Franco A. foi condenado: queria matar, queria fazer cair a democracia - e queria fazer isso tudo disfarçado de refugiado

15 jul, 18:47
Franco A. em tribunal (Boris Roessler/Getty Images)

O caso chocou a Alemanha e mostrou como as forças de extrema-direita se infiltraram fortemente em serviços como o exército ou a polícia

Fez-se passar por um refugiado vindo da Síria, mas afinal era um militar com ligações à extrema-direita que tinha intenções de ajudar a uma mudança política na Alemanha. O tenente Franco A. foi esta sexta-feira condenado a cinco anos e meio de prisão pelo papel que desempenhou num plano para matar proeminentes figuras da política alemã com o objetivo de fazer cair a ordem democrática. Entre essas figuras estariam ministros, deputados e ativistas da comunidade judaica.

O caso chocou o país e mostrou como as forças de extrema-direita se infiltraram fortemente em serviços como o exército ou a polícia, tendo mesmo sido descobertos grupos com aquela ideologia em organizações como as Forças Armadas da Alemanha. Além de terrorismo, Franco A. também foi condenado por posse ilegal de armas e fraude, uma vez que em 2015 se fez passar por um vendedor de fruta que tinha chegado de Damasco (capital da Síria), ainda que não soubesse falar árabe. O ex-militar foi detido no início do ano, pelo que que já cumpriu três meses da pena a que foi condenado.

DAY X: um podcast do New York Times que conta o caso em detalhe antes de ter sido conhecida a sentença de Franco A.

 

O caso começou em 2017 quando Franco A. foi apanhado a recolher uma arma que tinha escondido na casa de banho do aeroporto de Viena, na Áustria. Foi detido e as suas impressões digitais levaram a mais descobertas: aquela identidade era a mesma de um refugiado sírio, o que acabou por levar a um processo que contou com o envolvimento das autoridades dos três países. A polícia acredita que o objetivo passava por assassinar múltiplas personalidades em nome da identidade síria, o que chamaria a atenção para aquilo que a extrema-direita entende ser um problema, nomeadamente na Alemanha: a migração, os refugiados.

Franco A. manteve a sua versão até ao fim, dizendo-se inocente de todas as acusações. No entanto, um conjunto de revelações que foram surgindo num julgamento de 13 meses acabaram por jogar contra ele. Áudios antissemitas e racistas que tinha gravado, outros com sugestões de “assassínios” de inimigos políticos. Gravações que foram ouvidas em tribunal e que deixaram a acusação sem dúvidas sobre um motivo político para os crimes planeados: “Ideologia fortemente de extrema-direita”.

Entre as armas ilegais que tinha contam-se quatro armas, entre elas uma arma de assalto G3, e cerca de 50 explosivos, bem como mais de mil munições. Grande parte deste equipamento foi roubada de bases militares onde o homem esteve. De resto, o crime de posse ilegal de armas foi o único que veio a admitir.

O antigo militar até foi libertado e ficou a aguardar julgamento em liberdade. No entanto, três anos e meio de pois, em fevereiro deste ano, foi apanhado com um saco onde levava vários artefactos Nazis.

Trata-se de um caso que voltou a reacender a memória dos alemães em relação ao antissemitismo e à extrema-direita, num país que sofreu durante anos com o Terceiro Reich de Adolf Hitler.

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