida, dos partidos que conseguem ultrapassar a fasquia dos 5%, algo que, neste momento, é incerto para o Die Linke [A Esquerda], a Aliança Sara Wagenknecht [BSW] e o FDP", explica o cientista político Etienne Hanelt à CNN. "Os números alcançados por cada um serão importantes para a repartição dos lugares dos partidos no próximo Bundestag."

Com base nas sondagens à data de fecho deste artigo, o analista alemão antecipa como mais provável uma coligação da CDU/CSU com o SPD ou, em segundo lugar, entre a CDU/CSU e Os Verdes, sendo que "a primeira opção é mais coerente em termos de política interna e a segunda em termos de política externa e de segurança".

No dia em que Scholz despediu Lindner do cargo de ministro das Finanças, horas depois de Trump ter vencido as presidenciais nos EUA, a analista Sophie Pornschlegel dizia à CNN que o sentimento generalizado na Alemanha é o de que os liberais do FDP foram os grandes responsáveis pela queda da “coligação disfuncional”; "passaram meses a bloquear tudo, sem quererem alcançar qualquer compromisso", e agora poderão ser castigados nas urnas (EPA)

GroKo: CDU + SPD

A chamada Grosse Koalition – grande coligação, ou GroKo – é uma das constelações governamentais mais famosas da Alemanha, integrando os conservadores da CDU/CSU e os sociais-democratas do SPD: desde 1949, houve quatro GroKos, três delas sob a liderança de Angela Merkel. A questão é que, ao contrário de cenários anteriores, os conservadores smoveram-se bastante mais para a direita ao leme de Merz, o que torna os compromissos com o centro-esquerda mais desafiantes.

Para o atual líder da CDU, há um homem que tem “mostrado de forma impressionante” como as coisas devem ser negociadas numa GroKo: Boris Rhein, o atual primeiro-ministro do estado de Hesse, que faz parte da ala ‘Merziana’ do partido. Quando venceu as eleições regionais em 2023, Rhein negociou com o SPD e com Os Verdes, acabando por escolher trabalhar com o SPD por ser um parceiro mais “flexível e conciliador”.

Nas derradeiras semanas antes das eleições federais, Merz referiu-se frequentemente ao governo regional de Hesse como um modelo a seguir – ainda que, quando questionado sobre se prefere coligar-se com o SPD ou com Os Verdes, tenha respondido que “a situação pós-eleitoral não vai ser fácil”. Os especialistas antecipam que o SPD será mais flexível do que Os Verdes também a nível nacional, sobretudo no que toca às migrações e asilo, bandeira de Merz e uma área na qual os próprios sociais-democratas também se encostaram à direita, particularmente no último ano de governação.

Se os resultados eleitorais apontarem na direção de uma nova GroKo, é provável que se assista a movimentações importantes dentro do próprio SPD, até porque Olaf Scholz, o chanceler de saída, já excluiu a hipótese de integrar um Governo Merz. Pelo contrário, o ministro da Defesa, Boris Pistorius, que muitos queriam como cabeça-de-lista do SPD nestas eleições, e o colíder do partido, Lars Klingbeil, deverão ganhar grande relevância.

Uma sondagem nacional do instituto Forsa publicada em novembro mostrava que uma maioria do eleitorado dava preferência a um chanceler Boris Pistorius, atual ministro da Defesa sob Scholz e provável protagonista da próxima chancelaria Merz, se esta integrar o SPD (Getty Images)

Kiwi: CDU + Verdes

Há três estados alemães atualmente governados por coligações entre a CDU e Os Verdes, referidas como coligações Kiwi. Existem várias áreas, sobretudo de política externa e despesas com Defesa, em que as propostas de ambos se sobrepõem, assim como as críticas ao chanceler Scholz por não ter sido mais decisivo no apoio à Ucrânia. Ainda assim, há várias outras em que os dois partidos estão tudo menos alinhados, sobretudo no que toca às migrações e asilo.

Ainda antes de Merz derrubar o ‘brandmauer’ com as moções que levou a votos no Parlamento no final de janeiro, as propostas do programa eleitoral da CDU já tinham gerado ondas entre Os Verdes, que classificam de ilegais medidas como o fecho das fronteiras com outros nove países europeus, algo que o provável futuro chanceler promete implementar logo no primeiro dia do seu mandato. Para além disso, Os Verdes discordam de várias propostas da CDU relativas à Energia e Ambiente.

A juntar às desavenças há Markus Söder, o carismático líder da CSU, partido-gémeo da CDU na Baviera, que tem sido muito vocal na sua oposição a uma aliança federal com Os Verdes. Isto tem alimentado a especulação de que Merz poderá, de facto, seguir o exemplo de Rhein e usar o partido ambientalista como alavanca para forçar o SPD a ceder nalguns pontos a fim de integrar o próximo governo alemão.

O partido de Robert Habeck está alinhado com a CDU de Merz em vários pontos, como política externa e defesa, mas muito desalinhado noutros, como migrações e ambiente (AP)

Alemanha ou Quénia?

A coligação semáforo que Scholz encabeçava desde 2021 e que caiu por causa de querelas com os liberais, sobretudo face à indisponibilidade do FDP para aumentar o teto da dívida pública e, por conseguinte, o apoio à Ucrânia, foi o primeiro Governo tripartido da Alemanha em mais de 60 anos. 

Ao longo das oito décadas do pós-II Guerra, têm sido muito mais comuns as coligações entre dois partidos, mas a crescente fragmentação política e a subida de popularidade de vários partidos mais pequenos, como a AfD e a BSW de extrema-esquerda, fundada há um ano por uma dissidente comunista, abrem caminho a novos tipos de acordos.

Se Os Verdes, o FDP e A Esquerda conseguirem conquistar assentos no Bundestag, uma aliança tripartidária será praticamente impossível de evitar. Nesse caso, e caso as sondagens não tenham fugido muito às reais tendências de voto do eleitorado alemão, a CDU enfrenta duas grandes opções: a chamada coligação Alemanha, composta pela CDU/CSU, o SPD e os liberais do FDP ou uma menos provável coligação entre CDU/CSU, SPD e Verdes, que os media batizam de coligação Quénia. (Em ambos os casos, as cores dos três partidos correspondem às três cores das bandeiras alemã e queniana.)

Mesmo que se prove incontornável, o cenário de uma coligação tripartida é pouco desejado. O consenso entre todos os partidos é que existem tantas divisões político-ideológicas que o novo Governo seria, desde o início, tão frágil e propenso a conflitos como o anterior. Como escrevia o Politico há alguns dias: "Para alcançar o sucesso que deseja, o provável próximo chanceler da Alemanha precisa que os liberais e os esquerdistas colapsem e peguem fogo." A grande questão, sobretudo em relação ao Die Linke, é se Merz pode contar que assim seja.

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