Exclusivo: irmão do chefe de gabinete de Montenegro foi nomeado consultor coordenador. Há um ano era estagiário e vai ganhar 4.400 euros

4 fev, 21:47

Ministério da Reforma do Estado justifica escolha com excelentes notas em prestigiadas universidades e diz que existiu um processo de recrutamento com entrevista. Chefe de gabinete do primeiro-ministro garante que desconhecia a proposta feita ao irmão

Três ministros assinam a nomeação do irmão do chefe de gabinete do primeiro-ministro para consultor coordenador do Grupo de Trabalho para a Reforma do Estado. Frederico Perestrelo Pinto tem 25 anos e até há um ano era estagiário na EDP Renováveis em Madrid, com o ministério da Reforma do Estado a sublinhar as excelentes notas que teve na licenciatura e no mestrado.  

O objetivo de reformar o Estado é uma das principais bandeiras do executivo de Luís Montenegro e para isso foi criado um grupo de trabalho que pretende preparar e executar a reforma da administração pública, promovendo a racionalização, eficiência e concentrando serviços.

A equipa pode incluir até 15 pessoas em regime de comissão de serviço e na última semana foi dado mais um passo com as nomeações de quatro consultores coordenadores, assinadas por três ministros - Finanças, ministro da Presidência e ministro da Reforma do Estado.  

Entre os quatro consultores coordenadores surge um nome com fortes semelhanças ao do chefe de gabinete do primeiro-ministro. O Exclusivo da TVI confirmou que Frederico Perestrelo Pinto é irmão de Pedro Perestrelo Pinto, atual chefe de gabinete de Luís Montenegro.

Frederico Perestrelo Pinto tem 25 anos e há um ano era estagiário (Linkedin)

Frederico Perestrelo Pinto tem 25 anos e o currículo publicado com a nomeação em Diário da República é pouco mais diz do que licenciado e mestre em Economia; analista de negócios na EDP Renováveis, além de um estágio na mesma empresa e outro na Caixa Geral de Depósitos.  

A página profissional do Linkedin do próprio é mais detalhada e indica datas, nomeadamente que o último estágio na EDP Renováveis, em Madrid, iniciou-se em novembro de 2024 no final do mestrado em Itália e terminou há menos de um ano, em abril de 2025.

Desde maio que Frederico Perestrelo Pinto deixou de ser estagiário, sendo desde essa altura analista para o desenvolvimento de negócios da EDP Renováveis em Espanha.  

Segundo a tabela de remunerações da administração pública, um consultor coordenador ganha 4.404 euros por mês, mais ou menos o mesmo que um deputado.

Chefe de gabinete desconhecia nomeação do irmão

O Exclusivo da TVI contactou o gabinete de Luís Montenegro e recebeu uma resposta escrita pelo chefe de gabinete do primeiro-ministro. Pedro Perestrelo Pinto diz que "não tive qualquer intervenção e apenas tive conhecimento quando o meu irmão (que trabalhava fora de Portugal) me informou que recebera a proposta".

O braço direito do primeiro-ministro acrescenta que “o meu irmão tem uma vida profissional completamente autónoma e independente, alicerçada numa carreira 100% própria. Para aferir as capacidades do meu irmão poderá consultar a nota curricular anexa ao despacho, anteriores superiores hierárquicos e o orientador de mestrado".

Ministério sublinha óptimas notas

O Ministério das Finanças - que também assina a nomeação - remeteu explicações sobre a escolha para o Ministério da Reforma do Estado que respondeu por escrito.

O gabinete liderado pelo ministro Gonçalo Matias sublinha que o novo consultor coordenador tem todas as condições para o cargo, cumprindo os critérios definidos, numa equipa que que deve ter um “perfil analítico ou jurídico, experiência de gestão, capacidade de acompanhamento de projetos, e uma base académica relevante na área jurídica e económica”.

“Como em qualquer processo de recrutamento”, continua o ministério, “foi feita a análise curricular e entrevista pessoal, tendo-se concluído que o Dr. Frederico Pinto reúne amplamente estas condições”.

O gabinete do ministro destaca que o nomeado “tem uma licenciatura numa das melhores faculdades portuguesas de economia, a Nova SBE, com 17 valores” e “um mestrado numa das melhores universidades do mundo, a Bocconi, em Milão, onde obteve uma classificação de 109/110 pontos e a classificação máxima na nota da tese”.

Além disso, a justificação do governo diz que Frederico Perestrelo Pinto era até agora “business development analyst na EDP Renováveis em Madrid”, “cargo e cidade que deixou para contribuir para o trabalho deste Grupo de Trabalho, apesar deste ter uma duração muito limitada no tempo” – até 31 de dezembro de 2026.

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