Num discurso a partir da base militar de Île Longue, que abriga os submarinos nucleares franceses, Emmanuel Macron anunciou uma nova doutrina nuclear de "dissuasão avançada", que passa por trabalhar em parceria com vários aliados europeus para aumentar arsenal disponível
Emmanuel Macron disse esta segunda-feira que França vai deslocar temporariamente as suas ogivas nucleares para fora do seu território, prometendo aumentar o arsenal nuclear do país. É a primeira vez que Paris dá um passo desta natureza, no que marca uma grande mudança da sua doutrina nuclear.
O anúncio chegou ao terceiro dia de ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão alegadamente por causa do seu programa nuclear, com Macron a invocar como argumentos para esta mudança estratégica profunda a mudança nas prioridades de defesa dos EUA, a par da guerra da Rússia contra a Ucrânia e o crescente poderio militar da China.
Num discurso em que apresentou a nova doutrina de “dissuasão avançada”, o presidente de França explicou que esta vai envolver uma cooperação mais profunda com outros sete países europeus, nomeadamente a Alemanha, a Polónia, a Bélgica, a Dinamarca, a Suécia, os Países Baixos e a Grécia.
De recordar que, no continente europeu, apenas França e Reino Unido detêm armamento nuclear.
Paris também vai trabalhar com Berlim e Londres para desenvolver mísseis “de muito longo alcance”, adiantou o chefe de Estado francês. A nova doutrina irá ainda permitir que os parceiros europeus participem em exercícios militares ou desloquem os seus exércitos convencionais em missões de apoio.
"Hoje, podemos dar um novo passo na dissuasão de França”, disse Macron, discursando na base militar de Île Longue, que abriga os submarinos nucleares do país, no noroeste de França. “Temos de reforçar a nossa dissuasão nuclear face à combinação de ameaças e temos de pensar a nossa estratégia de dissuasão no interior do continente europeu, no pleno respeito da nossa soberania, com a implementação progressiva daquilo a que chamarei dissuasão avançada.”
No mesmo discurso, o líder francês alertou que, desde o início desta década, “os nossos rivais evoluíram, assim como os nossos parceiros”, e que isso exige uma mudança na doutrina nuclear francesa, em que o elemento dissuasor precisa de ser “reforçado” e em que a Europa tem de dar prioridade à prevenção, depois de se “ter tornado acostumada a que a sua segurança esteja dependente de regras feitas por países terceiros”.
A responsabilidade final quanto ao uso de armas nucleares, garantiu Macron, caberá sempre ao chefe de Estado francês. E dada a situação em que a Europa se encontra, adiantou, é imperativo que Paris aumente o tamanho do seu arsenal nuclear, motivo pelo qual ordenou já o aumento do número de ogivas disponíveis, sem revelar o número exato.
“Vivemos atualmente, no plano geopolítico, um período de rutura cheio de riscos e os nossos compatriotas estão plenamente conscientes disso", disse Macron. "Este período justifica um endurecimento do nosso modelo”, adiantou, referindo-se à doutrina nuclear.
O presidente francês fez questão de frisar que, em 2020, tinha convidado outros países europeus a participarem num "diálogo estratégico" sobre o assunto, mas que a sua oferta foi amplamente rejeitada. Agora, o diálogo vai mesmo acontecer e os passos que acaba de anunciar, adiantou Macron, vão "finalmente viabilizar o destacamento temporário de elementos das nossas forças aéreas estratégicas para países aliados".
"Esta é uma convergência estratégica genuína entre os nossos países que vai dar profundidade real à defesa do nosso continente", acrescentou.
França possui atualmente cerca de 300 ogivas nucleares, aproximadamente um décimo do tamanho dos arsenais dos EUA e da Rússia. Ainda assim, garante Macron, "esta não é uma corrida ao armamento", antes um passo "essencial para que os nossos adversários, ou combinação de adversários, não possam sequer vislumbrar a possibilidade de atingir França sem a certeza de sofrer danos dos quais não conseguiriam recuperar".