O seu mandato terminará em 2027, mas, politicamente, a sua presidência terminou agora
Um governo cai sempre duas vezes: a primeira no Parlamento, a segunda na opinião pública. Foi isso que aconteceu a François Bayrou, primeiro-ministro efémero, derrubado por um voto de censura que se tornou inevitável desde o momento em que Emmanuel Macron decidiu transformar a governação francesa num exercício de sobrevivência. A queda do governo não é apenas mais um episódio na longa novela parlamentar de Paris; é o sinal de que Macron perdeu, em definitivo, o fôlego político que lhe restava.
Macron está só. Sem maioria na Assembleia, sem aliados estáveis, sem capital político para renovar a confiança dos franceses, o Presidente encurralou-se no Palácio do Eliseu. O seu segundo mandato, que já vinha marcado por impopularidade e por crises sucessivas, tornou-se agora uma travessia no deserto: três governos em menos de um ano, um Parlamento fragmentado, uma oposição fortalecida e um eleitorado que vê em cada voto de censura uma antecipação do colapso presidencial.
Esta crise é mais do que francesa. É um sintoma europeu. A implosão dos partidos tradicionais, a erosão do centro político e a ascensão da extrema-direita repetem-se de Lisboa a Berlim, de Roma a Londres. Mas em França, como sempre, o drama é mais teatral. A França foi durante décadas a guardiã da República europeia e hoje é o palco de um populismo que se normalizou. Nicolas Sarkozy disse-o há poucos dias: o Rassemblement National de Marine Le Pen já não é “tóxico”. É a normalização plena daquilo que durante anos foi considerado um perigo para a democracia francesa.
A questão central é que a queda de Bayrou funciona como uma espécie de primeira volta antecipada das presidenciais de 2027. Marine Le Pen sabe que cada falha do governo Macron reforça a sua narrativa de que só o RN pode trazer estabilidade. E Jordan Bardella, o seu delfim, surge já como o rosto que pode encarnar uma nova geração de extrema-direita, menos marcada pela herança familiar e mais hábil em falar às classes médias urbanas. Para muitos analistas franceses, esta crise é um balão de ensaio: uma oportunidade para testar Bardella, medir o seu apelo junto do eleitorado e preparar terreno para uma campanha que, salvo milagre, os colocará no Eliseu.
O que trouxe a França até aqui não foi apenas a má gestão de Bayrou ou os erros táticos de Macron. Foi um ciclo longo de desgaste político. A dissolução da Assembleia em 2024, feita na esperança de recuperar autoridade, apenas abriu a porta a uma legislatura ingovernável. A economia francesa continua sob pressão: crescimento anémico, défices orçamentais persistentes e uma carga fiscal das mais pesadas da Europa. Há até quem, em Paris, sussurre sobre a necessidade de recorrer ao FMI - o que seria uma humilhação sem precedentes para uma potência que sempre se viu como motor da integração europeia.
O eleitorado francês sente esse peso no dia a dia: impostos sufocantes, serviços públicos em erosão, insegurança social e uma sensação generalizada de que a política já não serve para melhorar a vida, apenas para administrar a decadência. Esse vazio é explorado pela extrema-direita com a mesma fórmula de sempre: menos Europa, menos imigração, mais “ordem” e mais “França”. A diferença é que, agora, essa fórmula deixou de ser marginal e passou a ser plausível.
Macron, que em 2017 surgia como a promessa de uma França europeísta, reformista e moderna, está hoje encurralado entre a hostilidade do Parlamento e a frieza da rua. O seu mandato terminará em 2027, mas, politicamente, a sua presidência terminou agora. O que resta é gestão do vazio, enquanto Le Pen e Bardella preparam o assalto ao Eliseu.
A França vive um momento de implosão dos partidos tradicionais: os Republicanos já não passam de uma sombra, o Partido Socialista nunca recuperou da implosão de Hollande, e o centro macronista esgota-se em manobras sem alma. O que sobra é um país dividido entre uma extrema-direita em ascensão e uma esquerda fragmentada, incapaz de oferecer uma alternativa coesa.
O risco para a Europa é evidente. Se a França de Le Pen ou Bardella se tornar realidade em 2027, a União Europeia terá pela frente uma força centrífuga de enorme peso, comparável ao Brexit no Reino Unido. E o sinal que Paris envia hoje é claro: a democracia francesa está cansada, e Macron não tem nem tempo nem autoridade para lhe devolver energia.
A queda de Bayrou é, por isso, mais do que a queda de um primeiro-ministro. É a queda de um regime presidencialista que perdeu tração, de um Presidente que já não manda e de um sistema político que já não convence. É a antecâmara daquilo que poderá ser a eleição mais decisiva da V República - e talvez o momento em que a França decide se continua a ser o coração do projeto europeu ou se abdica dessa função em nome de uma promessa populista.
