Exclusivo. Decorador de Madonna em Portugal alvo de queixas-crime e processos de clientes bilionários

26 set 2025, 21:16
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Clientes estrangeiros que investiram milhões em obras e decoração de luxo acusam Francisco Torres de não concluir os projetos

Apresenta-se como arquiteto e decorador de interiores, alega que já trabalhou para Madonna, quando a cantora viveu em Lisboa, no palácio Ramalhete, e diz que decorou mansões para famílias da realeza, mas Francisco Torres está agora no centro de uma sucessão de queixas-crime, processos judiciais e insolvências empresariais.

Clientes estrangeiros que confiaram nele para transformar imóveis de luxo em Lisboa acusam-no de burla qualificada, ameaças e incumprimento de contratos.

É o caso do alemão Frank T. e da mulher, que contrataram Francisco Torres para fazer as obras de reabilitação e decoração de um apartamento em Lisboa.

O valor acordado foi de 1,8 milhões de euros, mas os clientes alegam que grande parte dos trabalhos não foi concluída, que os materiais foram cobrados acima do preço de mercado e que foram alvo de ameaças.

“Ele sabia que nos estava a enganar, mas estava feliz a comer o bolo e a ser o centro das atenções na minha casa”, contou a mulher de Frank T., referindo-se à festa surpresa que organizou para o decorador. “Agora já não posso passear o meu cão à noite no parque porque não me sinto segura. Ele ameaçou o meu marido.”

Frank, por sua vez, descreve Francisco Torres como “um manipulador incrível” e afirmou que foi pressionado a pagar 128 mil euros por trabalhos inacabados. “Nunca recebi sequer uma fatura. Ele ameaçou-me por mensagem: 'Vais acabar no hospital, vemo-nos no parque'. O escritório dele fica perto da nossa casa”, afirmou.

O advogado Tiago Geraldo confirmou ao Exclusivo que foram apresentadas várias queixas-crime, incluindo por “burla qualificada, usurpação de funções, difamação e ameaça agravada”. “Há um padrão que começa no caricato e termina no chocante. Os clientes foram enganados e isso é mau para a imagem de Portugal”, sustentou.

Outro casal, de origem francesa, alega ter pago mais de 400 mil euros em materiais, nomeadamente mármores e madeiras, para a obra de uma moradia, no Estoril, contratada às empresas de Francisco Torres. Dois anos depois, os materiais nunca foram entregues. Ao pedir explicações, o casal recebeu uma conta adicional de 779 mil euros, alegadamente referente a serviços extra. O caso está em tribunal e ainda sem decisão definitiva. Francisco Torres, em resposta ao Exclusivo, justificou os custos adicionais com exigências dos próprios clientes e argumentou que este casal já perdeu um processo de arresto, onde o tribunal considerou que não havia risco iminente que justificasse a apreensão de bens e acabou por condenar o casal por litigância de má-fé porque omitiram informações.

Além dos litígios com clientes, Francisco Torres enfrentou também uma acusação do Ministério Público em 2024, relacionada com um cidadão francês residente em Lisboa, com quem mantinha uma relação pessoal.

Foi-lhe imputado um crime de abuso de confiança agravado, por se ter apropriado de um sofá de design, quadros, peças de arte e objetos de decoração, avaliados em cerca de 450 mil euros.

Mas já em janeiro de 2025, na fase de instrução do processo, o caso terminou com um acordo: o arquiteto de interiores devolveu os bens ao cidadão francês.

Atrás do glamour, as empresas de Francisco Torres entraram em insolvência já este ano. No total, mais de 1,5 milhões de euros em dívidas: ao Estado, bancos, fornecedores, trabalhadores e clientes estrangeiros.

Manuel, nome fictício, foi fornecedor de produtos de design para Francisco Torres, e contou como o decorador cobrava o dobro ou o triplo do valor real dos materiais. “Nós faturávamos por um valor e ele cobrava o dobro. Um arquiteto não tem de ganhar sobre aquilo que eu forneço ao cliente. Tem de ganhar sobre o projeto”, argumentou.

“João” também prefere manter o anonimato e explicou que foi ex-gestor de obras do decorador, tendo saído da empresa porque chegou à conclusão que “tudo era baseado em mentiras”. “Ele não é arquiteto. Os clientes pagavam, mas os fornecedores não recebiam. O dinheiro era usado numa vida de luxo”, disse.

Outro ex-funcionário, responsável pelas compras, confirmou que a empresa vivia de “situações fictícias” e que os clientes eram escolhidos por serem “bilionários com pouco conhecimento em arte, mas muito dinheiro para gastar”.

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