"Li 'Os Maias' aos 14 anos. Não morri, estou cá. Gostava de tê-lo como leitura obrigatória daqui a 50 anos"

26 jul, 08:00
20260329 Francisco José Viegas
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ENTREVISTA 1/2 | Como é que se leva os jovens a ler? "Olhe, proíbam-se os livros. Vão ver que vai ter um resultado interessante", brinca Francisco José Viegas, editor da Quetzal. Há um outro caminho menos extremo: tornar os livros mais atrativos. É o que procura a editora com o lançamento de uma nova edição de "Os Maias", onde códigos QR permitem aceder a referências que muitos leitores, sobretudo os mais novos, já não têm

A obra de Eça de Queiroz é de leitura obrigatória no secundário. “As pessoas têm muito a tentação de misturar as suas crenças ideológicas com uma análise ou leitura imparcial, serena e sensata daquilo que é a literatura – ou daquilo que devem ser as nossas escolhas”, considera Francisco José Viegas.

E daí que, na hora de identificar que livros e autores deveriam estar nas escolas portuguesas, o antigo secretário de Estado da Cultura se socorra dos clássicos. “Acho que, às vezes, nos deixamos iludir pela contemporaneidade. Não devemos substituir o passado pelo presente, como se o presente fosse o remédio de tudo.”

CNN Portugal: A Quetzal acaba de lançar uma nova edição de "Os Maias" com códigos QR, que permitem o acesso a explicações de referências, lugares, datas ou figuras históricas. Esta é a melhor forma de fazer este clássico sobreviver?

Francisco José Viegas: É uma forma de tornar a sua leitura mais atraente e completa. Quando gostamos de um livro, queremos saber tudo sobre ele. Este livro oferece essa possibilidade de podermos esclarecer qualquer dúvida nesses códigos QR.

Mas essa necessidade de explicação não confirma o livro como sendo uma espécie de peça de museu, incapaz de chegar ao público contemporâneo?

Não. O livro foi publicado em 1888. É um livro de um autor culto do século XIX, que tinha preocupações, conhecimentos, competências, mundividências muito diferentes das de hoje. Era normal um leitor do século XIX saber como se punha um véu no chapéu ou quem era François Guizot. Os leitores de hoje, em especial o mais jovens, não têm essas referências. E o que nós fazemos é disponibilizá-las.

E como foi feita essa curadoria das referências?

São centenas de notas. A leitura de um livro parte sempre de duas coisas: a experiência pessoal e aquilo que é uma espécie de leitura cultural. Tive muitas dessas dúvidas quando era adolescente e li “Os Maias”. Com o tempo, fui aprendendo essas referências. “Os Maias” serão o segundo livro que mais li na minha vida.

Por curiosidade, qual é o primeiro?

“A Cidade e as Serras” [também de Eça de Queiroz].

E como surgiu a ideia desta edição especial com as explicações?

Isto surgiu depois de ler uma entrevista de Vladimir Nabokov. Ele dava um curso numa universidade americana sobre “Ulisses” de James Joyce, que é um livro extremamente complexo e um grande emblema da modernidade europeia. Ele contou ao jornalista que a primeira coisa que fazia era pedir aos alunos que tivessem um mapa de Dublin, para perceberem onde andavam as personagens.

E é a mesma coisa com "Os Maias"…

Exato. Não percebemos “Os Maias” sem perceber como era a cidade de Lisboa da época, quais eram as referências culturais de Eça de Queiroz e daquelas personagens. É um livro notavelmente bem construído.

Tornar o livro mais interativo é uma forma de evitar que os jovens vão parar aos resumos? Sabemos bem que, para muitos, é o único contacto que têm com a obra.

É justamente para evitar que vão parar aos resumos. As pessoas avançam para os resumos quando não têm acesso a esse conhecimento sobre a totalidade do romance. Nesta edição aparecem referências página a página, permitindo reencontrar o prazer de ler um livro que finalmente percebem na totalidade.

Com os códigos QR, o livro envia o leitor para fora dele, para as páginas da Internet. Não há um risco de dispersão na leitura?

Não. Antigamente, as pessoas iriam à enciclopédia. Colocar todas as referências em livro daria numa edição de três mil páginas. O que pretendemos é que as pessoas tenham acesso à informação. Mesmo enviando para o exterior, a ideia é voltar imediatamente, porque a seguir há uma outra novidade. É essa a experiência que gostávamos de proporcionar, contestando aquela visão um bocadinho patética de que “Os Maias” são uma obra muito grande ou uma chatice.

Mas não considera que ter um telemóvel ao lado do livro pode ser um elemento distrativo? Sabemos bem o poder que estes aparelhos conseguem ter…

É, naturalmente, um elemento distrativo. Uma coisa é tê-lo para interromper a leitura e jogar um jogo ou entrar nas redes sociais, outra é tê-lo como ajuda para perceber esse labirinto de “Os Maias”. Ouço muito falar da internet e do recurso a meios digitais para favorecer o conhecimento. Normalmente, são coisas muito aéreas. Aqui não, é uma coisa concreta.

Permite ao leitor, por exemplo, ver logo um quadro de Rubens que é referido na obra. Ler “Os Maias” com esta edição é como estar a ver um filme, mas não um filme em que o realizador seleciona, corta, faz a sua escolha. Este é o filme integral de Eça de Queiroz.

Nova edição conta com uma componente tecnológica (Quetzal)

"Os Maias" são uma das leituras obrigatórias para os alunos do secundário. Há quem diga que são uma forma de afastar jovens da leitura.

Tem toda a razão. É precisamente por existir muita gente a pensar que “Os Maias” afastam as pessoas da leitura devido à sua monstruosidade, por causa destas referências não esclarecidas, que fizemos esta edição.

Alguém, hoje, com 16 ou 17 anos tem a maturidade para compreender esta obra, mesmo com os auxílios digitais?

“Os Maias” são uma obra apropriada a partir dos 14 anos. Foi quando eu li – e não morri, estou cá. São uma espécie de referência cultural portuguesa. Há frases como “chique a valer” ou “calor dos ananases” que fazem parte das nossas referências comuns. A literatura tem essa graça, de estabelecer referências comuns.

Mas o que é que "Os Maias" continuam a dizer-nos sobre os nossos dias?

Continuam a falar sobre a sociedade portuguesa e sobre aquilo que nela é criticável. São o retrato cómico de um país, da cidade de Lisboa, de uma classe social. Todas as personagens têm defeitos e virtudes enormes, de um tempo em que não se lia um livro para procurar lições, mas para ter um retrato. Eça de Queiroz conseguiu essa coisa notável de nos dar um retrato do seu tempo e, em simultâneo, divertir-nos com grande amabilidade.

Ainda assim, não considera que os programas escolares deviam fazer uma aproximação maior a autores contemporâneos? Para muitos jovens, o primeiro e único contacto que têm com a leitura dá-se nos livros que têm de ler na escola. Enquanto editor, que autores ou livros gostaria de ter como obrigatórios nas escolas daqui a 50 anos?

Gostava de ter “Os Maias” como leitura obrigatória daqui a 50 anos. Gostava de ter um romance de Camilo Castelo Branco, um romance de Júlio Dinis. Provavelmente um livro de Cesário Verde e uma antologia bem feita de Fernando Pessoa. Gostava que as pessoas lessem Sá de Miranda, Raul Brandão, Agustina Bessa-Luís.

Acho que, às vezes, nos deixamos iludir pela contemporaneidade, que só nos devemos interessar por aquilo que é do nosso tempo. Mas, na verdade, se não compreendermos o tempo que passou, não podemos falar do tempo presente e futuro. É por isso que acho que os clássicos têm um papel fundamental. Se tivermos instrumentos para percebê-los, não são só um monumento literário: são um monumento sobre história, sobre costumes, sobre tudo.

Este ano tivemos uma breve discussão pública sobre a obrigatoriedade de "Memorial do Convento" de José Saramago – Prémio Nobel da Literatura – no ensino secundário. Sempre que se procuram mexidas nos currículos escolares, acaba-se por alimentar polémicas e críticas.

As pessoas têm muito a tentação de misturar as suas crenças ideológicas com uma análise ou leitura imparcial, serena e sensata daquilo que é a literatura – ou daquilo que devem ser as nossas escolhas. O “Memorial do Convento” é um monumento da nossa história literária, da nossa literatura contemporânea. É um livro difícil, mas ninguém disse que a vida era fácil, que as grandes obras eram fáceis. A Sagrada Família de Gaudí, As Meninas de Velázquez ou um quadro de David Hockney não são uma coisa fácil.

A escola deve é fornecer os instrumentos para que o possamos avaliar. Há sempre muitas discussões sobre tirar ou não tirar livros dessa lista de leitura obrigatória. Acho que as leituras obrigatórias devem assentar num conhecimento panorâmico da história e da literatura, com assento nos clássicos e até certa altura da nossa contemporaneidade. Devemos ter exemplos contemporâneos. Agora, não devemos substituir o passado pelo presente, como se o presente fosse o remédio de tudo.

Mas se tivesse esse poder, que ajustes faria nesta matéria?

É difícil, mas já lhe dei alguns sinais. Gostava que, daqui a 50 anos, lêssemos os mestres da nossa língua. E, com o tempo, haverá autores do século XX, e um ou outro do século XXI, que poderiam entrar nessa lista de autores canónicos, que ficaram.

E o século XXI quais destacaria? Até porque alguns serão conhecidos por quem está a ler esta entrevista…

Destacaria três autores que fazem a transição do século XX para o século XXI: José Saramago, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes. E haverá certamente outros que podem fazer parte de uma lista de escolhas facultativas: Virgílio Ferreira, Lídia Jorge, Maria Velho da Costa… Não devemos ter pressa de alargar o cânone. O cânone é uma coisa que se constrói com séculos.

Hoje temos uma opinião sobre o génio de Camões e sobre a sua importância diferente daquela que havia no tempo do autor. Por exemplo, temos agora nos cinemas “Odisseia” [do realizador Christopher Nolan, a partir de obra de Homero]. Provavelmente, comparamos as duas obras. De facto, à distância, “Os Lusíadas” são uma obra unanimemente reconhecida como uma das grandes epopeias da humanidade – e não o digo por ser português, há autores universitários de todas as nacionalidades a atestá-lo. Isso acontece porque o tempo passa e varre aquilo que é acessório, deixando-nos ficar com aquilo que tem importância, que constitui um monumento.

Confessou-me que "Os Maias" foi o segundo livro que mais leu na vida. Mas qual foi a idade certa para esse encontro?

Não tive idade certa. Ia retirando os livros da estante, não havia uma ordem. Tinha lido “A Cidade e as Serras” e cruzei-me com “O Primo Basílio”. O meu pai disse-me: “Isto não é para a tua idade”. Costumo brincar e dizer que uma das formas para levarmos as gerações mais novas a ler seria proibir a leitura. Talvez isso as levasse a provar o fruto proibido. Fazem-me muitas vezes essa pergunta. “Como é que se leva os jovens a ler?”. Digo sempre: olhe, proíbam-se os livros. Vão ver que vai ter um resultado interessante.

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