O caso chocou a França e o mundo pelo número de perpetradores e pelo facto de haver imagens das violações, que ocorreram quando a vítima estava sedada e inconsciente. Gisèle Pelicot quis que fosse tudo público - para que a vergonha mude de lado. Tornou-se o rosto que expõe uma sociedade que normaliza a violência sexual sobre as mulheres e que, na maior parte das vezes, se cala. É "uma mulher desfeita" mas é também um exemplo - para as mulheres e para os homens. Após três meses e meio de julgamento, todos os arguidos foram acusados, com o marido a receber a pena máxima, de 20 anos de prisão
No primeiro dia do julgamento, Gisèle Pelicot chegou ao tribunal em Avignon encolhida, de cara séria e óculos escuros, evitando os fotógrafos. “Ela tinha uns óculos escuros que usava para esconder os olhos, para proteger a sua intimidade”, explicou Stéphane Babonneau, um dos advogados que trabalharam com Gisèle nos últimos dois anos. “Mas houve uma altura em que ela sentiu que já não precisava de se proteger”, disse Babonneau. Já não precisava dos óculos. Para o advogado, esse momento ilustra a lenta transformação de uma “pessoa sincera e muito humilde" - que tinha começado o processo “extremamente preocupada" com a exposição a que seria sujeita, sentindo-se ainda “muito envergonhada com o que lhe tinha acontecido” - para aquela mulher que, recebendo cada vez mais manifestações de apoio, sentia que o seu exemplo era importante para evitar que outras mulheres passassem pelo que ela passou.
Foi ela que, contrariando a decisão inicial do tribunal, insistiu para que este fosse um julgamento público, de portas abertas. "A história de todos estes homens e dos seus alegados crimes sexuais deve ser contada", defendeu. “Está na hora de mudar a sociedade machista e patriarcal que banaliza a violação”, disse Gisèle Pelicot, 72 anos, na sua declaração ao tribunal. “Está na hora de mudarmos a maneira como vemos a violação.” Não, não é ela que tem de sentir vergonha ou de se esconder. A culpa e a vergonha estão todas do lado dos homens, do seu marido e dos mais de 50 homens que a violaram enquanto ela estava inconsciente, que o fizeram sabendo que ela nada sabia do que lhes estava a acontecer, que o fizeram repetidamente ao longo de quase dez anos. "Violação não é a palavra correta, é tortura", disse Gisèle.
Depois de onze semanas de julgamento, as sentenças foram conhecidas esta quinta-feira. Todos os arguidos foram condenados, com a pena mais elevada em França para o crime de violação - 20 anos - para Dominique Pelicot, o homem que engendrou todo o esquema, que sedou a vítima, abriu as portas da sua casa a estranhos e filmou a sua mulher a ser violada uma e outra vez.
"Gisèle é uma mulher desfeita, não sabemos se alguma vez ela irá recuperar disto. Mas demonstrou uma enorme coragem", sublinha à CNN Portugal a ativista dos direitos das mulheres Paula Cosme Pinto. De acordo com um estudo recente, uma em cada seis mulheres na Europa é vítima de violência sexual. Entre as vítimas, apenas uma em cada oito apresenta queixa. "Temos de questionar porque é que as mulheres continuam a ter receio de apresentar queixa", diz Paula Cosme Pinto.
"Há muitas barreiras que dificultam a denúncia", explica a psicóloga Marlene Matos, especialista em questões ligadas à violência de género e à justiça. A vergonha e o medo da estigmatização por parte das vítimas são algumas dessas barreiras. "É fundamental mudar essas dinâmicas, quer incentivando a denúncia desses casos - protegendo de modo eficiente as vítimas -, quer reforçando a ideia de que o silêncio apenas perpetua a violência, deixando a vítima totalmente desprotegida, e que responsabilizar um agressor perante a justiça é muito importante para não haver mais vítima."
"Essa ideia de que as mulheres inventam assédio e abusos é um mito, os casos de invenção são residuais", afirma Paula Cosme Pinto. "A verdade é que as mulheres sabem que há um preço a pagar por denunciar um abuso, as mulheres sentem-no na pele, com um enxovalho muito grande. Raramente alguém tem alguma coisa a ganhar em denunciar. Uma mulher que denuncia um caso destes é escrutinada na sua vida privada, é penalizada profissional e socialmente, é posta em causa." Também tentaram fazer isso com Giséle Pelicot, ao início. "Até ela foi questionada na sua índole, vieram com argumentos de que fazia nudismo, que bebia, tentaram fazer o jogo habitual de desacreditação da vítima. Nós fomentamos o sentimento de impunidade dos homens porque, ainda hoje, a desacreditação primária recai sobre as mulheres, é ela que tem de se justificar e defender." Gisèle diz-nos que não tem de ser assim.
Como um casamento perfeito se tornou uma tortura inimaginável
Gisèle Pelicot sonhava ser cabeleireira mas acabou por ser datilógrafa e por trabalhar como responsável de logística numa empresa de eletricidade. Depois de se reformar, gostava de dar passeios no campo e de cantar no coro. Dominique Pelicot, eletricista e agente imobiliário reformado, dizia-se um homem de família. Pai de três filhos e avô de seis netos, gostava de andar de bicicleta pelo campo, ao domingo levava o filho e o neto aos jogos de futebol. “Os meus pais tinham o talento de organizar festas de aniversário-surpresa para nós”, contou o filho mais velho, David. “Os meus amigos diziam-me que eu tinha sorte em ter um pai assim. Toda a gente o adorava.” O casal morava desde 2013 na aldeia de Mazan, na Provença, em França, onde tinha uma casa com jardim e uma pequena piscina.
No sábado de 12 de setembro de 2020, Dominique saiu de casa e conduziu durante 20 minutos até ao grande supermercado da cidade de Carpentras. Estava um dia quente e muitas mulheres usavam vestidos. Dominique tinha um saco preto com uma câmara oculta, aproximava-se das mulheres, segurando o saco junto ao chão e apontando-o para cima. O segurança do supermercado viu-o a filmar por baixo das saias das mulheres e chamou imediatamente a polícia. O homem disse aos polícias que tinha filmado as mulheres porque a sua mulher estava fora - nesse fim de semana Gisèle tinha ido a Paris cuidar dos netos - e ele tinha sentido uma “vontade”. Os polícias pressentiram que algo não estava bem com aquele reformado de cabelo branco e ar inofensivo. Decidiram analisar melhor o histórico de conversações dos dois telemóveis que ele trazia consigo e que foram confiscados. Depois revistaram a casa dele. Encontraram mensagens trocadas com outros homens, milhares de fotografias e vídeos de violações e abusos nos telemóveis, no computador e no disco rígido.
Dominique usou a aplicação Coco.fr, que entretanto foi encerrada, para oferecer a sua mulher a outros homens. “Estou à procura de um cúmplice para abusar da minha mulher”, anunciou nos grupos de conversação. Quando era contactado pelos homens, as conversas privadas aconteciam através de videochamadas no Skype e mensagens escritas.
Numa pasta chamada “abuso” que estava no seu disco rígido, tinha arquivados vídeos de mais de 200 violações de Gisèle por estranhos. A maior parte das violações aconteceu no quarto do casal, com os candeeiros de cabeceira acesos, as fotografias de família numa moldura em cima da cómoda, ao lado de um frasco de perfume, e o som da televisão ligada ao fundo. Quando os homens chegavam, Gisèle encontrava-se inerte, na cama, despida ou com roupa interior.
Dominique disse ao tribunal que obtinha a medicação com receita médica e que esmagava comprimidos para dormir e calmantes no puré de batata, no gelado, no café ou na cerveja da mulher, normalmente à noite, tendo aperfeiçoado uma dose que a deixava inconsciente durante cerca de sete horas - tempo suficiente para ele e outro homem, ou vários homens consecutivos, a violarem, após o que a lavava e voltava a vestir-lhe o pijama.
De acordo com as suas regras, os homens deviam estacionar nas proximidades e caminhar até à casa para evitar acordar os vizinhos e deviam despir-se na cozinha. Os homens não podiam fumar ou beber antes, não deviam usar aftershave e tinham de aquecer as mãos no radiador. Dominique pedia-lhes para lavarem as mãos e terem unhas curtas porque ele não suportava a ideia de unhas sujas a tocarem Gisèle. Os preservativos não eram exigidos e, na verdade, eram por vezes desencorajados. Esta situação prolongou-se durante nove anos, entre 2011 e 2020, com um aumento das visitas durante o período de confinamento devido à covid-19. Dominique disse que trazer homens para violar a mulher tornou-se um “vício” que entrou em espiral.
Em novembro de 2020, quando a polícia disse a Gisèle que tinha encontrado vídeos em que era violada, ela já estava tão preocupada com os seus apagões regulares, momentos de perda de memória, nevoeiro cerebral e fadiga terrível que tinha a certeza de que sofria de uma doença incurável. Receava ter alzheimer, parkinson ou um tumor cerebral, ainda que os exames e testes continuassem a dar negativo. Nenhum dos muitos neurologistas e médicos que consultou suspeitava de toma de drogas. Também consultou vários ginecologistas e agora vive com as consequências de quatro doenças sexualmente transmissíveis. Nessa altura, Gisèle pensava que o marido era “um amor” por insistir em ir com ela a todas as consultas e por lhe garantir que estava bem.
"Como é que ele foi capaz?"
Em maio deste ano, os advogados Stéphane Babonneau e Antonio Camus estavam a analisar alguns dos 20 mil vídeos e fotografias, muito explícitos, que a polícia tinha descoberto no disco rígido do computador de Dominique Pelicot. Os vídeos eram “absolutamente repugnantes”, recordou Babonneau à BBC: “É possível ouvir a senhora Pelicot a ressonar, ouvir a sua respiração. É ainda mais perturbador ouvi-la a quase sufocar quando alguns dos homens estão a abusar dela. O som era uma [prova] muito importante”. O advogado sabia que, sem esses vídeos, “muito provavelmente não teria havido julgamento, não teria havido caso”. Gisèle Pelicot também sabia isso mas podia, compreensivelmente, ter decidido não ver as filmagens. Mas ela quis vê-las. Queria ver as imagens para compreender quem eram todos estes homens e também para ajudar a preencher as lacunas da sua memória, causadas pelos anos em que foi drogada pelo marido. “Há pedaços inteiros da existência dele que não existem na mente de Gisèle”, explicou Babonneau. Gisèle Pelicot sentou-se ao lado dos advogados, imóvel, enquanto eles lhes mostravam partes selecionadas dos vídeos. “Como é que ele foi capaz?”, acabou por perguntar, com a sua voz calma.
Os advogados viram este momento como um “teste final” que mostrava que a sua cliente tinha recuperado “uma espécie de equilíbrio” nos quatro anos que se seguiram a 4 de novembro de 2020, quando foi informada das ações do marido e “o seu mundo foi destruído”. Esse foi o pior dia da sua vida, disse. “Sobrevivi a 4 de novembro de 2020, por isso estou pronta para tudo”, disse aos advogados.
Quem são estes homens?
Cerca de 20 homens que aparecem nas filmagens nunca foram identificados. Mas um total de 50 homens com idades compreendidas entre os 27 e os 74 anos - incluindo um enfermeiro, um jornalista, um militar, um DJ, um perito em computadores, trabalhadores agrícolas, camionistas e empregados de lojas - compareceram no julgamento, que durou mais de três meses.
Apenas 15 homens, incluindo Pelicot, admitiram ser culpados de violação. “Eu sou um violador como todos os outros nesta sala”, disse o marido durante o seu testemunho, no qual elogiou a coragem da mulher e pediu desculpa por todo o mal que lhe tinha feito - e pediu o perdão da família. Além de ter facilitado a violação de Gisèle, Dominique violou repetidamente a mulher de outro homem depois de o ter ensinado a utilizar a mesma técnica e propôs ensinar vários outros homens a drogar as suas namoradas ou mulheres - e até a mãe de um deles -, sugerindo que também as podia violar.
A maioria dos homens nega o crime, dizendo que pensaram que se tratava de um jogo consensual orquestrado por um casal de swingers. Alguns disseram que pensaram que Gisèle era tímida ou que não sabiam que ela estava drogada. Vários disseram aos investigadores que não se tratava de violação se o marido de Gisèle tivesse dado o seu consentimento. “Ele pode fazer o que quiser, a mulher é dele”, disse um deles. Outros disseram em tribunal que agora pensavam que eles próprios tinham sido drogados ou dizem ter sido coagidos por Dominique.
A existência de provas em vídeo faz com que nenhum dos homens possa negar que alguma vez foi a casa dos Pelicot. Mas a maioria contesta veementemente as acusações de violação agravada. A lei francesa define a violação como qualquer ato sexual cometido por “violência, coação, ameaça ou surpresa”; não faz referência a qualquer necessidade de consentimento. Por isso, argumentam também que não podem ser culpados de violação porque não sabiam que Gisèle Pelicot não estava em condições de dar o seu consentimento. “Não pode haver crime sem a intenção de o cometer”, disse um advogado de defesa. “O meu corpo violou-a, mas o meu cérebro não”, insistiu o bombeiro voluntário chamado "Christian L".
Dominique Pelicot sempre disse que deixou bem claro aos homens que a sua mulher não tinha conhecimento do sucedido. "Todos eles sabiam, não podem negar." Essa afirmação é confirmada pelas trocas de mensagens a que a polícia teve acesso.
Ahmed T., um canalizador de 54 anos, casado com a sua namorada de infância há 30 anos, disse que se quisesse violar alguém não teria escolhido uma mulher na casa dos 60 anos. Redouane A., desempregado de 40 anos, argumentou que se tivesse a intenção de violar Gisèle não teria permitido que o marido gravasse vídeos.
Joseph C, de 69 anos, treinador desportivo reformado e avô extremoso, foi condenado a três anos de prisão com dois anos de pena suspensa por agressão sexual agravada de prisão por agressão sexual - foi a sentença mais branda pedida pelos procuradores. No extremo oposto está Romain V, de 63 anos, que foi condenado a 15 anos de prisão. É seropositivo e é acusado de violar Gisèle Pelicot em seis ocasiões diferentes sem usar proteção - embora o seu advogado tenha dito ao tribunal que esteve em tratamento durante vários anos e não podia ter transmitido o vírus.
O caso mais antigo identificado pela polícia foi o de Adrien L., filho de um empresário local com formação académica. Terá violado Gisèle em março de 2014, quando ele tinha 23 anos e ela 62. A sua namorada grávida deu à luz o seu filho 10 dias depois.
No Dia dos Namorados de 2015, Dominique convidou um camionista e ex-soldado chamado Dominique D. para entrar em sua casa, dizendo que o encontro foi um “presente” para a sua mulher, que estava deitada inerte e imóvel na cama. Dominique D. tornou-se um dos poucos frequentadores assíduos, regressando outras cinco vezes até 2020.
Um dos homens, Jérôme V, trabalhador de uma mercearia, foi seis vezes durante o confinamento. Em tribunal, admitiu a violação, dizendo que se sentia atraído pela ideia de poder ter “total liberdade de ação” sobre um corpo inerte - mas atribuiu a culpa à sua "sexualidade incontrolável".
Joan K., de 27 anos, é o mais novo dos arguidos e ex-soldado do exército francês. Negou ter violado Gisèle Pelicot em duas ocasiões, uma das quais no mesmo dia em que nasceu a sua filha. Embora soubesse que ela estaria inconsciente, disse que não se apercebeu de que ela não tinha dado o seu consentimento.
O único homem dos 50 que não é acusado de violar Gisèle Pelicot é Jean-Pierre M., de 63 anos, apelidado “discípulo” de Dominique Pelicot. Tendo aprendido a drogar a mulher para abusar dela, fê-lo durante cinco anos e admite-o. Atribui os seus crimes ao encontro com Dominique Pelicot, que diz ter sido "tranquilizador, como um primo". Os procuradores pediam uma pena de prisão de 17 anos, mas o tribunal condenou-o a 12 anos.
Ninguém a avisou, ninguém chamou a polícia: o silêncio também é crime
O que têm em comum estes homens? Muito pouco. São jovens e velhos, corpulentos e magros, negros e brancos. Uns foram abusados sexualmente quando eram crianças, outros sofrerem de negligência, outros tiveram infâncias felizes. Uns vinham de famílias pobres, a outros nunca lhes faltou nada. Alguns tinham antecedentes criminais por violência doméstica, crimes de condução ou roubo, outros não. Alguns eram casados, outros eram solteiros. Alguns tiveram dificuldades na escola, um tinha dois diplomas. Vários eram viciados em canábis, outros não fumavam. Muitos eram consumidores de pornografia, alguns já pagaram por sexo.
"A diversidade dos perpetradores, a maioria deles inseridos na sociedade, desafia a crença de que o agressor sexual é sempre um indivíduo facilmente identificável. Mas é muito importante ter o cuidado de não generalizar. O que este caso demonstra é que os agressores sexuais podem ter diferentes perfis (por exemplo, a nível socioeconómico, psicológico)", afirma a psicóloga Marlene Matos. "O problema da violência sexual é complexo e multifatorial, envolve atitudes, crenças, comportamentos e, sobretudo, o exercício de poder e controlo de um sobre o outro. É importante reconhecer que não há um perfil 'único' e que a prevenção passa por educar e conscientizar para a violência sexual, bem como responsabilizar coletivamente a sociedade para essa prevenção e combate."
Mas há algo que todos os arguidos têm em comum: todos fizeram a escolha consciente de não ir à polícia. O bombeiro Jacques C., de 73 anos, admitiu que tinha pensado nisso, mas “depois a vida continuou”, enquanto o eletricista Patrice N., de 55 anos, disse que “não queria perder o dia inteiro na esquadra”. Quentin H., guarda prisional de 29 anos, admitiu a violação, dizendo que depois percebeu no seu carro, enquanto conduzia para casa, que “algo não estava bem”.
Nos primeiros dias do julgamento, perguntaram a Gisèle Pelicot se considerava legítimo pensar que os homens tinham sido manipulados pelo seu marido. Ela abanou a cabeça: "Não me violaram com uma arma apontada à cabeça. Violaram-me em plena consciência". E depois Gisèle perguntou: "Porque é que não procuraram a polícia? Até um telefonema anónimo podia ter-me salvado a vida. Mas ninguém o fez. Nenhum deles".
Esse silêncio por parte de homens envolvidos - mais de 80 que participaram ativamente na violação de uma mulher e todos os outros que viram as mensagens de Dominique Pelicot - é um dos aspetos mais chocantes deste caso, afirma Paula Cosme Pinto. "Nem uma denúncia anónima, um telefonema, nada. Em momento algum estes homens tiveram a iniciativa de avisar aquela mulher do que se passava ou de denunciar o marido. Isto mostra bem a normalização de violência sexual e da falta de consentimento da mulher que existe na nossa sociedade, o que tem muito que ver com o machismo estrutural e o sentimento de posse do masculino sobre o feminino", diz.
"A manutenção da violência sexual sobre as mulheres vive deste silêncio e desta empatia", prossegue Paula Cosme Pinto. Mesmo os homens que não têm este tipo de comportamentos acabaram por ser cúmplices. "Esse silêncio alimenta um sentimento de impunidade que é um incentivo a que isto continue a acontecer. Gisèle Pelicot mostra-nos que o silêncio das pessoas que sabem o que está a acontecer é em si uma agressão."
Paula Cosme Pinto reconhece que "há cada vez mais aliados" das mulheres, "mas muitas vezes ainda temos de dizer 'se fosse a tua filha' ou 'se fosse a tua mulher', como se as mulheres só fossem merecedoras de respeito se houver uma relação de proximidade com elas", afirma. "Os homens podem ser agentes ativos de mudança", defende. E esse é talvez o grande passo que falta dar, algo que ficou muito visível com este caso.
Gostamos de acreditar que os violadores são "feios, porcos e maus", "ninguém gosta de imaginar que o violador pode ser um médico, um bombeiro, um colega do trabalho", afirma Paula Cosme Pinto. "Not all men, claro, mas é preciso destapar esta verdade muito inconveniente" que é o facto de um violador poder ser ao mesmo tempo um bom profissional, um marido dedicado de alguém, um pai carinhoso.
Paula Cosme Pinto sublinha a importância de se olhar para a violência sexual dentro das relações, seja um casamento ou um namoro. "Muitas vezes os principais carrascos das mulheres estão dentro de casa - são os maridos, namorados, pais, familiares, são as pessoas que estão mais próximas. Os abusos acontecem na dinâmica da intimidade mas, em todos os casos, sempre numa relação de poder e num processo de desumanização das mulheres."
Gisèle: uma sobrevivente, um exemplo
“O perfil de um violador não é o de alguém encontrado num parque de estacionamento a altas horas da noite”, disse Gisèle ao tribunal. Essa é uma lição a tirar deste caso: “Um violador também pode estar na família, entre os nossos amigos”. Nas suas palavras, este julgamento é um exemplo da sociedade moderna onde o abuso se tornou uma “banalidade” porque “o abuso está em todo o lado”.
A noção de "cultura da violação" surgiu nos EUA, integrado no movimento feminista na década de 1970, mas começou a ser usada mais comumente nos anos 2000, referindo-se a todos os estereótipos e condutas sociais que incentivam a violência sexual e impedem que ela seja identificada como tal uma vez que o ato foi cometido, fazendo-o passar por uma relação sexual "normal". Por exemplo, a ideia de que os homens têm necessidades sexuais incontroláveis, a ideia de que um marido pode ter relações com a mulher quando quiser, a ideia de que a mulher muitas vezes diz não quando na verdade quer dizer sim, a ideia de que o consentimento não tem de ser expressado. Tudo isto contribui para a normalização de relações abusivas, explica a investigadora Naomi Renar. Na sua opinião, o caso Pelicot "mostra até que ponto a violação não é um fenómeno que só existe nas margens da sociedade. (...) Se a violação pode ser tão maciça e disseminada é porque nossa sociedade tolera esses atos e faz vista grossa a muitos casos de violência sexual. A violência sexual está integrada na nossa sociedade".
A psicóloga Marlene Matos confessa que o que a mais chocou neste caso foi "a gravidade e a elevada reiteração (ao longo de uma década) da violência envolvida", mas também "a complexidade subjacente ao caso, já que envolve muitos agressores, além do seu ex-marido, e um silêncio cúmplice, perpetuado por muitas pessoas durante demasiado tempo em torno desses crimes". Por outro lado, "a forma como as instituições próximas (ex. saúde) falharam em proteger esta vítima é chocante e evidencia claramente todo um contexto no qual a violência sexual continua a ser subnotificada".
"A recuperação de uma vivência como esta, com um elevado potencial traumático, é um processo longo e difícil", avisa a psicóloga. "Estas vítimas necessitam de um apoio psicológico especializado. A superação é, apesar de tudo, possível. Através do apoio especializado é possível ressignificar a sua experiência, restaurar a segurança e mesmo desenvolver resiliência. Muitas vítimas reconstroem as suas vidas também através da uma boa rede de familiares e amigos da sua confiança, que não a julgaram em momento algum do processo. O direito e o acesso à justiça, assim como o reconhecimento social da violência sofrida, são outros fatores pós-vitimização que também ajudam nessa trajetória de recuperação. Nesse sentido, o facto de a vítima permitir um julgamento público pode ser parte do processo de recuperação, pois é uma forma de recuperar a sua própria voz, a sua dignidade e o controlo sobre a própria vida, contribuindo para que se faça justiça."
Gisèle Pelicot parece ter conseguido encontrar essa força ao longo do julgamento. Enquanto dentro da sala de audiências se elencavam as atrocidades cometidas, cá fora muitas pessoas - sobretudo mulheres - manifestavam-se todos os dias dando o seu apoio a Gisèle Pelicot. Deram-lhe flores, colaram cartazes, gritaram por justiça. Em dezembro, a BBC incluiu Gisèle Pelicot na lista de 100 personalidades femininas do ano. Nas redes sociais, muitos elegeram-na como figura do ano. Gisèle, uma reformada francesa de 72 anos, tornou-se um ícone feminista.
"Tem sido muito bonito ver esta solidariedade, mas devíamos fazer isto a todas as vítimas de violência sexual. Um homem violar uma mulher já devia ser considerado hediondo, não devia ser preciso um caso destas dimensões para conseguirmos ver que a violação é um crime intolerável", alerta Paula Cosme Pinto.
"O caso Pelicot, além de desconstruir vários estereótipos, ajuda-nos a reconhecer que a violência sexual é um problema influenciado pelas normas sócio-culturais, pelo silêncio cúmplice e por inúmeras falhas institucionais", considera Marlene Matos. "A prevenção da violência sexual deve assentar, desde logo, na promoção da igualdade de género e de uma cultura de intolerância face à violência, bem como na consciencialização sobre o que é o consentimento. Além disso, todas as vítimas devem ter o direito de ter ao seu dispor sistemas eficazes de proteção e apoio adequados (ex. psicológico, jurídico, médico, social), além de respostas ágeis e eficazes por parte do sistema de justiça."
"Eu queria que todas as mulheres vítimas de violação pensassem 'se a senhora Pelicot fez isto, nós podemos fazer'", disse Gisèle em tribunal, afirmando que a sociedade precisa de analisar “como chegámos a isto, como é que estas coisas podem acontecer”, para proteger as gerações futuras. “É isso que está em causa.”
"Gisèle Pelicot é muito forte a passar a mensagem 'chega de serem as vítimas a sofrerem, chega de se esconderem e de ficarem caladas'", diz Paula Cosme Pinto. "O facto de ela mostrar a cara diz a outras vítimas que também podem fazê-lo, que têm de se despir do juízo moral, de ignorar o que os outros possam pensar. Porque não são elas que devem ter vergonha."
"A coragem desta vítima continua a surpreender-nos a cada dia e isso pode mesmo transformar este num caso muito importante para a prevenção e o combate à violência sexual, encorajando outras vítimas a denunciar e alertando a sociedade para a importância do seu papel", aponta Marlene Matos. "Esta mulher tornou-se um símbolo da luta contra a violência sexual em França e isso pode ter repercussões em vários outros países." Se assim for, já não foi em vão que Gisèle Pelicot tirou os óculos escuros e nos mostrou o seu rosto.