"A política obrigou-me a ver as pessoas e os traidores de outra maneira": Francisco Pinto Balsemão (1937-2025)

21 out, 22:36

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Um dia explodiu um petardo de fraca potência sob o Porsche de Balsemão estacionado no jardim da sua moradia na Quinta da Marinha, sobre isso ele disse isto: “Ao longo do PREC tive várias vezes avisos de militares amigos para não dormir em casa. E quando eu dormia em casa, que foi a maioria das vezes, tinha uma pistola no carro.” Fundou o PPD, tornou-se primeiro-ministro, criou o Expresso e lançou a SIC, chateou-se com Marcelo. Em muitas entrevistas fez questão de criticar os traidores com que se cruzou ao longa da vida - nunca os mencionou mas sabe-se quem são. Morreu esta terça-feira, tinha 88 anos

Foi deputado na Assembleia Nacional antes do 25 de Abril. Foi fundador do PSD, de que era o militante número 1. Foi deputado na Constituinte e na Assembleia da República e chegou a ser primeiro-ministro de Portugal. E, no entanto, não se identificava como político. Mais rapidamente escolheria os seus companheiros numa redação de jornal do que no parlamento. “Eu envolvi-me e apaixonei-me pelo jornalismo através de uma vocação profissional. A criação do Expresso e de outros títulos correspondem a essa vocação profissional, como há quem escolha a medicina ou a arquitetura ou a engenharia, eu escolhi o jornalismo”, explicou quando entrevistado no podcast “Deixar o Mundo Melhor”, em 2023. “Ainda hoje me considero jornalista. Tenho carteira profissional, tenho muito orgulho em tê-la e tem o número 18. Para poder concretizar os meus projetos na área do jornalismo tornei-me também empresário, agreguei capitais, sócios, aliados portugueses e estrangeiros. (...) A política obrigou-me a ver o mundo e o país e as pessoas e os traidores de outra maneira. Mas eu diria que o meu percurso passa acima de tudo pelo jornalismo.”

Francisco Pinto Balsemão tinha 88 anos. O dono do semanário Expresso, que fundou durante a ditadura, e da SIC, o primeiro canal de televisão privado português, foi jornalista, político, empresário e um dos homens mais influentes na sociedade portuguesa, e esteve várias vezes à frente do seu tempo. Nas aulas que dava aos futuros jornalistas no curso de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, falava-nos de uma tal de “world wide web”, que nenhum de nós, no início dos anos 90, conseguia imaginar o que seria, e previa um futuro onde o jornalista teria acesso ao mundo da sua secretária com apenas três aparelhos: um computador, uma televisão e um telefone. O futuro seria ainda mais desafiante e Balsemão acompanhou todas essas evoluções com entusismo.

Nessa entrevista, dizia que  ainda tinha “muita coisa para aprender - sobretudo no que respeita a revolução digital". "Também gostaria de "aprender coisas na área da ciência, gostava de ler mais poesia, ler coisas que nunca li, ler mais romances." Continuava curioso, atento ao mundo e às notícias. Mas pouco depois, por "motivos de saúde", deixou de comparecer em eventos públicos, inclusivamente nas reuniões do Conselho de Estado, de que fazia parte desde 2005, e na celebração dos 50 anos do PSD. Morreu esta terça-feira.

Um jovem privilegiado e a primeira experiência no jornalismo: “Mais Alto”

Francisco José Pereira Pinto de Balsemão nasceu a 1 de setembro de 1937, em Lisboa, numa família de alta burguesia que morava na Lapa. Na família do pai eram empresários na área têxtil lanifícios, da Guarda. A família da mãe pertencia à aristocracia. Francisco foi um filho tardio, considerado já um milagre, e, sendo o único filho e herdeiro, foi uma criança protegida. Na infância, participava nas atividades da Mocidade Portuguesa, gostava de desporto, jogava futebol com os amigos e era adepto do Sporting. Passava as férias entre Cascais e a Guarda. Era bom aluno. “Os meus pais sempre puxaram muito por mim e meteram-me na cabeça que o facto de ter nascido numa família sem problemas materiais, sem ser propriamente rica, me dava mais obrigações. Andei sete anos no Liceu Pedro Nunes, são 21 períodos, e só durante um período não estive no quadro de honra, e para os meus pais foi um drama”, contou.

Esteve à porta do comício de Humberto Delgado no Liceu Camões, em Maio de 1958, mais por curiosidade do que por ativismo. Aos 17 anos decidiu tirar o curso de direito da Faculdade de Direito de Lisboa. Nessa altura era um jovem com uma intensa vida social. Frequentava a praia do Tamariz e o Clube da Parada em Cascais, e tinha sucesso entre as raparigas. Adorava música, aprendeu a tocar piano e bateria - que continuaria a ser um dos seus divertimentos pelo resto da vida -, e queria ter um grupo musical. Também gostava de hóquei em patins e de ténis, envolveu-se ainda mais no golfe e acompanhava os desportos motorizados. Na faculdade teve uma scooter e logo a seguir um Renault Dauphine (ter carro na faculdade era um fator distintivo).

Francisco voluntariou-se para cumprir os 18 meses do serviço militar obrigatório durante o curso de Direito. Nessa altura ainda não havia guerra e a tropa dava facilidades aos estudantes universitários. Tinha 22 anos e por sorteio, a meio da tropa, foi transferido para a força aérea. Depois foi ajudante de campo de Kaúlza de Arriaga, o que representava uma enorme promoção pois era assistente de um membro do governo.

Terminou o curso de direito com média de 13 e inscreveu-se no 6º ano, que não era obrigatório, mas permitia o acesso ao estágio. No entanto, não chegou a concluir esse ano. Nessa altura começou a colaborar com o jornal da Força Aérea, “Mais Alto”. Entretanto começou a guerra em Angola e o jornal alterou a sua linha editorial. Balsemão foi promovido a alferes miliciano e a chefe de redação do “Mais Alto”. “Neste período, o alferes miliciano encontra-se integralmente imerso no aparelho do regime, como elemento de confiança de um dos oficiais mais leais a Salazar e a dirigir um órgão de comunicação que faz a propaganda do estado novo”, explica Joaquim Vieira na biografia publicada em 2017. Em 1962 Francisco Pinto Balsemão é enviado a Londres para fazer uma reportagem que mostrasse que outros países também tinham pobreza e desigualdades, tal como Portugal. Também acompanha Kaúlza numa viagem à África colonial. Dirá mais tarde que a sua consciência política começou apenas com 24 ou 25 anos. Nesta altura ainda não refletia muito sobre o regime em que vivia o país.

No mesmo dia em que passa à disponibilidade nas forças armadas, é nomeado para o cargo de secretário do recém-empossado ministro da Saúde e Assistência, Pedro Soares Martinez, seu antigo professor. Em 1963 o ministro desentende-se com Salazar e abandona o cargo. 

Entretanto, em 1964 casa-se com Maria Isabel Costa Lobo Cardoso, de 19 anos (conhecida como Belixa), filha do diretor-geral do Banco de Angola. Kaúlza é o padrinho. Em março desse ano, inicia o estágio no escritório de advocacia de Soares Martinez. Mas nessa altura já estava a escrever no Diário Popular e a advocacia iria ficar para trás.

O Diário Popular e o início da paixão pelo jornalismo

A ligação de Francisco Pinto Balsemão ao Diário Popular começou por ser familiar. O pai, Henrique Balsemão, e o tio, Francisco Balsemão, estavam entre os investidores que em 1942 criaram o novo vespertino lisboeta. No jornal, Francisco começa por assumir as funções de secretário da direção, um cargo criado especificamente para si - não era jornalista mas podia escrever e inscreve-se no Sindicato dos Jornalistas. Em 1964, com a morte do pai, herda a sua participação no jornal - 16,6% - e ocupa o lugar no conselho de administração. Como administrador, esforça-se por perceber como é que funciona o jornal e o que pode fazer para torná-lo melhor. Havia um diretor (que tinha de ter o acordo do governo), mas ele é que era o diretor de facto. 

Convida Ruben A., Miguel Torga e Sophia  a escrever no suplemento de artes e letras, que era publicado à quinta-feira. A ideia, como explica no seu livro de memórias, publicado em 2021, era “puxar o jornal para cima”. Nesse período, contacta com escritores e artistas, de Alexandre O’Neill a Agustina Bessa Luís ou Maria Helena Vieira da Silva.

Além disso, introduz novos sistemas de trabalho na redação - por exemplo, a organização em secções, uma reunião às 8 da manhã para preparar o dia, a receção dos telexes de agências internacionais, a aposta na reportagem, a criação de uma rede de correspondentes. É no Diário Popular que Francisco Balsemão se apaixona verdadeiramente pelo mundo do jornalismo. Quem com ele trabalhou lembra o esforço para melhorar a qualidade do jornalismo que ali se fazia. Em 1966 foi criado um curso para os jovens que estavam a começar, aprendendo com os jornalistas veteranos. Em 1968 abriu um concurso para novos jornalistas - foram admitidas três mulheres, as primeiras na redação, entre as quais Maria Antónia Palla. “Tratou-se de, trabalhando em equipa, conseguir tornar o jornal mais influente e necessário em setores onde antes não entrava. E de fazer subir a circulação paga”, contou nas suas memórias. 

“Tudo isto me deu asas para voar. Ao serviço do Diário Popular, escrevi notícias ou entrevistas, desloquei-me com frequência em reportagem ao estrangeiro, ganhei fontes e contactos, participei em conferências.” Balsemão tornou-se jornalista. A partir da redação conheceu o mundo e o seu país. “O meu interesse pela política cresceu em paralelo com a aprendizagem do jornalismo, no Diário Popular, com os cortes diários inaceitáveis da censura, as conversas na redação com jornalistas e colaboradores que haviam sido presos e torturados pela Pide”, contou no podcast “Deixar o Mundo Melhor”, recordando uma ida à Pide, "que comparado com isto não foi nada, mas mesmo assim estive lá 12 horas por causa de um artigo que tinha sido publicado no jornal. Tudo isso incutiu em mim o pensamento de que era necessário lutar pela liberdade e pela democracia.”

“Politicamente percebíamos que era um homem de direita, mas outra coisa, uma direita à inglesa, que respeitava os valores democráticos”, dizia sobre ele Baptista-Bastos, que era jornalista no Diário Popular.

A entrada na política com a Ala Liberal

Em 1968, Salazar fica doente, Marcello Caetano assume o cargo de presidente do Conselho de Ministros e nas eleições seguintes quer ter nas listas para a Assembleia Nacional uma vintena de pessoas mais jovens, que trouxessem ideias novas. Balsemão, que tinha sido aluno de Marcello, é um dos nomes sugeridos. Tem 32 anos e é candidato pelo círculo da Guarda. Começa por fazer a diferença logo durante a campanha, que leva muito a sério, quer falar aos jovens, vai a todas as freguesias, faz discursos preparados - diz que quer realizar as reformas que o país precisa, acabar com as injustiças e as prepotências. 

Na assembleia, integra a chamada Ala Liberal, um grupo de deputados que acreditava que era possível mudar o regime por dentro, avançando para uma democratização. “Acreditei sinceramente - e creio que, ao princípio, ele [Marcello Caetano] também acreditava - que seria viável evoluir para um regime democrático em Portugal, através de reformas e sem necessidade de uma revolução”, conta nas memórias.

Os deputados sentam-se por ordem alfabética e Francisco (José) Balsemão fica ao lado de Francisco (Manuel) Sá Carneiro, do Porto. Começa aí a amizade entre os dois “Franciscos”. Protestam com a arbitrariedade da censura e juntos fazem uma proposta de lei de imprensa que Marcello considera uma afronta. Depois a ala liberal apresenta um projeto de revisão constitucional que prevê o reforço dos direitos, liberdades e garantias do cidadão, limitando as práticas policiais totalitárias, e o regresso à eleição presidencial por sufrágio direto. Isto provoca a ruptura entre Marcello e os liberais, que percebem finalmente que a prometida abertura democrática não vai acontecer. Sá Carneiro abandona a bancada ao fim de dois anos.

Em 1971, Balsemão publica o livro “Informar ou depender?” no qual não só aborda a liberdade de imprensa, como o futuro do jornalismo numa sociedade tecnologicamente avançada e marcada pelo recurso aos computadores. “A informação necessita de ser livre, funcionando ao lado, mas independentemente, dos governos, das igrejas, dos partidos políticos, dos grupos de pressão”, escreve. Perante a recusa da lei de imprensa e a crispação com Marcello, Balsemão propõe-se renunciar ao cargo de deputado .

“Quando Marcello Caetano sucedeu a Salazar eu acreditei que seria possível uma reforma profunda sem necessidade de revolução. Por isso aceitei então ser deputado”, contou Balsemão no podcast de 2023. “Enganei-me e, como eu, enganaram-se outros companheiros meus. A partir daí entrei na política em part time.”

O Expresso: a grande aventura

Ao mesmo tempo, surge uma proposta de compra do Diário Popular pelo Banco Borges & Irmão. Francisco Balsemão não queria, mas o tio decide vender. Fica sem emprego, mas com dinheiro - 30 e tal mil contos, o que era muito dinheiro na altura. Podia não trabalhar mais, mas decide fundar um jornal. “Em fins de 1971, tinha as ideias mais arrumadas. Percebi que a minha vocação profissional estava ligada à comunicação social. Decidi, assim, usar parte do dinheiro recebido pela venda do Diário Popular no lançamento de uma nova publicação. Estava consciente dos riscos empresariais e políticos (...). Mas queria provar a mim próprio, à minha família, ao mundo jornalístico e ao mundo em geral que era capaz”, explicou Pinto Balsemão. Tem 35 anos quando cria a Sojornal, de que é o principal investidor, detendo 51% do capital. 

“Aspiramos, coerentemente, a contribuir para que se alcance em Portugal a liberdade de informação: liberdade de informar; liberdade de ser informado” - isto escreve Balsemão no editorial do primeiro número do Expresso, a 6 de janeiro de 1973, o semanário que fundou e de que era proprietário. “Seria uma frase banal, um truísmo numa sociedade contemporânea, se Portugal não vivesse à época - e desde há quase meio século - sob uma ditadura que perseguia com ferocidade a liberdade de imprensa”, sublinha Joaquim Vieira no seu livro.

“O modelo era o jornalismo anglo-saxónico, que não era praticado aqui. Os jornais ingleses, broadsheet, com notícia e opinião bem compartimentadas”, contou Balsemão numa entrevista a Clara Ferreira Alves. Tinha jornalismo de negócios e uma secção de cultura que se queria mais leve e abrangente.  O Expresso apresenta-se como um “jornal livre para homens livres”, quer ser objetivo e independente, o que só por si já era um posicionamento político. Marcelo Rebelo de Sousa, recém-licenciado em Direito, onde tinha sido um aluno brilhante, tinha 23 anos quando foi contratado como administrador-delegado do Expresso, com responsabilidades na área da gestão - mas logo passou para a redação e tornou-se o principal jornalista de política. Sá Carneiro assinava uma crónica semanal, outros liberais também assinavam crónicas. Balsemão era um diretor muito interventivo, mas na redação havia muita discussão e muita liberdade. Foram impressos 60 mil exemplares e custava 5 escudos. E foi um sucesso imediato.

Marcelo Rebelo de Sousa, Francisco Pinto Balsemão e Augusto Carvalho, numa reunião aquando do lançamento do Expresso, em 1972 (DR/Expresso)

Os problemas com a censura eram recorrentes. Às vezes metade ou mais da primeira página tinha de ser mudada à sexta-feira à noite por causa da censura. “Estamos dispostos a ir para a frente. Procurando corresponder à esperança que em nós depositam”, lia-se no editorial do primeiro aniversário (escrito por Balsemão, embora não fosse assinado). “Tentando reforçar o valor do conteúdo informativo que representamos para 200 mil pessoas que nos leem. Esforçando-nos por fazer o jornal que essas pessoas e a comunidade merecem.(...) Se o torniquete apertar ainda mais e o que fizermos para lhe resistir não der resultado, o Expresso acabará. Preferimos morrer de pé, com a verticalidade que pensamos ter logrado manter, a definhar lentamente  sem brio e sem mérito”.

O 25 de Abril de 1974 é decisivo - não só salva o Expresso da falência, escreverá mais tarde Balsemão, como “é a libertação de um garrote”. No primeiro editorial no sábado a seguir à revolução, a direção congratulava-se: “A posição do Expresso é a de sempre - não precisamos fazer meia volta como tantos outros”. Como recordou Balsemão nas suas memórias: “No pós-25 de Abril, aguentámo-nos sem grandes dificuldades, distinguindo-nos não como um bastião do nefando capitalismo, mas como defensores de uma defensável economia de mercado”.

Na altura da fundação do Expresso, Balsemão já se tinha separado da mulher. Belixa vai viver com o apresentador Carlos Cruz e leva os filhos Henrique (na altura com 3 anos) e Mónica (5 anos). Por seu lado, Balsemão vivia com Maria Mercedes Aliu Presas (Tita para os amigos), que colabora com o Expresso desde o início, fazendo as palavras-cruzadas. Só se conseguem casar em 1975, depois de o divórcio ser decretado pelo tribunal. Viriam a ter dois filhos: Joana (nascida em 1976) e Francisco Pedro (1980).

Antes disto, porém, tinha tido uma relação extraconjugal com Isabel Supico Pinto com quem tem um filho. Francisco Maria nasce a 28 de outubro de 1970. Balsemão paga despesas e assume a paternidade perante a mãe, mas não no registo - ela apresenta uma queixa no tribunal para averiguação da paternidade. O processo arrasta-se na justiça, várias testemunhas são chamadas, Balsemão nega os encontros e alega que Isabel terá tido outros parceiros. Depois de muitos recursos, finalmente em 1977 o tribunal determina que Balsemão é o pai do rapaz. 

O PPD e a aprendizagem da democracia

Logo a 26 de abril, Sá Carneiro aparece na redação do Expresso, vindo do Porto, para falar com Balsemão sobre a possibilidade de criação de um novo partido que se situasse ao centro, à direita do PS mas sem conotações direitistas - a matriz era a social-democracia do norte da Europa. Aos Franciscos juntam-se Marcelo Rebelo de Sousa, Magalhães Mota, Miller Guerra. O ambiente era de grande entusiasmo e vontade de agir.

Foi no Expresso que se decidiu o nome. Sá Carneiro queria que fosse Partido Social Democrata, outros propunham Partido Cristão Social Democrata, outros queriam que fosse Partido Popular. “A 6 de maio já estava criado. Como se criava naquela altura, não era preciso ter milhares de assinaturas. O que era preciso era anunciar que se tinha criado um partido e, se possível, pintar nas paredes a sua sigla”, recordou Balsemão. “Antes de anunciarmos a criação do nosso partido, já havia dois partidos que usavam a expressão social-democrata, que nunca concorreram a eleições, mas naquela altura resolvemos que tínhamos que usar outro nome. Já tínhamos a conferência de imprensa marcada e reunimos no meu gabinete do Expresso três pessoas: além de mim, o Ruben Andersen Leitão (o ficcionista Ruben A.), o Marcelo Rebelo de Sousa e ao telefone do outro lado estava o Francisco Sá Carneiro. Até que o Ruben diz: Partido Popular Democrático. Eu digo eu gosto e digo ao Francisco: Partido Popular Democrático. E ele, do lá de lá do telefone: é bom, está feito, vamos para frente. E foi assim, desligámos.”

Os três fundadores são Sá Carneiro, Balsemão e Magalhães Mota. Balsemão fica com o pelouro da política externa, Sá Carneiro com a política interna, Magalhães Mota com a economia. No governo provisório, Sá Carneiro é ministro sem pasta. Neste período, Balsemão continua no Expresso mas dedica-se também à implementação do partido, focando-se na organização das concelhias. 

Magalhães Mota, Francisco Sá Carneiro e Francisco Pinto Balsemão na primeira apresentação do PPD à imprensa, em setembro de 1975 (DR/ Arquivo do PSD)

O PPD “apoia, sem reservas, o programa do MFA”, segundo se lê na declaração inicial. É um partido do centro-esquerda e essa foi sempre a visão de Balsemão. “Não é de direita, nem do centro, mas de esquerda, uma esquerda não marxista, democrática, humanista”, diz no comício do Porto a 29 de novembro, naquele que é considerado um dos seus melhores discursos políticos. “O PPD não para, o PPD não parará enquanto continuar a exploração dos pobres pelos ricos, enquanto uns ganharem cada vez mais e outros cada vez menos. O PPD não para, o PPD não parará enquanto houver opressores e oprimidos.”

“O que nos inspirava era o modelo do partido social-democrata alemão, por sua vez baseado no chamado programa de Bad Godesberg”, explicou numa entrevista ao Público em 2021, sublinhando os valores que os guiavam: “A liberdade é importante, mas tão importante quanto a liberdade são a solidariedade e sermos capazes de lutar pela igualdade. A igualdade também tem importância.”

Francisco Balsemão manterá esta posição, ainda que em 1975, durante o PREC, se tenha obviamente afastado do Movimento das Forças Armadas e do radicalismo da esquerda. A 24 de fevereiro explode um petardo de fraca potência sob o Porsche estacionado no jardim da sua moradia na Quinta da Marinha - este terá sido o primeiro atentado do ELP - Exército de Libertação de Portugal, uma organização de extrema-direita saudosista do regime anterior. “Ao longo do PREC, tive várias vezes avisos de militares amigos para não dormir em casa. Quando dormia em casa, que foi a maioria das vezes, tinha uma pistola no carro.”

Este é um período complicado no partido, onde uns puxam mais para a direita e outros mais para a esquerda. E é também um período complicado no Expresso, com pouca publicidade, boicotes dos ardinas, problemas com a distribuidora que foi nacionalizada. Foi, admitiria mais tarde, “o pior momento” do Expresso: “Temi que o jornal acabasse". Balsemão defende sempre a independência do jornal: “Entendemos que o jornalismo não se faz com tesoura e cola, nem com reprodução de comunicados”, diz. 

Convidado juntamente com Raúl Rego, do jornal República, para pensar o novo quadro legal para a comunicação social, é um dos criadores da nova lei de imprensa. Durante o Verão Quente é deputado na Constituinte, e chegou a ser vice-presidente, fazendo forte oposição aos governos de Vasco Gonçalves. Mas. perante todos os constrangimentos, escolhe o jornalismo e renuncia ao cargo de deputado.

A AD, a morte de Sá Carneiro e a experiência da governação

Em 1976 o PPD muda de nome para PSD. O país parece estar finalmente a viver em democracia e Balsemão regressa às lides partidárias. Nas primeiras eleições autárquicas, em dezembro, é eleito para a assembleia municipal de Cascais. Depois, e mesmo não sendo o maior defensor da Aliança Democrática (AD), é cabeça de lista pelo Porto. “Eu nunca fui um partidário fervoroso desta coligação, mas reconheci, na altura, que, goradas as hipóteses de entendimento PSD/PS, era a única solução que poderia conduzir a uma maioria parlamentar. (...) Ganhámos por uma margem curta de dois deputados, mas ganhámos”, recorda nas suas memórias.

Após a vitória da AD, estreia-se como deputado na Assembleia da República e aceita o cargo de ministro de Estado adjunto do primeiro-ministro, Sá Carneiro. O VI Governo constitucional toma posse a 3 de janeiro de 1980.  Balsemão tem de afastar-se do Expresso para se dedicar a tempo inteiro à política e escolhe Marcelo Rebelo de Sousa para a direção do jornal.

A 4 de dezembro de 1980, Francisco Sá Carneiro morre num acidente de aviação, assim como Snu Abecassis, Adelino Amaro da Costa e António Patrício Gouveia. Ao longo dos anos, várias pessoas insinuaram que se teria tratado de um atentado e algumas envolveram Francisco Balsemão nesta tese. Balsemão não hesitou em processar quem o acusou e ganhou os processos por difamação. Nas suas memórias, faz um longo depoimento sobre o caso: “(...) As teses, completamente estapafúrdias, de que eu, através de Kissinger e da CIA, sabia o que ia acontecer são falsas e insultuosas. E custa-me passar o resto da minha vida a proclamá-lo, a demonstrá-lo e a perseguir os animais que, não percebo porquê (...), insistem em envolver-me num alegado crime. (...)”

Com a morte de Sá Carneiro, Balsemão fica dividido entre a vontade de se afastar por um tempo e a obrigação moral de assegurar a continuidade do partido que fundara, e de que era o único fundador que restava. “Foi sem dúvida um dos momentos mais tristes, mais trágicos, mais difíceis da minha vida. Fiz tudo o que podia para enfrentá-lo e homenagear a memória de Francisco Sá Carneiro e os que com ele morreram”, dirá mais tarde.

É eleito presidente do PSD e por consequência torna-se primeiro-ministro. No entanto, a decisão não é consensual no partido. Tem dificuldade em criar governo, muita gente recusou, não confiavam nele como confiavam em Sá Carneiro. Apesar de tudo, Balsemão toma posse em janeiro de 1981. 

O primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão recebe o secretário de Estado norte-americano Caspar Weinberger em 1981 (Arquivo AP)

Durante o período de governação enfrenta muita oposição interna e mantém uma relação difícil com o Presidente Ramalho Eanes. É um período complicado. O país enfrenta vários problemas económicos e uma greve geral em fevereiro de 1982. Mas o governo consegue fazer a revisão constitucional. Como explica Ângelo Correia, citado no livro de Joaquim Vieira: “Muita gente acusa Balsemão de não ser tão firme quanto possível no governo. Mas ele traçou uma linha estratégica da qual não se afastou um milímetro, e que era decisiva. Percebeu que, ou fazia uma ponte com Almeida Santos [negociador da revisão constitucional pelo PS] e com Mário Soares para acabar com a influência do Conselho da Revolução e de Eanes, ou então a democracia portuguesa estaria periclitante. Portanto, ele sacrificou tudo no plano interno para manter a estabilidade necessária do governo para fazer a revisão constitucional. Ninguém tem atribuído suficientemente essa vitória a Balsemão, que é dele. Dele e de Mário Soares”.

Na entrevista ao podcast, Balsemão lembrou esse período: “A revisão constitucional de 82 simboliza uma luta que não foi nada fácil, não tínhamos uma constituição democrática no sentido profundo da palavra, era uma constituição herdada de uma revolução. Para além de nos aproximar de uma democracia, teve outra virtude que foi permitir-nos avançar para a adesão de Portugal ao mercado comum, que nunca teria sido possível. Isso foi muito importante”.

“Acho que a revisão constitucional foi a coisa mais importante que fiz”, afirma também na entrevista ao Público, explicando que era preciso “acabar com algumas aberrações, como um órgão de soberania chamado Conselho da Revolução, que funcionava como Tribunal Constitucional, que tinha o poder legislativo para as Forças Armadas e que também funcionava como Conselho de Estado. Isso não foi bem aceite por muitos dos militares que tinham feito ou contribuído para o 25 de Abril, que tinham reivindicado a sua quota-parte de legitimidade para continuarem no poder, mas acabou por ser compreendido".

Nesta altura, a relação com Ramalho Eanes é cada vez pior e também enfrenta oposição dentro do partido - opositores como Santana Lopes, Eurico de Melo, Helena Roseta e Cavaco Silva pedem a sua demissão. Nas eleições autárquicas de 12 de dezembro de 1982 dá-se a ruptura com Freitas do Amaral e é o fim da AD. Em 1983 perde a liderança do PSD para Mota Pinto. Balsemão abandona o governo.

“Saio por minha vontade, após umas eleições autárquicas que foram um teste à minha pessoa. Mudei muito. A política obrigou-me a ver o mundo e o país e as pessoas e os traidores de outra maneira”, recordou Francisco Pinto Balsemão no podcast. Olhando para trás, ao escrever as memórias, admitia que a saída do governo lhe deixou “feridas, ressentimentos, cicatrizes”. “Mais do que um mero alívio, foi, contudo, um ato de coragem e de lucidez que me permitiu volta a ser como era. E como sou.”

Mota Amaral não tem dúvidas: “O Balsemão estava já de saída nessa altura e com a noção de que tinha feito a sua tarefa, e tinha mais coisas para fazer. Queria voltar para o Expresso”.

Francisco Pinto Balsemão (o terceiro a contar da esquerda) na reunião da NATO, com Reagen, Thatcher e outros líderes políticos em junho de 1982 (Arquivo AP)

A complicada relação com Marcelo

Durante o período em que está no Governo, o Expresso não se coíbe de criticá-lo e à sua atuação, às vezes ostensivamente. O proprietário nunca impõe a sua vontade no jornal, mesmo quando é visado. Mas custa-lhe. “Fiquei marcado. O jornal andava a matar o pai, no sentido mais freudiano da palavra”, admite na entrevista à Clara Ferreira Alves. Ao início, Marcelo Rebelo de Sousa é um dos críticos mais contundentes. Em 1978 Marcelo - num daqueles impulsos que lhe são típicos - escreve a meio de um texto na secção “Gente” do Expresso, uma frase desgarrada: “Balsemão é lelé da cuca”. “Eu tinha a suspeita de que a revisão estava a trabalhar mal e fiz isso para os experimentar. Infelizmente, verifiquei que era verdade”, terá justificado o então diretor do jornal.

A certa altura, Balsemão decide convidá-lo para integrar o governo, como secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, só para afastá-lo do Expresso. “Por um lado estava consciente do perigo de ter Marcelo dentro do Governo, pelas inconfidências que iria cometer e eventuais intrigas que poderia criar. Por outro lado, conhecia a sua incrível capacidade de análise e de produção, a sua inteligência fulgurante”, escreve Balsemão nas suas memórias. Marcelo era um “escorpião”, pronto a dar ferroadas indiscriminadamente. Dava notícias a jornalistas, montou intrigas, alimentou a sua rede pessoal de contactos. E, no final, até a sua saída do governo acabaria por fazer parte desse jogo.

Balsemão nunca lhe perdoa. Em muitas entrevistas, faz questão de criticar os traidores com que se cruzou ao longa da vida - nunca os menciona, mas sabe-se quem são. Um deles é Marcelo Rebelo de Sousa.

Fora da política, a criação da SIC e o reconhecimento social

Balsemão não volta a envolver-se ativamente na política, embora continue a ser uma voz relevante. “Os partidos políticos são máquinas trituradoras”, dirá nas suas memórias. “A máquina trituradora não para e não falha. Sacrifica pessoas, é ingrata e injusta.”

Em 1986, apoia a candidatura de Mário Soares à presidência da República, em vez de seguir a indicação do partido para apoiar Freitas do Amaral: “Escrevi um artigo para o Expresso chamado “Os verdadeiros sociais-democratas”, em que dei a minha modesta opinião no sentido de que os verdadeiros sociais-democratas estariam mais próximos do candidato Soares. Penso que esse artigo terá tido alguma influência na decisão de voto de alguns verdadeiros sociais-democratas”, reconheceu mais tarde. Ainda chega a ponderar a sua própria candidatura. “Em política, nunca ninguém se reforma totalmente”, dizia em 1991. E, em 1996, nas eleições que viriam a ser ganhas por Jorge Sampaio, essa hipótese esteve realmente em cima da mesa. Mas decide não avançar. Também recusa uma oportunidade para ser representante de Portugal nas Nações Unidas.

O primeiro-ministro português, Francisco Pinto Balsemão, e a sua mulher, Mercedes, jantaram com o primeiro-ministro canadiano Pierre Trudeau e com membros da comunidade portuguesa da região de Toronto, em outubro de 1982 (Foto de Colin McConnell/Toronto Star via Getty Images)

Nessa altura, as suas atenções já estão apontadas noutro sentido. A partir de meados dos anos 80, começa a lutar pela criação da televisão privada, até então proibida pela lei. Em 1990, cria a super-holding Impresa e apresenta a candidatura a um dos canais privados de televisão cujo concurso abre nesse ano. A SIC - Sociedade Independente de Comunicação - começa as suas emissões a 6 de outubro de 1992. O investimento é avultado, o negócio é arriscado. O empresário investe ainda em vários outros títulos da imprensa (A Capital, Visão, Jornal de Letras, Blitz, Exame, etc.). Mais tarde aposta também nos canais de televisão por cabo - SIC Radical, SIC Notícias, SIC Mulher.

Em 1987, cria o Prémio Pessoa, iniciativa do Expresso e da Caixa Geral de Depósitos para "reconhecer a atividade de pessoas portuguesas com papel significativo na vida cultural e científica do país”. O prémio, que tem atualmente um valor de 70 mil euros, rapidamente se tornou um marco no meio cultual. Da mesma forma, mesmo fora da política, Francisco Pinto Balsemão continua a ser uma das figuras mais prestigiadas da sociedade portuguesa. Até tem direito a ter uma personagem no Contra Informação: Francisco Bolsa-na-Mão. Quem o conhece elogia-lhe a capacidade de trabalho e a dedicação: era um bom líder, chegava cedo e saía tarde, motivava os trabalhadores, assumia as responsabilidades e os erros. Era membro do Conselho de Estado e o único português com estatuto de membro permanente do Clube de Bilderberg. 

Balsemão usava essa influência em escassas mas acutilantes intervenções públicas. Em 2021, numa homenagem organizada pelo então primeiro-ministro, António Costa, aos 40 anos do VII Governo Constitucional, o segundo da Aliança Democrática (AD) - PSD, CDS e PPM -, o ex-governante faz uma reflexão sobre os caminhos, e perigos, da democracia. “Podemos ser tolerantes com os intolerantes?”, questiona. “Não queremos nada com a extrema-direita", diz também em 2023 aos militantes do PSD. "Mas também nada queremos com este PS. Queremos ser nós próprios. Um partido social-democrata de centro esquerda, como sempre disse, e defendeu (e atacou, quando necessário) Francisco Sá Carneiro”. 

Mais recentemente, na mensagem de apoio ao candidato presidencial Luís Marques Mendes alertava para a necessidade de “cerrar fileiras” numa altura em que se prolongam “querelas maldosas provocadas e aproveitadas por interesses políticos obscenos que se alimentam das desgraças alheias.”  

As suas convicções mantinham-se praticamente inalteráveis. Na entrevista a João Vieira Pereira no 50.º e último episódio do podcast "Deixar o Mundo Melhor", instado a comentar o rumo seguido pelo partido de que foi fundador, insistia: “Os tempos são outros, não é comparável. Continuo, no entanto, a acreditar na importância do PSD, é um partido que tem uma razão de ser, tem um lugar. E que de certo modo corresponde ao essencial dos princípios programáticos que os três fundadores definiram em 1974.”

Em 2023, à chegada a uma reunião do Conselho de Estado (Lusa)

Nessa conversa, o patrão da Impresa falou dos seus momentos de felicidade: “No amor, na contemplação de uma obra de arte, na audição de um concerto, numa paisagem, no meu caso, o mar, navegar, nadar”. Dizia que as qualidades que mais admirava são “a franqueza, a coragem, a inteligência e a sapiência (que não são a mesma coisa)” e, quanto aos defeitos que mais abomina, não hesitava: “a mentira e, pior do que a mentira, a hipocrisia e a traição”.

Tem medo de morrer?, perguntou-lhe o jornalista. Francisco Pinto Balsemão respondeu sem hesitar: “Medo, não. Agora, se me perguntar se me apetece morrer, não me apetece. Ainda tenho coisas para fazer e muito para dar“. “Estou plenamente consciente de que o meu comboio está a chegar à estação e, portanto, estou preparado para isso”.

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