A murmuração de estorninhos criou a forma de um pássaro em Lough Ennell, Irlanda. A fotografia tornou-se um autêntico sucesso
A confissão é do próprio: James Crombie sabia “muito, muito pouco” sobre estorninhos antes da chegada da pandemia de covid-19.
Para este fotógrafo de desporto, reconhecido e premiado, o único encontro que tinha tido com estas aves de cauda curta tinha acontecido quando uma delas caiu na lareira da sua casa, depois de ter tentado fazer um ninho na chaminé, em Midlands, na Irlanda.
“Sempre estive demasiado ocupado com o desporto para pensar na vida selvagem”, conta Crombie numa entrevista por Zoom. Crombie fez a cobertura de três Jogos Olímpicos e costuma fotografar partidas de râguebi e de “hurling”, um jogo nacional irlandês.
Contudo, com a pandemia a forçar a paragem de grandes eventos desportivos, este fotógrafo deu por si sem ter nada para fazer.
Foi então que um amigo, recentemente enlutado, lhe sugeriu visitar um lago nas proximidades, para ver bandos de estorninhos em voo, um fenómeno conhecido como murmuração. Crombie levou a câmara – uma que, por acaso, se adaptava na perfeição a este trabalho.
“Muda tudo em meio segundo”, conta, para traçar as semelhanças entre a fotografia de desporto e de natureza.
“Ambas as fotografias são tiradas a uma velocidade relativamente elevada. E ambas com um equipamento capaz de responder a isso”.
Naquela primeira noite, no final de 2020, viram cerca de uma centena de estorninhos a levantar voo para se abrigarem ao anoitecer.
A dupla regressou ao lago - Lough Ennell, no condado irlandês de Westmeath – durante várias noites de seguida, escolhendo pontos de observação diferentes para ver as aves.
Esta rotina tornou-se uma forma de terapia para o amigo enlutado e uma fonte de fascínio para Crombie.
“Começou a tornar-se um bocadinho uma obsessão”, lembra o fotógrafo, que publicou recentemente um livro com as suas fotografias de estorninhos.
“Aprendíamos um bocadinho mais todas as noites que lá íamos. Percebemos onde tínhamos de estar e onde é que os estorninhos iam estar. E a partir daí esse fascínio foi-se tornando maior”.
“Tenho aqui algo especial”
Os cientistas não sabem dizer, com exatidão, porque razão os estorninhos formam murmurações, embora se pense que ofereçam uma proteção coletiva contra os predadores, como os falcões.
O fenómeno ter várias durações: apenas alguns segundos ou mesmo 45 minutos. Às vezes implica a presença de milhares de aves.
Na Irlanda, o número de estorninhos aumenta durante o inverno, com a chegada de bandos migratórios vindos de zonas de reprodução na Europa Ocidental e na Escandinávia.
Crombie costumava ver as aves a formar padrões e formas abstratas, com densidades variáveis, como se fossem subtis graduações de pinceladas.
O fotógrafo ficou convencido de que, com muita paciência, conseguiria capturar uma forma reconhecível.
Mais de um mês depois, capturou uma imagem perfeitamente cronometrada, em que a murmuração se assemelhava à copa de uma árvore, com os seus ramos nus na margem do lado.
“Pensei que esta fotografia era a tal”, recorda.
No entanto, os dois amigos continuaram a regressar ao local.
Então, por volta da 50ª noite, aconteceu algo ainda mais marcante.
Um vídeo, tirado pelo amigo de Crombie, mostra o preciso momento em que milhares de estorninhos aparecem, de um modo fugaz, como se fossem um só, com uma forma curvada e alada, refletida na água em baixo.
Ouve-se uma série de cliques do obturador da câmara antes de Crombie exclamar: “Parecia um pássaro!”
O fotógrafo capturou uma sequência rápida de mais de 60 imagens, sete das quais mostravam a enorme formação de pássaros. Contudo, houve uma que se destacou das demais.
“Eu sabia, assim que carreguei no botão, que tinha a imagem”, conta Crombie, recordando como voltou ao carro e guardou a fotografia em vários locais, por uma questão de segurança.
“Contactei logo uma ou dias pessoas e disse: ‘Acho que tenho aqui algo bastante especial’”.
A imagem rapidamente se tornou viral online, aparecendo em revistas e mesmo na primeira página de um jornal nacional, o Irish Times.
Desde então, segundo o autor, apareceu no relatório anual de um banco, no mural de um café na Austrália e nas portas de persiana de um edifício norueguês.
O fotógrafo confessa que a imagem teve um impacto enorme na sua carreira e no seu perfil. Mas tratou-se apenas de um começo para Crombie.
O que começou como uma distração para o amigo – que, quando as restrições da covid-19 foram levantadas, “regressou ao mundo real”, levando Crombie a desenvolver uma amizade com um agricultor local, que se tornou a sua companhia nas visitas ao lago – acabou por transformar-se num “vício” que consumiu quatro anos da vida do fotógrafo e o levou a produzir cerca de meio milhão de fotografias.
Cerca de 200 dessas fotografias surgem no seu livro, intitulado “Murmurações”, que combina as formas hipnotizantes com grandes planos e fotografias cénicas de Lough Ennell.
E embora já tenha regressado há muito à fotografia de desportos profissionais, Crombie espera um dia conseguir fotografar a vida selvagem a tempo inteiro.
“Continuo a ir ao lago, embora tenha prometido à minha mulher que, depois de publicar o livro, tinha o projeto terminado”, admite. Crombie justifica que este passatempo é mais produtivo do que “ir ao bar ou jogar golfe”.
“Há maneiras bem piores de passar duas horas durante a noite”.
“Murmurações” foi publicado pela editora The Lilliput Press.