A juventude francesa chateia a extrema-direita. E tu?

8 jul, 06:45
Jovens festejam vitória da esquerda sobre a extrema-direita em França (Jeff Pachoud/Getty Images)

ANÁLISE || Eleições em França tiveram a maior afluência em décadas. A barragem republicana deixou a extrema-direita apeada do poder, mas implantada na Assembleia e à coca para as Presidenciais. Influência dos jovens marcou a campanha

Ninguém estava à espera disto, o Libération chama-lhe “a surpresa divina”, o Figaro exalta “um trovão!”, a extrema-direita perde, os defensores da V República celebram mas França acorda esta segunda-feira dividida em três como a bandeira, está radicalizada, desunida, irascível, ainda sem primeiro-ministro e já com um Parlamento rasgado. França é hoje uma República defendida por um poder fendido. França é hoje um país furioso.

Jordan Bardella ficou sem vez, a extrema-direita ficou sem voz e os analistas ficaram sem texto, foi tudo ao contrário do esperado. Mas não foram as sondagens a errar nem o destino a ironizar: foram mesmo os franceses que decidiram decidir. E essa é a primeira esperança da noite: a democracia vive, não é só a extrema-direita a mobilizar nem os demagogos a convocar, também os “outros” se levantaram desta vez. Mas os “outros” são o resto, neste jogo Le Pen versus Resto de França os outros partidos tiveram mais de dois terços dos deputados e a extrema-direita não teve a maioria absoluta almejada, nem a vitória, nem sequer o segundo lugar.

O mesmo editorial do Libération identifica “dois vencedores, a esquerda e a República”, mas quer-nos parecer que houve um terceiro vencedor, os anti-extrema-direita, foi o “inimigo comum” que agregou os eleitores em torno de partidos pouco habituados a serem gregários, a democracia francesa vive para não morrer. É muito melhor que nada. Mas não é água contra fogo, é pólvora contra pólvora.

As últimas eleições vão-no mostrando: a Europa está a votar mais. Mas a Europa está a votar mais por raiva, por raiva na extrema-direita contra o sistema e por raiva contra os raivosos da extrema-direita. E por isso sim, a esquerda ganhou à direita, os que defendem a V República ganharam aos que a atacam, mas estamos cada vez mais longe de os moderados ganharem aos radicais.

“A ameaça agora é a extrema-esquerda de Mélenchon”: não foi Marine Le Pen quem o disse, é o título do editorial do El Mundo. E é, provavelmente, aquilo que Macron pensa. Segundo a tradição, o Presidente deveria indicar Jean-Luc Mélenchon para primeiro-ministro, afinal ele é o líder do partido mais votado da coligação vencedora. Só que não. Sem falar, Macron já falou para dizer que não, nem ele nem os parceiros da frente esquerda querem como primeiro-ministro o fã de Fidel Castro pronto a destruir o mantra das contas públicas. O Presidente francês “foi o principal arquiteto desta barafunda política”, escreve o editorial do Wall Street Journal, “derrotou o partido de Marine Le Pen, mas à custa de dar poder a alguns companheiros antipáticos”. Nova Frente Popular é um belo nome, mas há pouca beleza neste arranjo de última hora entre o França Insubmissa de Mélenchon, socialistas, comunistas e ecologistas.

Olhe bem para este Parlamento (resultados provisórios):

Três grandes blocos. Não são amigos comuns os que se uniram contra o inimigo comum. Como escreveu a correspondente da CNN em Paris, “a decisão de Macron manteve a extrema-direita fora do poder, mas mergulhou a França no caos”. Sim, a extrema-direita teve uma derrota copiosa, bastou ver o ambiente de funeral nas sedes, Marine le Pen estava convencida (e muitos de nós também) que as eleições europeias tinham escancarado as legislativas ao seu delfim 28-anista, numa corrida que na verdade é sua pelas eleições presidenciais de 2027, mas o caminho não é o da vertigem vitoriosa. Se é verdade que a extrema-direita nunca teve tanta força como tem hoje em França, ela não está na escalada imparável que ela própria se predestinava. Daí que le Pen tenha dito que este resultado só adia a sua vitória. Esperemos que não. Mas esperar não basta.

As eleições de 2027 jogam-se desde já. Macron “salvou os móveis” (ou seja, salvou o dia) porque o Reagrupamento Nacional (RN) ficou em terceiro e o seu partido (Ensemble) ficou em segundo, mas a política ficou longe da clarificação que ele propusera, quase impusera. França ganhou tempo – e com ela ganhou a Ucrânia e perdeu a Rússia, Putin concentra agora atenções nos EUA e no amigo-do-seu-amigo Donald Trump. Mas, em França, não há neste momento nenhum candidato da esquerda ou do centro que irrompa como imbatível contra Marine le Pen.

O tempo ora ganho vai em parte ser consumido pela formação de governo. Não há sequer luz à entrada deste túnel, onde Macron e Mélenchon se vão afrontar e se antevê a recomendação de acordos entre a esquerda e o centro, mas pode demorar semanas, meses, ou nem acontecer. “Ao dizer não a um governo de extrema-direita, os franceses rejeitaram a ideia de uma França xenófoba, rancorosa, virada para o interior, onde o Estado de direito teria sido, sem dúvida, progressivamente corroído”, escreve ainda o Libération, mas “a esquerda terá de estar à altura das suas responsabilidades”. E o Presidente à altura de resolver a barafunda. De criar um ambiente de concórdia, pelo menos de acordos, sobretudo de governabilidade.

O RN esteve às portas do poder e o povo francês “disse-lhe claramente não”, escreve o Figaro, “Este partido pode ter um terço do eleitorado, os seus temas podem ter ganho terreno na opinião pública, mas continua a alimentar o medo e a desconfiança de uma maioria dos nossos concidadãos.”

Tudo isto aconteceu porque a abstenção teve o menor registo em décadas em França. Ainda não há dados aprofundados, e qualquer comparação com Portugal é perigosa, mas se aqui os jovens desataram a votar sobretudo à direita e muitos para que o Chega tivesse 50 deputados na Assembleia da República, em França as impressões são de que os jovens saíram uns a favor e outros contra o partido de Marine Le Pen. Em muitos haverá mais fúria que ânimo, mais vontade de partir do que construir, mas muitos enfants de la Patrie também não cederam à vertigem sedutora contra o sistema.    

Repetiu-se muito nestas eleições, "La jeunesse emmerde le RN", a juventude chateia, irrita, atormenta, trama a extrema-direita. É um facto, a extrema-direita cresceu mas perdeu. E todos os que votam mostram que a democracia é uma escolha coletiva de indivíduos que não entregam o seu destino nem se entregam a fatalidades. N'est-ce pas?

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