Num discurso praticamente inédito na forma e no conteúdo, o presidente de França anunciou uma mudança estratégica fulcral na doutrina nuclear do país. Pela mão de Emmanuel Macron, na reta final da sua presidência, a Europa vai entrar na era da "dissuasão avançada", porque "para sermos livres temos de ser temidos", avisou. Mas o que implica tudo isto? E o que acontece a seguir?
Com a base militar nuclear de Île Longue como pano de fundo, ao terceiro dia de ataques dos Estados Unidos da América e de Israel ao Irão, Emmanuel Macron subiu esta tarde ao púlpito para fazer um anúncio que muitos, sobretudo dentro da Europa, desejavam ouvir há meses, senão anos.
“Hoje podemos dar um novo passo na dissuasão de França”, disse o presidente francês na base do noroeste de França que alberga os submarinos nucleares do país. “Temos de reforçar a nossa dissuasão nuclear face à combinação de ameaças que enfrentamos e temos de pensar a nossa estratégia de dissuasão no interior do continente europeu, no pleno respeito da nossa soberania, com a implementação progressiva daquilo a que chamarei dissuasão avançada. Para sermos livres, temos de ser temidos, e para sermos temidos, temos de ser poderosos.”
A questão do “diálogo estratégico” que agora se inicia não é nova: em 2020, um mês depois de Donald Trump ter abandonado a Casa Branca, Macron já tinha tentado iniciá-lo com os parceiros europeus, mas foi amplamente ignorado. E essa não foi a sua primeira tentativa. “Basicamente, todos concordam agora com o que Macron disse em 2017”, quando foi eleito presidente de França, ressalta à CNN Julien Hoez, analista de geopolítica e editor do The French Dispatch. “Estão nove anos atrasados, mas antes tarde que nunca, certo? Finalmente, vamos ter uma dissuasão nuclear europeia adequada.”
Num passo inédito, o único país da União Europeia detentor de um arsenal nuclear vai aumentar o número de ogivas, atualmente cerca de 300, e espalhá-las pelo continente, num esforço conjunto com outros sete países, à cabeça Alemanha, a par de Polónia, Dinamarca, Países Baixos, Suécia, Bélgica e Grécia. Como anunciado por Macron, Paris também vai começar a trabalhar em proximidade com Berlim e Londres para desenvolver “mísseis de muito longo alcance”, com a nova doutrina a permitir que os parceiros europeus participem em exercícios militares com as forças estratégicas francesas e desloquem os seus exércitos convencionais em missões de apoio a essas forças.
Um novo paradigma
As mudanças são muitas e não têm precedentes, a começar pela aproximação de França e da Alemanha em matéria de segurança e defesa. No que toca ao nuclear, opina Hoez, “a Alemanha esteve sempre em compasso de espera acima de tudo pelo drama de ter reduzido as suas capacidades de produção nuclear energética, com o encerramento das centrais, mas o que aconteceu agora é que, embora ainda hesitantes em relação às armas francesas, os alemães parecem finalmente entender que têm de trabalhar com os franceses”. Porquê? “Porque as coisas estão a tornar-se ridiculamente instáveis, de uma tal forma que não havia outra maneira.”
Tão ridiculamente instáveis que estamos diante de um óbvio regresso à teoria MAD, ou teoria da Destruição Mútua Assegurada, uma estratégia militar que vigorou durante a Guerra Fria em que, face ao potencial uso de armas de destruição em massa por dois lados rivais que resultaria na aniquilação de ambos, atacante e defensor, se apostou na dissuasão, com a capacidade de contra-ataque a garantir que nenhum iniciaria um conflito.
No seu discurso, Macron deu três argumentos para ordenar o aumento do arsenal nuclear francês e a mudança do paradigma europeu, invocando a guerra da Rússia na Ucrânia, o aumento do poderio militar da China e as novas prioridades de defesa dos EUA, como delineadas na famigerada Estratégia de Segurança Nacional que a administração Trump apresentou no final do ano passado.
“Muito disto tem a ver principalmente com a Rússia e os EUA”, considera Julien Hoez. “Ainda há pouco tínhamos os Estados Unidos a ameaçar tomar a Gronelândia – felizmente alguém percebeu que era uma ideia muito estúpida acabar com a NATO por causa de um rochedo – e a Rússia continua a ameaçar a Europa, mergulhando cada vez mais fundo na guerra.”
Perante “ações cada vez mais ridículas e extravagantes muito perigosas para os europeus”, considera o analista francês, o passo inédito de França era o único caminho, até porque, como sublinhou o próprio presidente, desde 2020 “os rivais evoluíram, assim como os nossos parceiros” – num discurso que, para Hoez, encerra duas grandes ideias. “Macron disse não só que aumentará o número de ogivas nucleares, como também não vai mais divulgar o seu número, e essa é uma das coisas mais importantes: no contexto da teoria MAD, tem de haver ambiguidade estratégica, os nossos rivais não podem simplesmente saber com o que contar para nos eliminar.”
Mas a frase mais importante de todo o discurso, defende Hoez, nem foi essa: foi o aviso feito por Macron sem papas na língua, quando disse que qualquer um que queira atacar França ou os seus aliados sabe o preço que terá de pagar. “É uma ameaça para todos, não apenas ao Irão, à Rússia ou à China, mas a todos – incluindo os EUA, que ainda há pouco tempo estavam a preparar-se para atacar os europeus. Agora vamos ter França como o ator nuclear líder na União Europeia e também uma grande oportunidade de envolver o Reino Unido nisto e integrá-lo lentamente no aparato de defesa europeu.”
Os problemas adiante
O trabalho deverá começar no imediato. Ao longo das próximas semanas e meses, os países envolvidos na nova doutrina de “dissuasão avançada” vão ter muito que negociar e detalhes a acertar, incluindo onde se vão posicionar as ogivas, a rotação das forças aéreas estratégicas francesas, que protegem o arsenal nuclear, o estabelecimento de protocolos de segurança, controlos mais rigorosos e como é que França vai relacionar-se com os outros países – sobretudo porque, tal como Emmanuel Macron fez questão de sublinhar, ele e quem o substituir em 2027 terão sempre a palavra final sobre o recurso a este armamento.
A par disso, os sete países em diálogo com Paris terão de estudar o fortalecimento das suas próprias forças armadas e perceber como e quando é que a presença militar será reforçada em torno do arsenal nuclear, o que obriga a renovados debates sobre cooperação militar – “quer a nível da UE, quer fora da estrutura da NATO”, destaca Julien Hoez, “porque, novamente, não podemos confiar nos EUA”.
“Diria que estas discussões vão decorrer nos próximos meses e, para além disso, há toda uma panóplia de tópicos para debater e negociar, desde a cooperação mais estreita entre França e Alemanha, aos novos submarinos nucleares de mísseis balísticos, que deverão começar a ser construídos em breve, e a uma distribuição mais justa dos esforços em defesa, a criação de fábricas de mísseis, grupos de ação para operações militares, forças militares mais robustas a nível europeu… Todas estas camadas evidenciam as dificuldades que temos pela frente.”
Sendo tantas, será possível que a União Europeia, que nunca foi criada como potência militar nem nunca teve uma defesa verdadeiramente coletiva, venha a firmar-se como uma potência? Hoez acredita que é possível, mas será preciso esperar para ver – nomeadamente, esperar pelas eleições legislativas da Hungria no próximo dia 12 de abril.
“A grande força de bloqueio tem sido a Hungria, mas se, a 12 de abril, Péter Magyar derrotar Viktor Orbán – e Orbán não se comportar como Putin para continuar no poder – há uma grande chance de o Conselho Europeu conseguir alterar os tratados e avançar com os dossiês que estavam bloqueados, como passar a ter votações por maioria qualificada e acabar com o veto obrigatório”, refere o especialista.
“Tudo isso tem estado dependente de Orbán estar no poder. E isso pode mudar com Magyar, que se apresenta como pró-europeu, a favor da adoção do euro, a favor de uma postura mais pró-Ucrânia, sendo muito crítico do confronto de Orbán com os parceiros da UE e da sua proximidade à Rússia. Mas tudo vai depender das pressões internas, do apoio que Magyar vai obter dos Estados-membros e da maioria que ele vai conseguir alcançar – ou não.”