Macron, o jogador

10 jul, 18:44

Não há política sem jogo e a aposta de alto risco não saiu assim tão ao lado para um jogador como Emmanuel Macron. Eis que, depois de engolir os dois partidos que mais governaram a Vª República, o Presidente vê-se agora obrigado a procurá-los para conseguir ele próprio continuar a jogar o resto de um mandato cercado pelos extremos.

Parece que foi ontem o tempo da super-maioria da “República em Marcha”, projecto neo-renascentista tão abrangente quanto indefinido, respaldado por 350 deputados, na promessa intemporal de devolver a voz ao povo, através de referendos ou comissões populares de acompanhamento. Palavra do Presidente. Mas como a política também é conversa - Skármeta avisava que “por trás das palavras não há nada, são fogos de artifício que se desfazem no ar” -, nada disso aconteceu e a super-maioria morreu, vítima de um Presidente que foi ignorando o próprio partido e se entregou às tentações de um sistema quase-absolutista talhado à imagem do homem que o desenhou para poder governar à vontade. Só que Macron não é De Gaulle e esta França não é a de 1958. O bipartidarismo já lá vai.

Domingo que o diga, outra vez. Com a novidade de que os franceses poderão agora estar prestes a aprender uma lição que outros aprenderam nestes últimos anos: vencer eleições, por estes dias, não significa necessariamente governar. Depende da maioria - Portugal e Espanha que o digam.

Que Macron fez cálculos ficou claro na noite eleitoral, razão pela qual não se pronunciou definitivamente sobre os resultados. Como um jogador, lançou cartas nessa noite para agitar o tabuleiro da especulação: como um certo telefonema de felicitações pela eleição a um certo antigo mentor e antigo Presidente da República, o socialista François Hollande. Quererá Macron aliciar o PS para quebrar a Nova Frente Popular à esquerda e aliciar os Republicanos para fechar o corredor à direita? Ironia do destino para o homem que estilhaçou o centrão.

É também uma dúvida para muitos outros telefonemas nas próximas semanas. Os Jogos Olímpicos vêm mesmo a calhar e o tempo é de compromissos de Estado. Não há política sem jogo - e sem muita conversa.

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