Nuno Pinto, o português da Fórmula 1: «Não é como parece na Netflix»

19 mar, 09:38
Nuno Pinto (arquivo pessoal)

Apaixonado por automóveis desde que se lembra, Nuno Pinto não descansou até ter um kart e daí até à carreira de piloto foi um instante. Depois disso, foi convidado para ser treinador de pilotos, uma profissão que desempenha até hoje e que lhe permitiu trabalhar com 13 dos 20 pilotos do atual 'grid' da Fórmula 1, entre os quais Lance Stroll, piloto da Aston Martin que acompanha há vários anos

Por trás dos 20 pilotos que fim de semana sim, fim de semana não, lutam ao centímetro pela posição em pista no Mundial de Fórmula 1, há milhares de pessoas, quer nas boxes quer nas respetivas fábricas, a trabalharem diariamente para que não falte nenhum detalhe nessa luta titânica nos asfaltos por esse mundo fora.

Uma dessas pessoas é Nuno Pinto, o português que é o treinador de Lance Stroll, o canadiano de 23 anos que conduz o monolugar da Aston Martin. Depois de uma carreira como piloto, Nuno Pinto tornou-se driver coach e foi subindo patamar por patamar até chegar à principal categoria do desporto automóvel, e em entrevista ao Maisfutebol, explica-nos como é que conseguiu o bilhete de entrada para o mundo restrito do Grande Circo.

A segunda parte da conversa, em que Nuno Pinto faz a antevisão à temporada de 2022.

Mas comecemos pelo início, até porque a paixão por motores não começou na Fórmula 1. «Tenho esta paixão desde sempre, desde que me lembro que gosto de automóveis. Os meus pais diziam que eu quando era pequenino perguntava as marcas dos carros e na estrada sabia os modelos todos e os carros», começa por contar, antes de recordar um momento decisivo, em 1984, que o deixou «maluco».

«O meu pai trabalhava nos Restauradores e em 1984 a Lancia fez uma apresentação no Largo de Camões. Ele levou-me lá e a partir desse dia, a ver os pilotos, o Lancia 037 – com a decoração da Martini – e os carros todos ali deixou-me completamente maluco e apaixonado por corridas», acrescentou.

O Lancia 037 (Getty Images)

O Rali de Portugal começou a ser uma tradição na vida de Nuno Pinto, juntamente com o pai, até ao dia em que experimentou andar de kart em Évora. «A partir daí não quis outra coisa. Fiz todos os possíveis para conseguir ter um kart, primeiro, e depois competir. Óbvio que nesse aspeto contei com muita ajuda e apoio dos meus pais», confessa, sem esconder que a grande paixão dentro do automobilismo são os ralis: «Aos 15 anos, se me perguntasses se eu queria chegar à Fórmula 1 ou ao Mundial de Ralis, a minha escolha era o Mundial de Ralis. Quando não dava para continuar a carreira nos fórmulas, mudei para os ralis e não foi nada que me deixasse chateado, muito pelo contrário. A minha paixão de miúdo era essa. E felizmente tenho tido a oportunidade, depois de ter estado muitos anos parado, de fazer alguns ralis ultimamente. Não tantos como queria, mas é sempre bom fazer pelo menos um por ano. Deixa-me muito satisfeito.»

Nuno Pinto (arquivo pessoal)

A transição de piloto para driver coach

2003 é o ano decisivo. Depois de dois anos a correr na Fórmula BMW Ibérica, que culminaram com a conquista do título em 2002, Nuno Pinto foi convidado a assumir o papel de mentor da competição, que até então pertencia a Pedro Matos Chaves, português que chegou a pilotar na Fórmula 1 – «Eu gostava muito desse trabalho que ele fazia, achei sempre que era uma mais-valia. Aprendi muito com ele e com o resto dos elementos da equipa, ajudavam-nos muito», revela.

«Em 2003, depois de ganhar a competição, não podia continuar como piloto e a organização perguntou-me se queria continuar a trabalhar com eles depois de ganhar o campeonato, como treinador. E foi aí que começou, e desde 2003 até hoje nunca parou. Foi giro porque fui conhecendo pilotos naquela que era a primeira categoria quando se sai dos karts, eles gostavam do trabalho que fazia com eles e quando saíam daquela categoria convidavam-me para os acompanhar na categoria seguinte. E foi assim.»

 

Nuno Pinto esteve na Fórmula BMW Ibérica até 2008, altura em que transitou para a Fórmula BMW Europeia e conheceu aquele que provavelmente será o piloto mais importante da sua progressão.

«O Daniel Juncadella, um piloto espanhol que chegou a ser piloto de testes de Fórmula 1 e da DTM. Fiz toda a progressão com ele. Ao mesmo tempo, não deixei de trabalhar na Fórmula 3. Porque em 2009, juntamente com o Dani, chegámos à Prema, uma equipa que eu já conhecia dos meus tempos de piloto, e durante praticamente dez anos trabalhei com a Prema na Fórmula 3. Foi aí que fui conhecendo vários pilotos com quem trabalhei na altura e que estão agora na Fórmula 1. Inclusivamente o Lance, foi assim. Ele chegou à Prema para começar a fazer testes quando ainda estava nos karts, em 2013, e de 2013 até hoje, em quase todas as corridas, salvo uma ou outra, estive sempre com ele», lembra.

Dani Juncadella e Nuno Pinto (instagram de Juncadella)

O trabalho com Lance Stroll, antes e agora

O trabalho com Lance Stroll, esclarece Nuno Pinto, é diferente agora do que era em 2013. Experiências diferentes, situações diferentes.

«O trabalho que faço com o Lance quando ele está a entrar numa sexta temporada de Fórmula 1 é muito diferente do que eu fazia quando ele se sentou pela primeira vez num Fórmula 4. Aí, sim, eu ensinava-o a guiar e alguns truques, como aquecer os pneus, o que fazer em termos de setup, juntamente com o engenheiro, para resolver os problemas que ele tinha, as trajetórias que tinha de usar... agora na Fórmula 1 já não estamos nesse nível, como é óbvio», explica.

Nuno Pinto festeja o campeonato de Fórmula 3 ganho por Lance Stroll em 2016 (arquivo pessoal)

«Agora sirvo muito mais como um apoio e uma pessoa de confiança que ele tem que entende como é que é conduzir, apesar de eu nunca ter andado num Fórmula 1 – aí é ele que me ensina primeiro o que é que é preciso para guiar um Fórmula 1 e depois trocamos opiniões sobre o que é que é preciso mudar ou não. Na Fórmula 1 ele tem uma equipa muito grande de engenheiros e consequentemente muita informação para ajudar no seu trabalho. Mas continuo a servir como o apoio dele, um conselheiro e uma pessoa em quem ele pode debater as ideias que tem e falar sobre as sensações que tem ao volante», refere.

E com tanta informação que há hoje em dia na Fórmula 1, não está o trabalho do treinador reduzido?

«Sim, não há dúvida nenhuma. Eu continuo a dizer, a categoria na qual sempre gostei mais de trabalhar foi a Fórmula 3. O impacto era muito maior, os carros eram iguais para todos e depois eram os pequenos detalhes que faziam verdadeiramente a diferença para se ganhar. O maior exemplo disso foram os dois primeiros anos em que estivemos na Williams, que eram os primeiros anos de Fórmula 1 e aí sim o piloto ainda podia melhorar em aspetos de condução, trajetória e utilização do monolugar em pista. Às vezes ainda perdíamos tempo – entre aspas, nunca é perdido – a melhorar uma curva, uma trajetóriazinha que lhe ia dar um ou dois décimos de segundo quando estávamos a três segundos da frente, e acabava por ser um bocadinho desgastante estar ali a dar-lhe na cabeça para ele melhorar detalhes, quando o carro nunca ia chegar nem sequer à equipa da frente.»

Por isso, e perante Stroll, «um piloto que se habituou a ganhar em todas as categorias por onde passou», o trabalho do treinador foi também muito mental. «É aí que se calhar o teu papel como treinador e conselheiro tem de mudar, tem de ser completamente diferente, pôr tudo em perspetiva e dizer: ‘Isto faz parte da aprendizagem, estares aqui a levar na cabeça vai fazer-te melhor daqui a quatro ou cinco anos’. E passou muito por aí, o segundo ano em que estivemos na Fórmula 1 passou muito mais por esse lado do que ser um driver coach como tinha sido até aí», reforça.

Ainda assim, Nuno Pinto não abdica de um trabalho pormenorizado no terreno, onde o comportamento dos carros não mentem: «Continuo sempre a ir à pista nas sessões de treinos livres ver o que se está a passar e ele também me pede algumas vezes para ir a determinada curva, não só para ver o que ele está a fazer, mas também para saber o que os outros pilotos estão a fazer, como se comportam os outros monolugares, para ter mais uma opinião externa em relação aos carros, se há maneira de chegar ao nível dos outros carros. O piloto de Fórmula 1 tem muita informação do que se passa no seu carro, na sua equipa e do companheiro, mas dos outros não tem assim tanta.»

«Fora da pista é uma relação de cumplicidade, amizade, fazemos alguns desportos juntos. Às vezes sai-se do circuito e às vezes o que é preciso é ir jantar e falar de outra coisa completamente diferente de corridas. Falar da vida, de outras coisas que gostamos de fazer, para descontrair um pouco. Passa por aí», revela ainda sobre a relação com Lance Stroll, que faz questão de solicitar sempre ao treinador português um resumo das corridas antes de falar com a imprensa.

Lance, sim, mas também Max e Ocon

A dada altura da conversa, o Maisfutebol questiona Nuno Pinto sobre o número de pilotos do atual grid da Fórmula 1 que trabalharam com o português nas categorias de formação. Mas a pergunta devia ter sido feita ao contrário: quem foram os pilotos que não passaram pelas mãos do treinador luso?

Dos 20 que compõem a grelha da temporada de 2022 do Mundial de Fórmula 1, 13 trabalharam, brevemente ou a longo prazo, com o português – Charles Leclerc, Carlos Sainz, George Russell, Lando Norris, Alex Albon, Mick Schumacher, Valtteri Bottas, Guanyu Zhou, Esteban Ocon, Max Verstappen, Nicholas Latifi e Pierre Gasly, além de Lance Stroll, claro.

Nuno Pinto com Mick Schumacher e Sean Gelael

Destes, Nuno Pinto destaca dois: Max Verstappen, «que aproveitou a primeira oportunidade que teve para ser campeão do Mundo», e o francês Esteban Ocon, piloto da Alpine.

«Esses dois foram os pilotos que mais me impressionaram desde o primeiro momento. Não são daqueles que vais aprendendo a gostar e vais descobrindo o talento deles. Não, aquilo parece especial logo nas primeiras voltas em que os vês. Já tinha dito várias vezes que achava que o Max tinha potencial de campeão do mundo, felizmente não me enganei, já foi. Era daqueles que não enganava», frisa.

«Há muitos que achas que podem ser e nunca chegam a ser por diversas razões, como o caso do Ocon. Eu acho que o Ocon tem o mesmo nível de talento do Max, em termos de técnica e condução, e se calhar nunca vai ser campeão do mundo se não tiver um carro competitivo. Acho que tem capacidade para isso. Mas olhando para outros, acho que um Leclerc, um Lance, um Lando, ou até um Albon, se calhar todos têm velocidade e técnica para serem campeões do mundo. Mas normalmente só há duas equipas que podem lutar pelo título, e se nunca estiveres ao volante de um desses carros, nunca chegas a ser», lembra.

A vida no Paddock, muito diferente da Netflix

Em 2017, Lance Stroll chegava à Fórmula 1, para correr pela Williams. A vida de Nuno Pinto no ‘Grande Circo’ também começava aí, e à entrada para a sexta época na categoria, o português assume algum cansaço com a vida atribulada e exigente do Paddock, e pelo menos uma pausa pode estar para breve.

«A paixão ainda existe, é a paixão pelas corridas, essa não desaparece. Eu vou ver com a mesma paixão uma corrida de karts ou de Fórmula 1, ou o rali de um regional. Isso é indiferente. Mas eu já em 2019 tive de fazer uma pausa, não fiz todas as corridas, porque depois de seis anos super intensos na preparação do Lance até chegar à Fórmula 1, precisei dessa pausa. E agora com o calendário a aumentar desta maneira muito provavelmente poderá acontecer a mesma coisa a curto prazo», admite.

«Somos uns privilegiados, porque somos, ao trabalhar ao nível máximo do desporto, é especial. Mas com o calendário a aumentar desta maneira, o estilo de vida é difícil de aguentar. É muito exigente em termos físicos e mentais. Para fazeres este tipo de trabalho perdes muitas outras coisas e oportunidades da tua vida normal. É duro, não é um mar de rosas nem o glamour que se vê ou que passa na série da Netflix [Drive To Survive]. É muito diferente disso, mas também ao mesmo tempo é um desafio grande e aprende-se muito»

Nuno Pinto garante que não é mais feliz agora do que era quando estava na Fórmula 3 ou na Fórmula 4, e tudo está relacionado com uma palavra: ganhar.

«A minha perspetiva é: eu não sou mais feliz por estar na Fórmula 1 do que era quando estava na Fórmula 4 ou na Fórmula 3, até pelo contrário. Sou muito competitivo, e o que eu mais gostava naqueles anos das categorias de formação era lutar pelas vitórias e trabalhar com o objetivo de bater a concorrência e ganhar o campeonato. E isso também pode ser um fator na Fórmula 1 que me possa fazer abandonar ou deixar de trabalhar, se vir que não há possibilidade de ganhar a curto ou médio prazo. Essa talvez seja a parte mais desgastante, é quando fazes isto tudo e não tens vitórias. Felizmente o 2020 deu-nos um boost, porque vimos que com um carro certo a equipa e o piloto podem lutar por bons resultados. Para continuar a fazer isto tenho de ter esse combustível», afirma.

Para já esse combustível ainda não se esgotou, e Nuno Pinto continuará este ano a ser um dos representantes de Portugal no Paddock de Fórmula 1 – a par por exemplo do novo diretor de corridas, Eduardo Freitas –, que este fim de semana regressa à azáfama habitual, no circuito de Sakhir, anfitrião do Grande Prémio do Bahrain, o primeiro da temporada de 2022.

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