"Ao contrário de muitos teóricos, conheço suficientemente bem a Alemanha e os alemães para saber que estas afirmações não nascem do cinismo"
Há qualquer coisa de profundamente alemão na forma como Friedrich Merz escolheu dizer o indizível, aquilo que todos pensam mas ninguém tem a coragem de o dizer.
Não foi com a grandiloquência e romantismo francês, nem com a teatralidade moral que tantas vezes transforma a política europeia num exercício de pose e fantasia. Foi num tom seco, quase burocrático, perante estudantes em Marsberg, como quem retira uma ficha de uma pasta e a coloca em cima da mesa: a Ucrânia, em algum momento, terá de assinar um cessar-fogo; em algum momento, haverá um tratado de paz com a Rússia; e pode acontecer que parte do território ucraniano deixe de ser, na prática ou no direito, território ucraniano.
A dureza da frase não está na crueldade, porque não é de crueldade que estamos a falar, mas sim de lucidez e realidade. Merz associou essa realidade a uma ideia essencial: se a Ucrânia tiver de aceitar perdas, então a Europa tem de lhe oferecer uma perspectiva política irreversível, credível e histórica, a integração europeia. Mas não uma integração festa às pressas e muito menos sem estrutura e sem real estabilidade e organização. Até porque parte do leste europeu tem sérias dúvidas, medos e questões financeiras que os podem afetar.
Ao contrário de muitos teóricos, conheço suficientemente bem a Alemanha e os alemães para saber que estas afirmações não nascem do cinismo. Seja pela minha evidente ligação familiar, pela proximidade à vida política alemã, pela experiência de consultoria nesse contexto, ou pelo facto de ter sido executivo de uma empresa alemã e de ter vivido no país, aprendi a reconhecer o humor político alemão: uma combinação de receio, disciplina, memória histórica, prudência e algum cansaço.
A Alemanha vive hoje com medo da AfD, com fadiga económica, com uma indústria que já não acredita automaticamente no futuro e com a consciência tardia de que o longo consulado de Angela Merkel lhe deu estabilidade, mas também lhe congelou demasiadas decisões, enfraqueceu a economia, fez perder o rumo e a aptidão para liderar uma Europa em franca incapacidade de liderar e de se autopromover.
É isso que escritor e Wolfgang Münchau descreve em Kaput: The End of the German Miracle. O seu argumento central é simples e devastador: o modelo alemão, assente na excelência industrial, nas exportações, na energia barata russa e na relação confortável com a China, deixou de ser uma promessa de prosperidade e tornou-se uma armadilha. A Alemanha apostou demasiado tempo no mundo de ontem. Perdeu velocidade digital, adiou investimento, confundiu prudência orçamental com virtude estratégica e acreditou que a história podia ser gerida como uma linha de produção.
Ora, o que Merz fez agora foi aplicar à geopolítica a mesma conclusão que Münchau aplica à economia: a Europa não pode continuar a viver de ilusões. E a maior ilusão europeia é imaginar que a guerra na Ucrânia terminará com uma vitória perfeita, juridicamente limpa, moralmente satisfatória e politicamente indolor. A Rússia invadiu, destruiu, ocupou e deve ser responsabilizada. Mas uma coisa é defender a Ucrânia, outra é mentir aos europeus sobre o preço, a duração e os limites da guerra.
A Ucrânia deve entrar na União Europeia. Não por caridade, nem por sentimentalismo, mas por segurança europeia. Uma Ucrânia deixada num limbo entre Moscovo e Bruxelas será sempre uma ferida aberta no continente. Mas essa entrada tem de acontecer segundo regras, com reformas, com Estado de direito, com combate à corrupção, com capacidade administrativa e com integração gradual. Merz percebeu uma coisa que muitos fingem não ver: a adesão europeia da Ucrânia não é apenas uma recompensa, é uma arquitectura de paz. Pode ser a forma de dizer aos ucranianos que, mesmo que a guerra não termine como sonharam, o futuro estratégico do país não será decidido em Moscovo.
O mesmo realismo se aplica à Rússia. Manter um canal de comunicação com Moscovo não é absolver Putin, nem legitimar a invasão, nem esquecer Bucha, Mariupol ou os milhares de mortos. É compreender que a paz, quando chegar, não será assinada entre amigos. Será negociada entre inimigos. E se a Europa não tiver canais próprios, se não tiver diplomacia própria, se não tiver poder militar, energético e financeiro próprio, ficará condenada a esperar que Trump fale, que Putin aceite, que Xi calcule, que Teerão pressione ou que qualquer outro actor externo decida o seu destino.
É aqui que a segunda declaração de Merz se torna ainda mais importante. Ao dizer que os Estados Unidos estão a ser humilhados pela liderança iraniana, Merz não estava apenas a comentar o Irão. Estava a diagnosticar a vulnerabilidade de uma política externa americana conduzida por impulso, espectáculo e ausência de estratégia de saída. Segundo a Reuters e outros órgãos internacionais, Merz criticou a falta de uma estratégia convincente dos EUA no conflito com o Irão e acusou Teerão, em particular a Guarda Revolucionária, de estar a humilhar Washington através de uma diplomacia de desgaste, adiamento e encenação negocial. E não está enganado.
A frase é brutal porque toca no nervo da época. Trump gosta de dizer que tem “todas as cartas”. Mas a política internacional não é um casino de Mar-a-Lago. No Irão, como na Ucrânia, como no comércio global, o problema da América de Trump é confundir pressão com estratégia. Bombardear é fácil. Sair é difícil. A história do Iraque e do Afeganistão devia ter ensinado isso. Merz, vindo de uma cultura política que desconfia do improviso militar, percebeu que os Estados Unidos podem ter força, mas não necessariamente direcção e muito menos uma visão e leitura política.
A Europa tem de aprender a viver neste mundo. Não no mundo que gostaria de ter, mas no mundo que existe. E esse mundo é composto por Trump, Putin, Xi, Khamenei, Erdogan, Netanyahu, Orbán, pelo Golfo, pela Índia, por mercados energéticos nervosos, por cadeias industriais frágeis e por sociedades europeias cansadas. O romantismo estratégico francês, por mais elegante que pareça nos discursos de Emmanuel Macron, já não chega. Macron fala muitas vezes de autonomia estratégica, mas governa uma França politicamente bloqueada, fiscalmente pressionada e socialmente exausta. O seu governo tem sobrevivido entre moções de censura, orçamentos difíceis e concessões parlamentares, enquanto a sua agenda doméstica perdeu força e coerência.
A Europa precisa menos de encenações napoleónicas e mais de pragmatismo alemão. Precisa de dizer aos cidadãos que a defesa custa dinheiro, que a energia barata acabou, que a paz tem preço, que o alargamento da União exigirá reformas profundas e que a segurança europeia não pode depender eternamente de Washington. Precisa de explicar que apoiar a Ucrânia não significa prometer o impossível, mas construir o possível. Precisa de reconhecer que negociar com a Rússia não é trair Kiev, desde que Kiev não seja sacrificada. E precisa de compreender que a União Europeia só será potência se deixar de ser apenas mercado, regulador e conferência de imprensa.
Isto é ainda mais evidente no Leste europeu. A Roménia, a Bulgária, a Eslovénia, a Hungria e os países da fronteira oriental não são periferia, são a linha da frente política da Europa. A Roménia atravessa nova turbulência governativa, com tensões entre forças pró-europeias e partidos nacionalistas, num momento em que a estabilidade é essencial para fundos europeus, defesa e credibilidade institucional. A Bulgária continua a mostrar como a instabilidade política pode abrir espaço a forças mais próximas de Moscovo. A Hungria demonstrou durante anos como um Estado-membro pode usar a pertença europeia como instrumento de bloqueio. E a Eslovénia, apesar da sua dimensão, recorda que a integração europeia também depende de países pequenos, estáveis e capazes de construir pontes.
Fortalecer o espírito europeu não significa cantar o hino da União com mais convicção. Significa integrar infraestruturas, defesa, energia, indústria, inteligência, fronteiras, universidades, tecnologia, financiamento e opinião pública. Significa que um jovem romeno, búlgaro, português, alemão ou ucraniano deve sentir que a Europa não é apenas uma burocracia distante, mas uma comunidade de destino. Sem isso, a extrema-direita continuará a vender pertença nacional contra pertença europeia. E Moscovo continuará a explorar cada ressentimento, cada aldeia esquecida, cada salário baixo, cada fronteira abandonada.
Merz pode não ser um líder carismático no sentido latino da palavra. Não seduz como Macron tentou seduzir. Não encena como Trump encena. Não ameaça como Putin ameaça. Mas talvez seja precisamente por isso que a sua intervenção interessa. Há momentos em que a política precisa menos de encanto e mais de contabilidade moral. Menos frases bonitas e mais frases verdadeiras. Menos Europa imaginada e mais Europa construída.
A verdade é esta: a Ucrânia talvez não recupere tudo. A Rússia não desaparecerá. Trump não será sempre aliado fiável. O Irão não será dobrado apenas por ameaças. A China não será contida por ingenuidade comercial. A Alemanha não voltará ao milagre económico por nostalgia. A França não liderará a Europa apenas por tradição. E Portugal, como os outros, terá de escolher se quer continuar a comentar o mundo ou ajudar a construí-lo.
A Europa chegou ao fim da adolescência estratégica. Durante décadas viveu protegida pelos Estados Unidos, abastecida pela Rússia, enriquecida pela China e moralmente satisfeita consigo própria. Esse mundo acabou. Merz, com a frieza típica dos alemães quando finalmente decidem dizer o que pensam, apenas verbalizou a realidade: a paz exigirá concessões, a segurança exigirá poder e a Europa exigirá verdade.
E talvez seja essa a primeira tarefa de uma liderança europeia adulta: deixar de prometer aos europeus que tudo ficará bem e começar a explicar-lhes o que será necessário fazer para que ainda possa ficar.
