“Há mais insegurança no mundo. É como se a agência de viagens fosse um anjo da guarda quando vamos viajar”

1 mar, 19:04
Frank Oostdam

ENTREVISTA || Frank Oostdam é presidente da ECTAA - European Travel Agents’ and Tour Operators’ Associations, a federação europeia que reúne as associações nacionais do setor das viagens e turismo na Europa. À CNN Portugal fala dos desafios que a tecnologia e a incerteza geopolítica internacional trazem a este setor

Hoje, com a inteligência artificial, já podemos, por exemplo no ChatGPT, organizar uma viagem completa em minutos. No futuro, que papel restará para um agente de viagens?

Será um papel desafiante, apesar do desenvolvimento digital. Haverá sempre um grupo de pessoas que gosta de ter um contacto pessoal, que lhes dê conforto. Com ou sem inteligência artificial, isso vai manter-se.

Mas é mesmo necessário, também, que os agentes de viagens e operadores usem a inteligência artificial. Estou convencido de que aqueles que a adotarem não serão substituídos. Contudo, aqueles não o fizerem, vão.

Para o cliente, o fator humano é aquilo que faz mesmo a diferença?

O que vemos agora na Europa, por exemplo no meu país, a Holanda, é as pessoas a pedirem ao ChatGPT para lhes fazer um itinerário personalizado. Depois, vão com o mesmo itinerário a uma agência de viagens, perguntar aos agentes de viagens se aquilo é possível, a pedir conselhos. Por isso, não podemos dizer se a agência de viagens desaparecerá à custa da inteligência artificial. Atualmente há apenas 6% da população global a participar em movimentos de viagem. Imagine se, no mínimo, duplicássemos esse valor. É isso que me preocupa: como é que vamos lidar com isso?

Sobretudo porque há muita coisa que pode falhar ou correr mal numa viagem. O agente de viagens tem de afirmar-se como aquela figura a quem se pode recorrer?

Sobretudo nos dias que correm. Temos de ser honestos, há mais insegurança no mundo. Quem viaja quer sentir esse conforto. Por isso, vemos que os pacotes de viagens estão a ganhar popularidade em toda a Europa. Os clientes estão a pensar no momento que vivemos, querem sentir-se seguros, querem ter alguém a quem recorrer. É como se a agência de viagens fosse um anjo da guarda quando vão viajar. As pessoas querem ir para fora, querem ter aventuras, mas aventuras que sejam seguras.

O último congresso da Associação Portuguesa de Agências de Viagens e Turismo (APAVT), em que participou, teve lugar em Macau. Isso mostra a força do setor, capaz de viajar para o outro lado do mundo para pensar sobre si próprio?

É essencial, essa inspiração, porque estamos a passar por tempos de incerteza. Os profissionais do setor fazem as mesmas questões. O que é a inteligência artificial? Os nossos empregos vão ser eliminados? As pessoas têm de se informar, de discutir estas dúvidas, para que o setor fique muito mais confiante. E não há motivos para duvidar: se olharmos para os dados europeus, a procura turística está a aumentar. As pessoas querem ir para fora, querem viajar.

E a pandemia de covid-19 não mudou isso, só tornou tudo mais evidente…

Exato, os dados confirmam que a procura é maior. A minha surpresa está no facto de o setor das viagens ter recuperado tão depressa na Europa. Não estou a falar sobre as margens efetivas, claro. Mas, se olharmos para a quantidade de pessoas que está a viajar, confirmamos que já estamos em níveis acima do pré-pandemia.

E, neste setor, há quem defenda que o caminho para continuar a crescer passa pelo mercado asiático, dado o elevado poder de compra. Qual seria o seu conselho para Portugal, uma vez que o nosso país tem uma ligação histórica com Macau?

Se eu fosse uma agência de viagens portuguesa, se estivesse a trabalhar com o mercado de Macau – e já há quem esteja a fazer isso -, procuraria cooperar com a restante China. É uma região muito interessante. Há Hong Kong e Guangzhou perto. É possível criar itinerários.

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