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Pode Bardella conquistar o que a mentora nunca conseguiu? Como o pupilo de Marine Le Pen a ultrapassou, mesmo na mira dos tribunais

3 jul, 07:00
Marine Le Pen Jordan Bardella extrema-direita França Ressurgimento Nacional (AP)
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França deverá ficar a saber já na próxima semana qual das duas figuras maiores da extrema-direita francesa vai disputar a presidência nas urnas em 2027. Sondagens mostram uma preferência clara dos eleitores, e casos de corrupção a envolver Le Pen, Bardella e o partido podem não dirimir a vantagem do RN a 10 meses da ida às urnas

A candidatura de Jordan Bardella à presidência de França ainda não é oficial, mas foi enquanto putativo candidato que o atual líder do Reagrupamento Nacional (RN, de extrema-direita) viajou até à Polónia em junho, para uma visita oficial de dois dias durante a qual prometeu vencer as eleições de 2027.

Após um encontro com Jarosław Kaczyński, do Partido Lei e Justiça (PiS, de extrema-direita), e outros líderes nacionalistas, Bardella fez referência à “oportunidade” de o RN e o PiS conquistarem uma maioria de votos no próximo ano nos seus respetivos países – presidenciais em França, marcadas para final de abril e início de maio, e legislativas polacas no outono.

“Estou convencido de que, ao longo de 2027, se os nossos dois movimentos conseguirem vitórias eleitorais, teremos a oportunidade – porque França e Polónia são duas grandes potências na Europa – de redirecionar o funcionamento da União Europeia (EU), como costumo dizer, de mudar tudo sem destruir nada”, referiu Bardella, acrescentando que quer “pôr a Comissão e a UE novamente ao serviço das nações e não o contrário”.

Nem duas semanas depois, o RN viu-se envolvido num novo escândalo de corrupção, com a polícia francesa a realizar buscas a escritórios e residências de empresários de comunicação ligados ao partido de Bardella com as quais a sua equipa trabalhou no passado. As buscas ocorridas na terça-feira estão relacionadas com acusações de fraude que pendem sobre o atual líder do partido, no âmbito de uma investigação do Ministério Público Europeu (EPPO) sobre se o agora extinto grupo parlamentar Identidade e Democracia fez uso indevido de fundos públicos quando Bardella era o seu vice-presidente.

As acusações são em tudo semelhantes às que, em março do ano passado, levaram Marine Le Pen, mentora de Bardella e ex-líder do RN, a ser condenada a quatro anos de prisão, uma sentença que a impossibilita de se candidatar a cargos públicos durante cinco anos. Esse caso conhecerá um novo capítulo na próxima semana, altura em que um tribunal de recursos de Paris vai decidir se a sentença de Le Pen se mantém – e, por conseguinte, definir se pode ser ela a candidata à presidência pelo RN.

No dia das buscas, o jornal francês Le Canard Enchaîné noticiou a iminente abertura de um inquérito judicial paralelo tendo Bardella como alvo, referente ao cargo que ocupou no Parlamento Europeu em 2012. Um dia depois, na rede social X, o líder do RN traçou uma ligação direta entre as investigações judiciais e as suas aspirações políticas. “Como sempre, os processos judiciais antecipam o calendário eleitoral”, declarou. “Não temos nada a esconder e vamos prová-lo.” 

O deputado de extrema-direita Sébastien Chenu foi mais longe, dizendo que o RN é “um partido que sofre assédio por parte do Parlamento Europeu” e que “é evidente que existe uma intenção política de nos prejudicar”. E numa entrevista transmitida em horário nobre, Marine Le Pen disse não acreditar que a investigação se justifique, colocando em causa o facto de as buscas terem ocorrido exatamente uma semana antes do veredito que vai definir o futuro da sua carreira política. “Para mim, isto não é uma coincidência”, disse a ex-líder do RN. “Já não acredito em coincidências quando se trata deste tipo de coisas.”

Decisão sobre recurso interposto por Marine Le Pen a sentença de quatro anos de prisão e proibição de ser candidata a cargos públicos durante cinco anos é esperada para a próxima terça-feira à tarde. foto Christophe Ena/AP

Sondagens dão avanço a Bardella sobre Le Pen

Ao início da tarde da próxima terça-feira, 7 de julho, o juiz responsável por analisar o recurso interposto por Le Pen à sentença de março vai anunciar a sua decisão. Condenada juntamente com outras 11 figuras do RN por um esquema de desvio de fundos europeus que durou 12 anos e que lesou os contribuintes europeus em cerca de 4 milhões de euros, tudo indica que a sentença deverá manter-se. Depois disso, Le Pen ainda poderá recorrer ao Supremo Tribunal de França.

Será a sua derradeira oportunidade de salvar uma potencial candidatura às eleições do próximo ano, depois de duas tentativas falhadas no passado a concorrer contra Emmanuel Macron. Mas segundo várias sondagens divulgadas desde janeiro, já não é em Le Pen que os eleitores de extrema-direita estão a apostar as suas fichas.

No barómetro anual do instituto Verian para o Le Monde e o L’Hémicycle, com base num inquérito online conduzido no início de janeiro junto de 1.511 eleitores franceses, a imagem de Marine Le Pen já surgia muito deteriorada, por oposição à do seu pupilo de 30 anos. À data, a sua condenação criminal não parecia ter afetado as características pessoais que os inquiridos lhe atribuem, como “honesta” ou “simpática e afetuosa”, embora tenham sido expressas sobretudo por apoiantes do partido. Já as características políticas que lhe são atribuídas diminuíram e muito em comparação com a edição de 2025 do barómetro, depois de vários anos a melhorar.

Apenas uma pequena maioria dos inquiridos considerou Le Pen capaz de “tomar as decisões certas” – uma queda de 12 pontos percentuais em relação ao ano anterior – e de “compreender os problemas quotidianos do povo francês” – uma queda de seis pontos; e a sua capacidade de “mobilizar pessoas para além da sua base eleitoral” regrediu para um mínimo nunca visto desde as presidenciais de 2022, com apenas 39% a reconhecer-lhe esse atributo, uma queda de 11 pontos percentuais em relação a 2025.

Pelo contrário, e apesar de os números de Bardella também terem sofrido uma queda, quase um em cada dois inquiridos no mesmo inquérito (49%) disseram que o atual líder do RN “tem mais probabilidades de ganhar as eleições presidenciais” em comparação com 18% que responderam o mesmo sobre Le Pen. “Parece que Marine Le Pen serve de para-raios a Jordan Bardella, e que só ela sofre com a incapacidade do partido em chegar ao poder com os seus problemas legais”, disse então ao Le Monde Eddy Vautrin-Dumaine, diretor de investigação do Verian.

É certo que no início do ano apenas Marine Le Pen enfrentava processos na Justiça, o que poderá explicar estes resultados. Mas o facto é que sondagens posteriores continuam a mostrar uma preferência do eleitorado por Bardella em detrimento da sua mentora – e de Bardella em detrimento de vários outros candidatos presidenciais do restante espectro político. Uma sondagem do Ipsos publicada no início de junho mostrava não só que existe um elevado nível de apoio aos dois potenciais candidatos do RN à presidência – dando a cada um entre 31% e 36% de apoios – como, acima disso, mostrava que a candidatura de Bardella obteria uma melhor pontuação do que a de Marine Le Pen numa segunda volta contra qualquer rival na corrida.

Para Thibault Muzergues, autor de “La droite woke” (A direita woke), este avanço do pupilo sobre a mentora deve-se ao facto de Bardella estar “a posicionar a política do RN muito mais nos moldes de esquerda vs. direita”, como explicava o investigador à France 24 no início da semana. Embora o RN tenha mantido uma posição “nem de direita nem de esquerda”, como Le Pen gosta de dizer, Bardella afastou-se dessa tradição e, nas últimas eleições municipais, disse às claras que votaria na candidata do partido de direita Os Republicanos, Rachida Dati, para a Câmara de Paris – isto já depois de, ao seu leme, o RN ter conquistado um resultado histórico nas eleições presidenciais de 2024.

Quando a campanha às presidenciais arrancar, e a confirmar-se que seria ele o candidato de extrema-direita, Bardella partiria com um claro avanço. Um inquérito de opinião do Ifop divulgado há poucos dias apontava que o atual líder do RN poderia conquistar até 37% dos votos na primeira volta, bem à frente do segundo mais votado. E uma sondagem anterior do Odoxa antecipava que, na segunda volta, Bardella derrotaria qualquer opositor – incluindo Édouard Philippe, ex-primeiro-ministro e atual autarca de Le Havre, de centro-direita, que segue à frente dos restantes candidatos confirmados ou prováveis; nesse caso, segundo o inquérito do Odoxa, Bardella seria eleito presidente com 53% dos votos contra 47% para Philippe.

A 10 meses das presidenciais francesas, sondagens mostram que o autarca de Le Havre e ex-primeiro-ministro Édouard Philippe é atualmente o único candidato capaz de fazer frente a Bardella ou Le Pen nas urnas. foto Emma da Silva/AP

"Todos os partidos o são"

Mesmo assim, há quem duvide das capacidades da coqueluche de extrema-direita para conseguir aquilo que Le Pen nunca conseguiu – tornar-se chefe de Estado de França. Se alcançar o feito, tornar-se-á o mais jovem presidente da História de França desde Napoleão Bonaparte, mas até abril ainda tem um longo caminho a percorrer.

Entre os especialistas pouco convencidos das capacidades de Bardella conta-se Baptiste Roger-Lacan, investigador da Fundação Napoleão e autor do livro “Le Roi, une autre histoire de la droite”, que considera que o eleitorado francês está pronto para uma “união da direita” que inclua o partido de extrema-direita, mas não para uma liderança do RN a solo.

Em entrevista à France 24 no início desta semana, Roger-Lacan refere que, sim, Bardella pode ser uma estrela “popular no TikTok, mas não há infraestrutura no RN que trabalhe para converter esse apoio digital em votos reais”. Não só isso, Bardella é um novato nas lides políticas que aderiu ao RN em 2012, aos 16 anos, sem qualquer experiência profissional fora da arena onde se tornou estrela. “Vai enfrentar outros candidatos experientes”, adianta Roger-Lacan. “É extremamente inexperiente e isso é um problema.”

Nem todos concordam. Para Victor Mallet, editor do Financial Times e autor de “França de extrema-direita: Le Pen, Bardella e o Futuro da Europa”, tudo vai depender de quem segue para a segunda volta. O facto é que candidatos tidos como centristas estão a inclinar-se para a direita na tentativa de serem encarados como reais alternativas ao RN – e facto também, refere Mallet, é que “o constrangimento de estar associado ao RN está realmente a ficar para trás”. Já para Muzergues, entrevistado para o mesmo artigo, um presidente de extrema-direita em França deixou de ser uma questão de “se” e passou a ser uma questão de “quando”.

E como é que os processos judiciais que pendem sobre Le Pen, Bardella e outros membros do partido podem impactar as aspirações presidenciais do RN? Para Célia Belin, diretora da delegação de Paris do European Council on Foreign Relations (ECFR), o anúncio da próxima semana relativo ao recurso de Marine Le Pen poderá ditar uma quebra de confiança no partido – “o RN pode estar atualmente no auge do seu poder porque tem estas duas pessoas”, Le Pen e Bardella, refere a especialista, e começar a cair se ambas saírem de cena.

Novamente aqui há quem considere que, depois de escândalos a envolver figuras políticas de diferentes barricadas políticas – de Jacques Chirac a Nicolas Sarkozy e ao ex-primeiro-ministro François Bayrou – dificilmente os processos judiciais contra elementos do RN farão os eleitores repensarem a sua intenção de voto, sobretudo aqueles que, a 10 meses das eleições, já decidiram que vão votar na extrema-direita.

Como referia ontem ao Politico Mathieu Gallard, do instituto de sondagens Ipsos, “não é que os eleitores não considerem o RN culpado, é mais que pensam que todos os partidos o são” – e a verdade é que quem vota no partido de extrema-direita fá-lo “por causa das suas posições sobre imigração, identidade e segurança”.

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