Num país em alvoroço político e económico, com uma austeridade orçamental impopular (114% do PIB) – uma ironia, quando para os países do Sul era uma inevitabilidade –, com a população francesa a não querer trabalhar por mais anos ou pagar mais impostos, mas a aguardar que o problema se resolva com “fábulas de La Fontaine”, o primeiro-ministro François Bayrou perdeu um voto de confiança crítico na Assembleia Nacional por larga margem – 364 a 194 votos – o que resultou na sua demissão, após nove meros meses no cargo.
Em consequência, o presidente Emmanuel Macron irá nomear um quarto primeiro-ministro em menos de dois anos, à medida que se torna cada vez mais claro que será o último presidente francês antes de um período de governação iliberal.
Ora, desde Robespierre e a Revolução Francesa que o país de Montesquieu se tornou num aparatoso rebuliço gaulês. Por outras palavras: desde que os franceses separaram a cabeça do corpo de Maria Antonieta, que os mandou comer brioche se não tinham pão, que estes passaram a ter na contestação e na revolução a sua forma de estar. Tal é visível no futebol, em que, quer a seleção francesa perca ou ganhe, é garantido que há problemas nas ruas.
Assim, a Revolução Francesa de 1789 criou uma mitologia fundacional em torno da ideia de que o conflito é um motor legítimo e até necessário de mudança social. De algum modo, a sociedade francesa padece de uma psicologia coletiva agonística, ou seja, uma cultura política que entende o dissenso e o conflito como inerentes à democracia.
Tal tem tradução na sua cultura política, em que o sindicalismo combativo tem um profundo enraizamento social e histórico, bem como formas de contestação de rua, como greves e manifestações, contrastando com modelos assentes na negociação, como na Alemanha e nos países nórdicos. Ou seja, enquanto na maioria dos países a rua é o recurso último na negociação, quando esta falha, em França o conflito é entendido como expressão normal da cidadania, o que cria uma sociedade em estado permanente de tensão social e desordem.
Se esse facto tem sido um motor da cidadania francesa, a verdade é que com a ascensão de soluções políticas fora da democracia liberal, como o nativismo de Marine Le Pen, o extremismo de direita de Éric Zemmour e o esquerdismo radical de Jean-Luc Mélenchon, a própria democracia deixa de estar salvaguardada.
O futuro imediato da França pode parecer incerto. Um recurso à história mostra-nos a resiliência da sociedade francesa, quando diante da insurreição popular conhecida como "Crise de 6 de fevereiro de 1934" não houve uma instauração de regime de orientação fascista. Mas na época, a promessa do bem-estar social vinha das frentes socialistas. Hoje, a esquerda francesa moderada desapareceu, engolida pela onda macronista que varreu todo o centro democrático, deixando apenas as soluções radicais, à esquerda e à direita.
No entanto, a incerteza parece ter alguma previsibilidade. O crescimento do Rassemblement National, com Marine ou Jordan Bardella, que lidera as sondagens e já tem força decisiva no Parlamento, cada vez mais dita os rumos da sociedade e da política francesas. Pela primeira vez, desde Vichy, poderemos estar a um pequeno passo de um governo iliberal, assente em premissas nacionalistas e ultraconservadoras. Os filhos de Robespierre já não querem amanhãs iguais, querem a França para os franceses, soluções fortes e carismáticas e o regresso da velha ordem global. Para quem não percebeu, foi exatamente isso que Putin quis – uma Europa fragmentada por dentro, à sombra da grande civilização russa.