“Estás mais magra, uau!” Porque teimamos em comentar o corpo dos outros até mesmo quando não nos pedem opinião?

1 out, 19:00
Criticar (Pexels)

Comentar a forma física dos outros, mesmo de forma positiva, pode ter um efeito contrário ao esperado

O cenário é quase sempre o mesmo: encontra uma pessoa que já não via há algum tempo e dos primeiros comentários que faz é sobre a sua aparência física. “Estás ótimo, pareces mais novo”, “Estás mais magra, uau!”, “Foste mãe há pouco? Nem parece, estás em ótima forma”, “E essa barriguinha de férias? Ganhaste algum peso desde a última vez que te vi”, “Bem, estás com um ar super abatido”.

Comentar o corpo e a aparência dos outros não é uma novidade, nem tão pouco um hábito conquistado nos tempos digitais em que os corpos se mostram à distância de um clique - e são facilmente comentados à distância de outro. É um hábito enraizado desde tenra idade e que serve, para muitos, de barómetro onde se avalia o maior ou menor nível de saúde, cuidado pessoal, bom gosto.

“Desde que nos conhecemos, reconhecemos-nos através do nosso próprio corpo. As questões da imagem, identificação cultural e autoestima estão muito relacionadas com o corpo, que tem uma atenção central na vida, não apenas para nós, mas também na forma como nos relacionamos com os outros. Isto vem, historicamente, desde sempre”, começa por explicar Maria João Cunha, professora associada na Universidade de Lisboa, investigadora no Centro Interdisciplinar de Estudos de Género.

Também a psicóloga Ana Valente reconhece que “desde pequeninos” somos ensinados a ver os outros pela sua aparência. “É uma questão educacional.” Na escola, distinguimos as Anas pela “mais rechonchuda” e “mais magrinha” ou os Filipes pelo “mais alto” e o “mais baixo”, por exemplo. E assim nasce o hábito de comentar o corpo dos outros de forma quase espontânea, com ou sem maldade à mistura. 

“Estes comentários acabam por ser um reflexo da importância que o corpo tem na sociedade, não apenas na forma física, mas na sua construção visual, em termos de roupa, as questões da moda, etc. Numa sociedade como a nossa, em que a cultura visual é muito grande, é claro que isso ajuda a explicar esta tendência de comentar o corpo dos outros”, continua a investigadora.

Apesar de os comentários serem comummente feitos entre amigos, familiares e colegas de trabalho, as figuras públicas são o alvo mais recorrente. São várias as vezes em que é possível ler comentários sobre a aparência física – em tom de elogio ou de crítica – e tantas outras em que a própria celebridade se vê obrigada a justificar, lamentar ou defender a imagem.

 

A psicóloga Débora Bento Correia, da Academia Transformar, fala de um “hábito tão enraizado na sociedade” que resultou do facto de o corpo se ter tornado “alvo de uma certa ‘obsessão’, seja esta dirigida à nossa própria aparência ou mesmo à do outro, e que nos leva então a comentar os corpos alheios”.

Segundo os dados do retrato Os jovens em Portugal, hoje: Quem são, que hábitos têm, o que pensam e o que sentem, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e coordenado por Laura Sagnier e Alex Morell, 52% das jovens mulheres e 50% dos jovens homens estão pouco satisfeitos com o seu aspecto físico, um fator que reconhecem ter um impacto direto nos níveis de felicidade e infelicidade que sentem. 

Será que a outra pessoa quer mesmo ouvir o nosso comentário?

É possível que não. Até mesmo quando o fazemos com a melhor das intenções, o que acontece muito com o “estás ótima, perdeste peso”. Uma vez que a sociedade ainda glorifica os corpos mais magros, “fazemos o cumprimento como forma de agrado, até inconscientemente”, reconhece Maria João Cunha. Mas os elogios sobre a perda de peso nem sempre são positivos. 

“Uma pessoa ter emagrecido pode nem sempre ser intencional. Pode, por exemplo, estar associado a uma condição de saúde que levou a essa perda e, portanto, ao dizermos algo semelhante não estamos, necessariamente, a ativar na pessoa que o ouve uma boa sensação. O mesmo acontece quando referimos a alguém o seu ganho de peso. Foi intencional? Era um desejo da pessoa? Sente-se uma pessoa melhor assim?”, questiona Débora Bento Correia. “Consideremos mais as emoções e sentimentos do outro do que necessariamente o seu aspecto físico”, insta a psicóloga.

Margarida Mendes, psicóloga no Hospital Lusíadas Amadora, recomenda que, ao contrário de tecer logo um comentário, mesmo que a intenção seja a mais positiva, “quando virmos que alguém está diferente, devemos perguntar se está tudo bem”. "Vejo que estás diferente" é uma abordagem sugerida pela psicóloga, que defende que se deve “tentar perceber” a razão da mudança. Se for por uma questão estética, e se a mudança é feita por vontade própria, a outra pessoa “vai ficar feliz com o elogio”, caso contrário, um simples comentário pode ter consequências na autoestima e bem-estar emocional.

“Todos temos as nossas inseguranças e vulnerabilidades pelo que é legítimo que nos sintamos desconfortáveis quando alguém faz referência a elas. Há comentários que, mesmo sendo feitos sem qualquer tipo de malícia ou com o intuito de provocarem dano, acabam por causá-lo. Isto porque, na maioria das vezes, os comentários são feitos sem ser considerado o impacto que podem ter no outro”, adianta Débora Bento Correia.

Já em 2015, por exemplo, Carolina Patrocínio respondeu às várias críticas feitas à sua aparência, todas elas online, atrás de um ecrã. “Essa magreza é assustadora e de belo não tem nada, pelo contrário”, comentou um utilizador. “Magra demais fica mal", escreveu outro.

E quais as consequências de ouvir um comentário sobre o próprio corpo sem que este tenha sido pedido? “Frustração, ansiedade, medo, depressão”, enumera Margarida Mendes, que não hesita em apontar o risco para distúrbios alimentares e mudanças de hábitos quando o comentário é percecionado com negatividade. “Não falo apenas de anorexias e bulimias, mas também de obesidade.”

Um estudo levado a cabo na Índia revela que uma em cada quatro mulheres já recebeu comentários negativos sobre o seu corpo nas redes sociais. À boleia disso, 48% das pessoas inquiridas diz que é cada vez mais difícil confiar nos outros. Mas o que leva alguém a tecer comentários negativos sobre a aparência dos outros, como acontece muitas vezes nas redes sociais? “Pode, por exemplo, ser a projeção de algumas inseguranças. Isto porque tendemos a não conseguir aceitar no outro aquilo que, de certo modo, não aceitamos em nós mesmos. Pode ser também sinónimo de uma baixa auto-estima e consequente de uma necessidade de 'afirmação' em relação à pessoa a quem se tece o comentário”, explica Débora Bento Correia.

Vamos perder este hábito? 

Dificilmente, diz-nos Maria João Cunha – mesmo que os padrões de beleza voltem a mudar e até passemos a olhar, como no início do século XX, para a gordura como formosura. As redes sociais dificilmente farão mudar o cenário.

“As redes não trouxeram uma maior inclusão. Vieram demonstrar que, embora haja vários corpos, aqueles que são valorizados continuam a ser os que obedecem ao padrão. O que foge do padrão é muitas vezes apresentado como fora do padrão, não é aquele que é mais valorizado”, resume a investigadora.

Além disso, as redes sociais vieram intensificar este hábito de comentar o corpo de outra pessoa, algo que até há uns anos se fazia entre amigos, colegas de trabalho ou em casa. Exemplo disso são os últimos comentários à atual forma física de Kim Kardashian. Hoje, estão à frente de quem quiser ver (ou ler), seja de rosto descoberto ou de forma anónima. E isto acontece porque, explica Débora Bento Correia, “existe um sentimento de uma certa impunidade neste tipo de ações, sobretudo quando dirigidas a figuras públicas, celebridades, influencers, pessoas com um maior grau de exposição. Quase como se, por esse facto, a atitude fosse justificável e até 'aceitável', quando não o é”.

A psicóloga defende que devemos parar de comentar o corpo e aparência física dos outros – presencialmente, online e sobretudo quando a nossa opinião não é pedida –, “em primeiro lugar, porque somos muito mais do que um corpo, do que a nossa imagem física” e, “em segundo lugar, precisamente pelo facto de não sabermos qual o impacto que esse comentário pode ter no outro e quais os gatilhos e as consequências que pode desencadear na pessoa que o ouve”.

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