A história e a cultura deste povo são milenares, pelo que falamos antes da recuperação da independência
Em muitos países, um dos principais feriados é a sua data de independência, o momento histórico em que essa independência é alcançada ou recuperada. Portugal, curiosamente, assinala de forma mais autónoma a restauração da sua independência do que a conquista. Mas temos também a particularidade de muitos Estados assinalarem o dia da ruptura da dependência de Portugal nos vários continentes. Até as Maldivas assinalam como Dia Nacional a expulsão dos portugueses.
Mas então o que tem de especial o Dia da Independência ucraniano?
Falamos, como no caso português, da independência perante povos vizinhos. Neste caso, de uma recuperação da independência, porque a história e a cultura deste povo são milenares, tal como a sua capital. Kyiv aparece significativamente antes de Moscovo nas páginas da história.
1991 foi o recomeço de um caminho independente que, ao longo dos séculos, conheceu avanços, interrupções e sucessivas tentativas de dominação. Esse é talvez um dos maiores desafios para qualquer português compreender, sobretudo por vivermos num país com uma das fronteiras mais antigas da Europa.
A geografia também ajuda a explicar a distância da nossa experiência. Quem diria que, enquanto Portugal completava a conquista do Algarve, o neto de Genghis Khan cercava Kiev, em 1240.

Em 24 de agosto de 1991, o Parlamento ucraniano declarou a independência. Meses depois, quando os ucranianos puderam escolher livremente o seu destino, confirmaram-no de forma esmagadora: mais de 90% votaram pela independência no referendo de 1 de dezembro.
A Ucrânia escolheu ser independente. E a Rússia reconheceu essa independência. Em 1994, no Memorando de Budapeste, Rússia, Estados Unidos e Reino Unido comprometeram-se a respeitar a independência, a soberania e as fronteiras existentes da Ucrânia, no contexto do processo de desnuclearização ucraniano. São compromissos que hoje parecem escritos a uma distância quase absurda da realidade.
As mesmas autoridades russas que reconheceram a independência da Ucrânia são, desde 2014, responsáveis por uma guerra destinada a limitar ou destruir essa independência. A mesma Rússia que assumiu compromissos de respeito pela soberania ucraniana tornou-se a maior ameaça à sua segurança.
É por isso que o dia 24 de agosto não é apenas uma celebração. É uma afirmação. Noutros países, a independência é sobretudo uma memória. Uma data no calendário, uma cerimónia, uma bandeira hasteada, um discurso sobre o passado. Na Ucrânia, a independência é uma luta diária. É o presente de sacrifício e um futuro ainda incerto.
Perguntei a ucranianos o que significava para eles a independência. Muitos responderam liberdade. Poder viver na terra onde cresceram. Criar os seus filhos. Poder decidir o seu próprio destino. Ter um céu em paz.
Mas talvez a resposta mais arrepiante de ouvir tenha sido a de uma mãe. Ia com o marido a caminho de um memorial dedicado aos mortos em combate. Perguntei-lhe o que significava para ela a independência. Respondeu, emocionada: “Foi a causa pela qual o meu filho morreu.” Ia trocar a fotografia do filho, já gasta pelo tempo, e depositar flores.
Há momentos em que uma definição política deixa de ser uma palavra. Independência deixa de ser um conceito constitucional, uma decisão parlamentar ou uma data histórica. Passa a ter um rosto. O rosto de um filho que não voltou para casa, as lágrimas de uma mãe que não se despediu.
Os filhos que crescerem em liberdade numa ucrânia independente não saberão os seus nomes. Tal como não sabemos os nomes dos soldados da Ala dos Namorados. Serão números arredondados, talvez colectivamente glorificados. Não é o discurso que define o curso da história, o púplito assenta no túmulo de muitos.

A identidade ucraniana faz-se também de muitos escritores, mas a sua história não é poética. É uma história de resistência e de abnegação. De homens e mulheres que, em diferentes momentos, pagaram com a própria vida o direito de decidir quem são e como querem viver.
É a crua perda de vidas que contraria o ciclo da própria vida. Por isso, talvez seja difícil compreender, a partir de Portugal, o significado de 24 de agosto. Nós herdámos uma independência que celebramos e estudamos. Os ucranianos estão a defendê-la, são a história viva que outros estudarão.
Não se resume a um dia de cerimónias emocionantes, de um protocolo detalhado e de extensas notas de imprensa. Para o comum ucraniano, é também o dia em que pode livremente vestir a sua vyshyvanka, erguer a bandeira e assumir-se como ucraniano.
É o direito de dizer: esta é a minha terra, esta é a minha língua, esta é a minha história, este é o meu futuro.
Mesmo sabendo que, hoje, esse futuro livre depende também do apoio daqueles que os visitam, daqueles que os apoiam e daqueles que compreendem que a independência de um país não pode depender da vontade do seu vizinho mais poderoso.
A independência depende hoje de Burnham e dos Storm Shadow, mas também dos que enfrentam a tempestade na sombra. Depende dos Senadores americanos e dos Patriots, mas também dos patriotas que defendem a sua pátria.

Trinta e cinco anos depois da declaração de independência, a Ucrânia continua a lutar por aquilo que os seus cidadãos escolheram em 1991.
É por isso que 24 de agosto não é apenas uma data que os ucranianos celebram.
É uma data por que lutam.
Francisco Cordeiro de Araújo é especialista em Direito Internacional e está na Ucrânia em serviço especial para a CNN Portugal
