O Ministério da Cultura malgaxe adiantou que os crânios serão sepultados novamente em Menabe, no oeste da ilha
França devolveu três crânios a Madagáscar, mais de um século depois de terem sido levados, incluindo um que se acredita ser de um rei malgaxe do século XIX, decapitado por tropas francesas.
A repatriação dos restos mortais para a nação insular da costa sudeste de África assinala a primeira vez que Paris aplica uma lei de 2023 que permite o retorno de restos humanos a um país para fins funerários.
França conquistou os reinos do povo Sakalava, no oeste de Madagáscar, na década de 1890, integrando-os numa colónia francesa recém-formada.
Presume-se que um dos três crânios devolvidos pertença ao Rei Toera, segundo informou o Ministério da Cultura francês em comunicado divulgado na terça-feira. Toera foi executado por tropas francesas em 1897.
Os outros dois crânios teriam pertencido a generais que lutaram ao lado do monarca, avançou o Ministério das Comunicações e Cultura de Madagáscar no mesmo dia, ao anunciar o regresso dos “heróis”.
As relíquias foram conservadas nas coleções do Museu Nacional de História Natural de França até serem formalmente entregues numa cerimónia realizada no Ministério da Cultura.
“Saúdo o regresso destes três crânios, incluindo o do Rei Toera do povo Sakalava, uma origem partilhada por quase um terço da população malgaxe”, declarou Fetra Rakotondrasoava, secretário permanente do Ministério da Cultura de Madagáscar e copresidente do Comité de Investigadores Malgaxe-Franceses encarregado da identificação dos restos mortais, em declarações à CNN na quarta-feira.
“Esta não é apenas a repatriação de ossadas, mas o retorno de uma parte da nossa história e memória”, acrescentou. “Agora poderemos homenagear estes restos mortais como merecem. Este momento é significativo para o povo malgaxe e para todas as nações empenhadas na restituição da sua herança.”
Na cerimónia, a Ministra da Comunicação e Cultura de Madagáscar, Volamiranty Donna Mara, sublinhou que os restos mortais, incluindo o do “nosso grande, de facto, muito grande, Rei Toera”, “não são meros objetos de uma coleção”, mas antes o elo “invisível e indelével que une o nosso presente ao nosso passado”.
“A ausência deles, durante mais de um século — 128 anos —, tem sido uma ferida aberta no coração da Grande Ilha (Madagáscar), e em particular para a comunidade Sakalava de Menabe”, prosseguiu.
O Ministério da Cultura malgaxe adiantou que os crânios serão sepultados novamente em Menabe, no oeste da ilha.
Na cerimónia de entrega, a Ministra da Cultura francesa, Rachida Dati, salientou que o momento “marca um evento histórico entre a França e Madagáscar”.
Acrescentou ainda que o Comité Científico conjunto, criado em outubro para analisar o pedido de restituição, “permitiu-nos mais uma vez compreender o significado da figura do Rei Toera, tanto para os seus concidadãos como para o povo Sakalava em particular: pela sua identidade, dignidade, consciência de si e pelo vínculo que procuram construir entre o passado e o futuro”.
Em 2017, o presidente francês Emmanuel Macron afirmou, num discurso em Burkina Faso, que “dentro dos próximos cinco anos, quero ver criadas as condições para permitir a restituição temporária ou definitiva do património cultural africano a África”.
Posteriormente, encomendou um relatório publicado em 2018 que recomendava a devolução ao continente africano de milhares de artefactos saqueados durante a era colonial e guardados em museus franceses.
Um esforço semelhante está em curso no Reino Unido, onde legisladores e ativistas divulgaram em março um relatório apelando ao fim da exposição de restos humanos em museus e à proibição da venda de partes de corpos em casas de leilões.
