opinião
Analista de Política Internacional e Assuntos Europeus

Alemanha parada, Europa paralisada

12 mai 2025, 15:49

Os desafios que hoje atravessam a Europa exigem uma Alemanha à altura, capaz de reconciliar estratégia e propósito, força e sentido. Não basta reconstruir a União Europeia, é preciso transformá-la. Só assim Berlim poderá voltar a ser o motor da integração europeia

A eleição de Friedrich Merz como Chanceler não gerou o fervor antecipado, mas antes um sentimento de consenso forçado, contido e sem brilho. A sua confirmação, alcançada na segunda volta após uma primeira tentativa falhada, expôs as fragilidades latentes da coligação CDU/CSU e SPD. Os trezentos e vinte e cinco votos favoráveis ficaram aquém da soma teórica das bancadas coligadas, evidenciando uma coesão mais aparente do que real. O que se poderia esperar como o início de uma era de renovação e força transformou-se, rapidamente, numa gestão marcada pela incerteza, em que cada movimento será calculado, sem garantia alguma de estabilidade.

A realidade é que a Große Koalition representa hoje apenas 45%, refletindo desta forma a fragmentação do sistema político alemão, que ecoa dentro da própria CDU. O debate interno é aceso: uns defendem uma aproximação à extrema-direita, enquanto outros procuram preservar a linha moderada. Estas tensões intensificam-se à medida que a ala esquerda do SPD se vê relegada a um papel secundário, incomodada com os contornos da coligação e inquieta com a sua sobrevivência política. Os problemas estão à vista: discussões sobre impostos, salário mínimo, prestações sociais e a possível exclusão da AfD, recentemente classificada como extremista – decisão entretanto suspensa – pelos serviços de inteligência.

A Alemanha enfrente uma combinação inquietante: estagnação económica, incerteza quanto às consequências reais do fim do “travão da dívida” e apreensão face à ameaça latente de novas tarifas norte-americanas – fatores que alimentam uma crescente instabilidade política e económica. A esta conjuntura delicada somam-se fragilidades estruturais: custos energéticos elevados, um sector automóvel a perder competitividade e dificuldades na adaptação às novas lógicas do comércio global. A transição energética exige investimentos colossais, enquanto a urgência de reforçar a despesa em defesa, imposta pela agressão russa e pela nova realidade geopolítica europeia, exigirá bem mais do que revisões constitucionais: exigirá visão estratégica e um consenso político alargado.

Neste cenário volátil, onde se cruzam ansiedade económica e crispação geopolítica, o episódio no Bundestag ganha nova gravidade. Merz chegou a Bruxelas com a promessa de regenerar a maior economia europeia – uma Alemanha marcada, nos últimos anos, pela fragmentação do centro e erosão dos grandes partidos. Mas entre a retórica da estabilidade e a realidade da governação, ergue-se um obstáculo considerável: a exigência de uma coligação funcional e reformista, capaz de superar os bloqueios do passado. Tanto mais desafiante quanto mais a AfD cresce nas sondagens, expondo o desgaste do sistema e a inquietação do eleitorado.

É nesta intersecção entre política interna e opções externas que se joga o teste decisivo à liderança de Merz. O novo Chanceler prometeu pôr fim à paralisia da política externa alemã, relançando a Zeitenwende – a famosa viragem estratégica falhada, prometida por Scholz após a invasão russa da Ucrânia. Centralizou a coordenação da política externa na chancelaria, criando um Conselho Nacional de Segurança e nomeando um Ministro dos Negócios Estrangeiros do seu partido, pela primeira vez desde 1966.

Em relação à aliança atlântica, apesar da retórica sobre autonomia estratégica europeia e das críticas a ingerência de Washington na política interna alemã, parece ter recuperado rapidamente o seu atlantismo otimista, procurando evitar confrontos com Trump, investindo, ao mesmo tempo, no desenvolvimento de capacidades próprias sem romper com a NATO. Comprometeu-se, claramente, com o reforço da defesa europeia e apoio à Ucrânia, escolhendo como principais parceiros a França e a Polónia – o triângulo de Weimar – assim como o Reino Unido.

Contudo, as reticências manifestadas por Merz em Bruxelas quanto a uma nova emissão comum de dívida levantam questões. Resta saber se Berlim pretende, de facto, liderar uma defesa europeia integrada ou se prefere afinal perpetuar as fragmentações nacionais. A flexibilização do “travão da dívida” foi sem dúvida um gesto histórico. Mas fará sentido aceitar mais armas e mais despesa, recusando ao mesmo tempo a arquitetura política e financeira que daria coerência estratégica a uma verdadeira Europa da defesa? É precisamente sobre este tipo de incongruências que Wolfgang Münchau construiu as suas críticas mordazes à Alemanha e à Europa. Sem uma união fiscal propriamente dita e uma visão política partilhada, estamos condenados a cometer os mesmos erros. E desta vez, diante de um desafio existencial que ameaça a arquitetura de segurança europeia e a soberania de um país candidato, entre uns Estados Unidos revisionistas e uma China assertiva, arriscamo-nos a sacrificar a ambição estratégica em nome de uma ortodoxia aquém da realidade. Mais do que um simples lapso, trata-se de um padrão – e talvez do maior obstáculo à afirmação da Europa enquanto potência geopolítica.

Neste contexto incerto, torna-se legítimo exigir mais da Alemanha. Não apenas como potência económica, mas como âncora de um continente sedento de liderança. A urgência da reindustrialização, a exigência de uma defesa comum e a possibilidade de uma nova vaga populista requerem uma liderança lúcida, firme e visionária. Mas Friedrich Merz, empenhado em estabilizar a posição da Alemanha na NATO antes da cimeira de Haia, em junho, regressou de Bruxelas com mais perguntas do que respostas – e nenhuma delas dissipa as dúvidas sobre o lugar de Berlim no futuro da Europa.

O verdadeiro teste será a sua capacidade de alinhar frentes internas e externas. Conseguirá convencer os céticos? Terá coragem para apoiar a suspensão do direito de voto da Hungria no Conselho da UE – aplicando o Artigo 7º TUE – para pôr termo à deriva iliberal de Viktor Orbán? Manterá os países do Sul à mesa das negociações ou apostará apenas nos “frugais”?

Apesar do capital simbólico da sua ascensão, a fragilidade da sua base e as divisões dentro da própria CDU tornam incerto o impacto do seu mandato. Por mais que se revista de retórica europeísta e atlantista, a sua ação poderá ficar prisioneira das limitações de um sistema interno fragmentado e de um Conselho Europeu onde ninguém lhe estenderá a carpete vermelha, onde os acordos se constroem, não se impõem.

O destino de Merz – e, com ele, o da Alemanha e da própria Europa – dependerá menos de proclamações e mais da capacidade para forjar consensos, em Berlim e em Bruxelas. Os desafios que enfrentamos pedem uma União Europeia forte, mas também uma Alemanha renovada – que não poderá voltar a ser o motor da Europa sem voltar a integrar, com convicção, a sua alma.

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