Cientistas descobrem esquema de assassínio em formigueiro que ajuda rainha parasita a chegar ao poder

CNN , Mindy Weisberger
6 dez 2025, 16:00
Cientistas descobrem esquema de assassinato em formigueiro que ajuda rainha parasita a chegar ao poder. (Imagem: Yuji Tanaka/Current Biology/Takasuka et al.) 

Cientistas descobriram que certas formigas conseguem manipular as próprias operárias para matarem a sua mãe biológica e abrirem caminho a uma rainha parasita

Cientistas dizem ter desvendado pela primeira vez como uma formiga parasita usa guerra química para tomar conta do ninho de outra espécie, levando as operárias a cometer um improvável assassinato. 

O plano mortal desenrola-se como um drama de Shakespeare. Num formigueiro, a rainha agoniza sob o ataque das próprias filhas. Enquanto isso, a verdadeira inimiga - uma rainha invasora de outra espécie de formigas - espera ao lado. O plano é simples: infiltrar-se no ninho e usar armas químicas produzidas no próprio corpo para enganar as operárias, fazendo-as confundir a sua legítima soberana com uma impostora. 

Em poucas horas, a rainha do ninho cairá. Quando a antiga matriarca morrer, a invasora assumirá o papel de nova líder da colónia. 

O matricídio num formigueiro não é inédito - acontece tipicamente quando a colónia produz várias rainhas ou quando uma rainha solitária chega ao fim da sua fertilidade. Mas este cenário específico, em que uma rainha estrangeira transforma as operárias em assassinas por procuração, nunca tinha sido descrito em detalhe, segundo relatam os investigadores na revista Current Biology. 

Na verdade, esta estratégia ainda não foi documentada em nenhuma outra espécie animal, afirma o autor sénior do estudo, Keizo Takasuka, professor assistente no departamento de biologia da Universidade de Kyushu, no Japão. “O incentivo às filhas para matarem a própria mãe biológica nunca tinha sido observado na biologia antes deste trabalho”, conta Keizo Takasuka à CNN internacional. 

Os investigadores observaram este comportamento em formigas do género Lasius, documentando invasões e manipulação de operárias por rainhas das espécies L. orientalis e L. umbratus. “Estudos anteriores relataram que, depois de uma nova rainha de L. umbratus invadir uma colónia hospedeira de L. niger, as operárias matavam a sua própria rainha”, explica o mesmo especialista. “Mas o mecanismo permanecia totalmente desconhecido até ao nosso estudo”. 

O cheiro de uma formiga operária 

As formigas comunicam através do odor, que lhes permite distinguir entre membros do ninho e inimigos.  

Quando investigadores observaram anteriormente rainhas parasitas perto dos trilhos de forrageamento de uma colónia, viram que o parasita apanhava uma operária e esfregava-a no corpo, disfarçando o próprio cheiro e permitindo-lhe entrar no ninho sem ser detetada. 

No novo estudo, os coautores Taku Shimada e Yuji Tanaka - ambos cientistas cidadãos em Tóquio - criaram cada um uma colónia de formigas e introduziram rainhas parasitas. Taku Shimada observou uma rainha de L. orientalis numa colónia de L. flavus, enquanto Yuji Tanaka registou uma rainha de L. umbratus a invadir uma colónia de L. japonicus. 

Em ambas as experiências, os cientistas começaram por coabitar a rainha invasora com operárias hospedeiras e casulos, “para que ela adquirisse o odor da colónia”, esclarece Keizo Takasuka. “Isto permitiu-lhe ser reconhecida como membro do ninho e evitar uma retaliação à entrada".

Só depois disso libertaram a rainha no seio da colónia. 

As duas rainhas parasitas seguiram um plano de ataque semelhante. Depois de disfarçarem o cheiro, entraram nas zonas de alimentação das colónias. A maioria das operárias ignorou a intrusa. Algumas chegaram mesmo a alimentá-la boca a boca. Mas as rainhas invasoras não estavam ali para jantar - tinham um assassinato para pôr em marcha. 

Depois de localizar a rainha residente, a invasora pulverizou-a com um fluido abdominal com cheiro a ácido fórmico. O odor deixou as operárias agitadas - algumas voltaram-se de imediato contra a rainha e começaram a atacá-la. Seguiram-se vários borrifos, e os ataques tornaram-se cada vez mais brutais. 

A rainha invasora Lasius umbratus (à esquerda) a lançar o primeiro jato de fluido abdominal contra a rainha hospedeira L. japonicus. (Imagem: Yuji Tanaka / Current Biology / Takasuka et al.) 

“As operárias hospedeiras acabaram por mutilar a verdadeira mãe ao fim de quatro dias”, relatam os cientistas. 

Tudo em família 

A morte da rainha legítima foi o sinal para a invasora começar a produzir centenas de ovos, atendidos pelas suas recém-adotadas “filhas”. Com o tempo, as suas descendentes biológicas passariam a contar-se às milhares, dominando a colónia até que já não restasse qualquer indivíduo da espécie original. 

“É refrescante ver um estudo observacional tão rigoroso a descobrir algo interessante que nós - ‘nós’, enquanto investigadores de formigas - suspeitávamos, mas nunca tínhamos confirmado”, diz Jessica Purcell, professora no departamento de entomologia da Universidade da Califórnia, em Riverside. “Fiquei verdadeiramente impressionada com esta descoberta, em especial com o uso de um composto químico para desencadear esse comportamento nas operárias”, acrescenta. 

Insetos sociais como as formigas recolhem e armazenam recursos para serem partilhados pela colónia, o que as torna um alvo apetecível para parasitas sociais - espécies que procuram ninhos bem abastecidos para explorar. Algumas espécies de formigas raptam crias de outras colónias e escravizam-nas. Outras, como L. orientalis e L. umbratus, instalam-se no ninho, eliminam a rainha existente e ocupam o seu lugar. 

“Há uma diversidade impressionante”, relata Jessica Purcell à CNN internacional. “O que não sabíamos bem, antes deste estudo, era de que várias formas as rainhas parasitas podiam assassinar a rainha hospedeira. Há relatos de casos em que a rainha infiltrada vai diretamente degolar a rainha existente. Mas é espantoso que consigam usar manipulação química para levar as operárias a fazê-lo”. 

Rainha hospedeira L. flavus morta pelas suas verdadeiras filhas, com a cintura cortada. (Imagem: Yuji Tanaka/Current Biology/Takasuka et al.) 

A violência dentro da família surge frequentemente em contos e mitos, com adultos cruéis - normalmente pais desesperados ou madrastas ciumentas - a conspirarem para ferir ou matar crianças. Rapunzel é trancada numa torre; Branca de Neve é perseguida e depois envenenada por uma maçã; Hansel e Gretel são abandonados na floresta e capturados por uma bruxa, que os aprisiona e engorda Hansel para o comer. 

Mas, apesar de estes relatos estarem cheios de violência, o assassinato de uma mãe no folclore - e, sobretudo, crianças levadas a matar a própria mãe - é praticamente inexistente, explica Maria Tatar, professora emérita de folclore e mitologia em Harvard, que não participou no estudo. Nesse sentido, observa Keizo Takasuka, a história sombria destas rainhas de formiga invasoras e manipuladoras destaca-se ainda mais. “Por vezes, os fenómenos na natureza vão mais longe do que aquilo que imaginamos na ficção”, remata. 

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