Queriam passar o resto das suas vidas em França. Mas rapidamente o sonho tornou-se um pesadelo

CNN , Tamara Hardingham-Gill
9 nov 2024, 10:00
Casal muda-se dos EUA para França (CNN)
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Joanna McIsaac-Kierklo e o seu marido Ed Kierklo mudaram-se de São Francisco para França em outubro de 2023 mas, pouco mais de 12 meses depois, o casal diz que está prestes a regressar aos EUA.

Embora Joanna, 74 anos, e Ed, 75, tencionassem passar o resto das suas vidas no país europeu, o casal de reformados tem tido dificuldade em fazer amigos e está cada vez mais frustrado com a burocracia francesa.

“Demos um ano aqui”, diz Joanna. “E concluímos: 'Demasiado sofrimento e nenhuma alegria'. Não há diversão. Estamos a lutar todos os dias.”

“Frustrados e exaustos”

Apesar de terem passado dois meses a viver na cidade de Nîmes e de gostarem, Joanna e Ed tiveram dificuldades quando se mudaram para lá definitivamente. Cortesia Joanna McIsaac-Kierklo

“Sinceramente, acho que não podíamos ter feito mais esforços para nos ambientarmos ao modo de vida francês”, afirma Joanna, que descreve a sua experiência como “um pesadelo”.

Embora ainda estejam a tratar dos pormenores do seu regresso iminente, Joanna e Ed dizem que estão “frustrados e exaustos” com a vida em França e que se sentem prontos para “desistir e partir”.

A decisão de se mudarem para França não foi tomada de ânimo leve, garantem.

Joanna e Ed, que estão casados há 20 anos, já tinham viajado muito pelo mundo, tanto juntos como separados.

“Só me casei quando tinha 50 anos”, afirma Joanna, que é natural de São Francisco. “Por isso, quando conheci o meu marido, viajámos.”

“Não temos filhos. Não temos irmãos. Não temos pais. Não há nada que nos impeça de fazer exatamente o que nos apetece.”

Joanna explica que ambos compraram e venderam três casas diferentes durante os primeiros 15 anos de casamento, o que lhes deu “uma quantia confortável de dinheiro” que lhes permite ter a opção de viajar e até de se mudarem para onde quiserem.

Em 2010, o casal comprou uma casa de verão no norte da Califórnia e passou cerca de oito anos “a viajar de e para São Francisco”.

“Penso que todos os casais precisam de dois sítios para viver, porque têm de se afastar um do outro”, afirma Joanna, que trabalhou anteriormente como executiva na área da saúde.

Mas Joanna estava a ficar cada vez mais frustrada com o clima político nos EUA e sentiu a necessidade de se mudar para outro lugar permanentemente.

“Sou uma pessoa bastante política e sinto que os Estados Unidos deviam ser melhores”, argumenta. “E nunca melhoram.”

Em 2011, o casal mudou-se para Londres e passou grande parte do seu tempo livre a viajar por diferentes países da Europa.

“Adorei todos os sítios onde fui”, diz Joanna. “Gostei muito de ver grande parte da Europa.”

Depois de decidirem que já não podiam dar-se ao luxo de viver na capital do Reino Unido, Joanna e Ed, um antigo executivo de Tecnologias de Informação (IT), regressaram a São Francisco e tentaram perceber para onde ir a seguir.

Já tinham passado dois meses a viver na cidade de Nîmes, no sul de França, e “adoraram cada minuto”, pelo que o destino parecia ser a escolha ideal para eles.

“Estávamos à procura de civismo, consideração e pouca ou nenhuma violência armada... e Nîmes tem as três coisas”, explica Joanna.

O casal contratou um especialista para os ajudar a encontrar um apartamento para arrendar e iniciou o processo de candidatura a um visto de longa duração. No entanto, as coisas não foram tão simples como tinham imaginado.

Joanna diz que a obtenção de um visto se revelou complicada, tal como o processo de arranjar um voo para França para a sua gata Suzette, o que lhes custou mais 5 mil dólares no total.

Tempo para refletir

Joanna diz que não é fã de comida francesa e tem dificuldade em encontrar bons produtos. Cortesia Joanna McIsaac-Kierklo

No entanto, recorda, ambos convenceram-se de que as coisas seriam mais fáceis de “resolver” quando estivessem em França.

Antes de deixar os Estados Unidos, o casal decidiu manter o seu apartamento a arrendar, onde Joanna vivia há mais de 40 anos, em São Francisco, para o caso de as coisas não correrem como planeado.

“É preciso ter um plano B”, justifica. “E se isto não resultar? Quero dizer, nunca poderíamos comprar de novo na Califórnia, porque é muito caro.”

Em outubro de 2023, Joanna e Ed chegaram a Nîmes e começaram a construir uma nova vida na cidade francesa, que tem uma população de cerca de 137 mil habitantes.

“Nunca pensámos que isto não iria resultar”, admite Joanna. “Pensámos: 'Vamos morrer aqui. Está resolvido.'”

Apesar de terem sido relativamente felizes durante os primeiros meses, Joanna estava sempre a ficar confusa com as regras e regulamentos quando se tratava de coisas aparentemente simples, como abrir uma conta bancária em França.

O facto de ter dificuldade em aprender a língua - Ed aprendeu um pouco de francês desde que estão a viver lá - não ajudou em nada.

“Tenho andado tão ocupada a fazer as malas, a desempacotar, a montar a mobília, etc., que não tenho tido tempo para me concentrar e começar [a aprender francês]”, admite. “Estava sempre na minha lista, mas [eu] não conseguia arranjar tempo.”

E, embora França seja conhecida pela sua famosa culinária, Joanna apercebeu-se rapidamente de que não era uma grande fã da comida do país.

“As pessoas dizem: 'Oh meu Deus, a comida francesa é tão fabulosa'. Sim, se quisermos comer brie, paté, pastelaria e pão francês durante todo o dia”, graceja. “Mas quem é que come assim?”

Joanna diz que estava ansiosa por cozinhar refeições em França, mas que teve dificuldade em encontrar produtos de qualidade para cozinhar.

“Vai-se ao supermercado e os produtos são péssimos”, lamenta. “Pegamos num pedaço de aipo e ele cai. Está tão mole. Tão velho e tão horrível. Quem é que ia comer isto?”, questiona.

Segundo Joanna, o seu entusiasmo por viver em França diminuiu consideravelmente no início deste ano, quando ela e Ed tentaram tratar do transporte do seu carro, que tinham deixado em São Francisco, para França.

“Li tantas coisas que diziam: 'Sim, faça-o' ou 'Não, não o faça. É um pesadelo'”, diz Joanna.

“Depois, 'Sim, tu consegues. Não é um problema. Bem, não seria um problema se os sistemas fossem consistentes e fizessem sentido. Mas não fazem. Podemos obter cinco respostas diferentes para uma simples pergunta”, lamenta.

Esta frustração revelou-se uma espécie de padrão para o casal, que também teve problemas ao tentar encontrar um médico em Nîmes.

“É preciso encontrar um médico de clínica geral que nos aceite como pacientes”, diz Joanna. “Bem, fomos a uns seis médicos. Todos eles disseram: 'Não aceitamos novos pacientes.”

“O quê? 'Onde é que está a lista que diz quais os que aceitam e quais os que não aceitam? Eles não têm isso. Tens de descobrir por ti própria”, afirma Joanna.

Enquanto tentava navegar pela burocracia francesa uma e outra vez, Joanna diz que ficou incrivelmente esgotada. Sentia que estava constantemente a deparar-se com obstáculos.

Dificuldades na vida social

O casal mudou-se para um apartamento em Montpellier em outubro, mas decidiu que os seus dias em França estão contados. Cortesia Joanna McIsaac-Kierklo

“Todos os dias acontecia algo mais devastador do que no dia anterior”, recorda-se. “As coisas são muito difíceis de resolver aqui... Estou demasiado velha para isto.”

Joanna reconhece que os EUA não estão exatamente livres de burocracia. No entanto, diz que tem sido capaz de lidar com isso. “Acho que nos habituamos às nossas regras”, presume.

“Falamos com os franceses e eles encolhem os ombros”, lamenta Joanna. “E dizem: 'Bem, isto é França. É assim que as coisas são.”

Nos Estados Unidos, Joanna, que se descreve a si própria como uma “tagarela”, tinha uma vida social ativa, mas até agora não conseguiu reproduzir isso, ou algo parecido, em França.

Com o passar do tempo, Joanna descobriu que esta falta de socialização estava a ter um enorme impacto em si própria.

Além de falar com as pessoas no supermercado, Joanna diz que, hoje em dia, raramente tem longas conversas com alguém que não seja o seu marido.

Um dia disse ao Ed: “Há três meses que não falo com uma pessoa aqui...” Sinto falta de interação”, lamenta, acrescentando que não quer necessariamente “andar com expatriados”, pois “não foi exatamente por isso que viemos nesta aventura”.

Os habitantes locais têm sido simpáticos e acolhedores, mas Joanna não conseguiu “fazer amizades” como esperava, admitindo que a barreira linguística e cultural tornou as coisas mais complicadas.

“É um osso duro de roer”, compara. “São pessoas muito reservadas. Mas também têm princípios e são morais. São pessoas bem intencionadas. Não há nada de cruel neles. Simplesmente não são extremamente sociais.”

Joanna também descobriu que grande parte dos eventos sociais em Nîmes pareciam girar em torno da alimentação.

“E depois quando quiser beber, tem de beber uma bebida que está no menu que eles fazem”, exemplifica. “Então, se eu quiser um martini, respondem: ‘Oh, não está no menu’.”

Depois de lutarem para se sentirem completamente em casa em Nîmes, Joanna e Ed decidiram mudar-se para Montpellier, uma cidade a cerca de uma hora a sudoeste de Nîmes, perto da costa do Mediterrâneo.

Embora tenham sido inicialmente rejeitados quando tentavam alugar um novo apartamento porque “não tinham apresentado uma declaração de rendimentos francesa”, o casal conseguiu garantir um lugar de que gostava e mudou-se para lá no mês passado.

Joanna e Ed preferem viver em Montpellier, mas concluíram recentemente que França não é, provavelmente, o lugar certo para passarem o resto da vida.

“Adoro França. Acho que é um país incrível, só para não viver aqui”, lamenta Joanna, acrescentando que leu tudo o que conseguiu encontrar sobre “mudar-se para França como expatriada”, mas ainda não se sentia preparada para a realidade da vida lá.

“Gostaria que mais pessoas mostrassem o lado menos agradável de França”, admite. “Porque há um lado não tão agradável e foi isso que aprendemos muito rapidamente.”

Uma decisão difícil

Joanna no apartamento arrendado em São Francisco, onde viveu durante mais de quatro décadas. Cortesia Joanna McIsaac-Kierklo

Apesar de anteriormente estar ansiosa por deixar os EUA, Joanna sente agora desesperadamente a falta da sua antiga vida lá.

“Sinto falta da familiaridade”, admite. “Tenho saudades de saber onde estão as coisas. Tenho saudades do iogurte congelado – porque não têm aqui.”

“Tenho saudades de coisas estúpidas… tenho saudades dos meus amigos, sem dúvida. Não temos família, mas tenho uma grande rede de amigos. Sinto falta de os poder ver e sinto falta do meu apartamento.”

“Acho que tenho saudades da minha vida. Eu tinha uma em São Francisco. E não tenho aqui”, lamenta.

Embora reconheça que os seus sentimentos podem mudar com o tempo, Joanna sublinha que “não tem 30 anos” e não quer “perder mais tempo”.

“É uma decisão muito difícil de tomar”, admite. “Depois de ter sido uma decisão difícil vir para aqui, de repente dizer: ‘Isto não vai funcionar para nós’.”

“Mas não achamos que vá funcionar para nós… Já não temos 40 anos de vida, sabe.”

Embora se considere uma pessoa adaptável, Joanna observa que as outras pessoas podem ter mais facilidade em adaptar-se à vida em França do que ela e Ed.

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