Uma das grandes incógnitas é se o Reagrupamento Nacional (RN) de extrema-direita vai conseguir conquistar a sua primeira grande cidade; a maior candidata é Marselha, a segunda maior autarquia do país, onde o candidato do RN ficou a menos de dois pontos percentuais de distância do atual autarca socialista na primeira volta
Os eleitores franceses voltam este domingo às urnas para a segunda e última volta de umas autárquicas de redobrada importância, que vão não só definir quem vai governar as maiores cidades de França até 2032 como também tirar a temperatura ao eleitorado a um ano das eleições presidenciais, nas quais Emmanuel Macron, o atual chefe de Estado, não pode ser recandidato ao cargo.
Apesar da sua natureza diferente de eleições nacionais, as autárquicas prometem servir de indicador sobre quais os partidos em que os eleitores mais estão dispostos a apostar e também sobre que acordos e coligações é que esses mesmos partidos estão dispostos a fazer para ocupar o poder.
A maioria dos cerca de 35 mil municípios de França elegeu os seus líderes locais no passado fim de semana, na primeira ronda das eleições autárquicas, que têm lugar a cada seis anos no país. Contudo, só este domingo é que vão ser decididas as corridas nos distritos mais disputados, incluindo nas maiores cidades do país.
25 anos depois, PS à beira da derrota em Paris?
Entre as batalhas eleitorais que mais atenções estão a atrair conta-se, obviamente, Paris, que está sob governação do Partido Socialista (PS, centro-esquerda) há 25 anos. Após um mandato muito popular, a autarca socialista Anne Hidalgo anunciou a entrada na reforma, abrindo espaço a uma acirrada corrida pelo poder na capital – onde, na primeira volta, a ex-ministra da Cultura Rachida Dati, da direita, ficou em segundo lugar (25,46%), atrás do socialista Emmanuel Grégoire (37,98%).
Os candidatos da extrema-esquerda, do centro e da extrema-direita conseguiram todos mais de 10% de votos há uma semana, o que lhes garantiu entrada direta no segundo turno – mas, desde então, a candidata da extrema-direita Sarah Knafo desistiu e o centrista Pierre-Yves Bournazel uniu a sua lista à de Dati, contribuindo em potência para galvanizar os eleitores da direita, dos mais extremistas aos mais moderados, contra os socialistas.
A ex-ministra da Cultura conta ainda com o apoio de Jordan Bardella, líder do Reagrupamento Nacional (RN), de extrema-direita, e putativo candidato às presidenciais do próximo ano – que disse apoiar Dati contra a “ameaça existencial” representada pelo centro-esquerda.
À esquerda, não há qualquer tipo de aliança semelhante, com Grégoire a recusar-se a integrar uma coligação eleitoral com Sophia Chikirou, a candidata do França Insubmissa (LFI, extrema-esquerda). Este é, aliás, o cenário geral em França, onde a esquerda tradicional tem recusado formar parcerias com o LFI de Jean-Luc Mélenchon.
Se os eleitores que votaram em Knafo ou Bournazel na primeira volta derem o seu voto a Dati, a direita deverá conseguir ultrapassar facilmente a vantagem dos socialistas e comprovará o potencial de uma aliança mais ampla à direita, com possíveis repercussões na futura campanha às presidenciais.
Extrema-direita de olho em Marselha e Nice
A segunda maior cidade de França poderá tornar-se a prova de fogo para o RN de Bardella e Le Pen, cujo candidato, Stephane Ravier, alcançou o segundo lugar (35,02%) na primeira volta das autárquicas. Surge separado de Benoît Payan, o atual autarca socialista, por menos de dois pontos percentuais (36,7%). Conquistar Marselha marcaria um ponto de viragem para a extrema-direita, que até hoje apenas governou cidades pequenas e médias.
Após a primeira volta, como aconteceu em Paris, Payan rejeitou criar uma frente unida com o LFI, que ficou em quarto lugar, para bloquear o RN. Face a isto, o candidato da extrema-esquerda, Sébastien Delogu, decidiu abandonar a corrida sob o argumento de que o essencial é travar a ascensão da extrema-direita, criticando a “irresponsabilidade e sectarismo” do atual autarca por rejeitar uma coligação ampla de esquerda com esse mesmo objetivo.
Martine Vassal, candidata do partido de direita Os Republicanos (LR), que ficou em terceiro lugar, decidiu manter-se na corrida, apesar dos pedidos do RN para que desistisse.
O RN não está de olho apenas em Marselha, o seu potencial grande prémio. Em Nice, a quinta maior cidade de França, o partido tem o potencial de conquistar a autarquia em parceria com Eric Ciotti, conservador que liderou Os Republicanos até à sua expulsão do partido em 2024, após ter proposto uma aliança com a extrema-direita para as legislativas antecipadas desse ano.
Após a expulsão, Ciotti formou o seu próprio partido, a UDR, que se candidata agora à autarquia de Nice em parceria com o RN – uma coligação que, na primeira volta de há uma semana, conseguiu posicionar-se à frente do atual autarca de centro-direita, Christian Estrosi, com mais de 12 pontos percentuais de avanço.
Essa primeira vitória deve-se também, pelo menos em parte, ao facto de o atual líder do LR, Bruno Retailleau, se ter recusado a apoiar Estrosi face ao que considerou ser uma campanha “prejudicial” para o centrismo político. A posição de Retailleau está a ser vista como um potencial preparativo de uma futura aliança com o RN às presidenciais de 2027, o que poria fim ao histórico cordão sanitário dos principais partidos franceses à extrema-direita.
Tal como em Nice, o RN também mantém vantagem em Toulon, cidade do sul do país onde a extrema-direita já foi eleita no passado, concretamente em 1995. Ali, o RN concorre contra duas outras listas da direita dita moderada, que após a primeira volta decidiram fundir-se para tentar bloquear a vitória da extrema-direita neste segundo turno.
Alianças improváveis e algumas surpresas
Historicamente, a liderança do RN em corridas eleitorais mobiliza eleitores de várias fações que se opõem à extrema-direita, incluindo muitos que não votam na primeira volta. Resta saber se esse efeito será novamente observado este domingo, em Toulon como noutros distritos e cidades onde o RN detém uma vantagem mais ou menos marginal, como é o caso de Nîmes.
E se a extrema-direita parece estar em rota para algumas vitórias importantes nestas autárquicas, a extrema-esquerda parece estar na posição oposta, com uma maioria do eleitorado a olhar para o partido como a força política a ser detida a qualquer custo – como já o demonstrava uma sondagem de final de fevereiro, em que 63% dos inquiridos diziam que estavam empenhados em impedir que o LFI chegasse ao poder - por oposição a 45% dos entrevistados para o mesmo inquérito, que disseram o mesmo relativamente ao RN de Bardella e Le Pen.
Foi neste contexto que se assistiu ao surgimento de algumas alianças improváveis para estas autárquicas, por exemplo, em Estrasburgo, onde a candidata do PS, Catherine Trautmann, se uniu ao partido centrista de Emmanuel Macron para enfrentar uma coligação entre o LFI e Os Verdes, com a decisão a merecer-lhe duras críticas da liderança do próprio partido.
Em Lille, a aliança foi diferente, mas o objetivo semelhante, com o PS a unir-se aos Verdes para tentar bloquear o candidato da extrema-esquerda, que há uma semana conquistou um segundo lugar bem próximo do atual autarca socialista, Arnaud Deslandes.
Apesar destas coligações, há autarquias onde, face aos resultados da primeira volta, a esquerda tradicional decidiu formar alianças com o LFI para reforçar as hipóteses de vitória nesta segunda volta, nomeadamente em Avignon, Brest e Nantes.
Em Lyon, onde um estudante de extrema-direita foi morto em fevereiro numa rixa com jovens antifascistas, o LFI sentiu o impacto direto desse caso nas urnas, conseguindo ainda assim qualificar-se para o segundo turno das autárquicas, atrás d'Os Verdes, no poder, e também do centro-direita. Face ao resultado, o partido de extrema-esquerda decidiu aliar-se ao centro-esquerda, no que os analistas dizem que pode vir a alienar alguns eleitores moderados este domingo.
Em rota oposta, o LFI conseguiu ficar à frente da aliança entre o PS e Os Verdes em Toulouse, a quarta maior cidade de França, tornando-se o principal adversário do centro-direita na última volta das autárquicas. Em Roubaix, no norte do país, a extrema-esquerda também esteve perto de vencer logo à primeira volta, avançando para a segunda sem necessidade de formar alianças para competir com o centro-direita, após a lista de centro-esquerda ter ficado num distante terceiro lugar.
