Como os militares portugueses são preparados para as guerras

27 mar, 08:00
António Costa e João Gomes Cravinho no Campo Militar de Santa Margarida (Lusa/Paulo Cunha)

Simuladores que recriam batalhas antigas, treinos intensos no terreno, aulas sobre as diferentes estratégias nos conflitos mundiais, informações detalhadas sobre as novas armas ou passagem de dados sobre ciber-ataques. Especialistas explicam à CNN Portugal como é que hoje em dia se treina para o combate real

A surpresa provocada pelos carros de combate de infantaria norte-americanos conhecidos como M2 Bradley na Guerra de Golfo, as manobras relâmpago da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, o perigo nuclear da crise dos Mísseis de Cuba e a intensidade do combate de soldados em massa dos conflitos na era greco-romana. As táticas e estratégias usadas nestes conflitos são hoje usadas para preparar os militares portugueses para o terreno. Para isso, recebem aulas teóricas, mas também práticas e até virtuais. Ser postos em guerras do passado, recriando-as, através de simuladores de última geração, para que os militares aprendam com os erros ou as virtudes do passado é uma das apostas. “É possível criar cenários que representam batalhas anteriores”, afirma o Coronel José Contente Fernandes, chefe do Departamento de Serviços Académicos e Adjunto do Diretor de Ensino na Academia Militar, explicando que, no entanto, tem de se seguir algumas regras. “Nesses simuladores, para se ter algum efeito é preciso construir de uma forma fiel os acontecimentos. Além disso os sistemas de informações geográficas têm de ser representativos da área onde decorreram os combates”.

Se há uns anos os exercícios se reduziam em grande parte ao terreno, agora, fruto da evolução tecnológica, os militares passam muito tempo nos simuladores. E em todas as Forças Armadas há sistemas tecnológicos que permitem que um soldado fique familiarizado tanto com os equipamento e armamento, como com os processos de tomada de decisão que podem significar a diferença entra a vida e a morte no campo de batalha.

“Quando falamos em simulações, há dois sistemas que temos de ter em conta. O primeiro são os sistemas de simulação de equipamentos e armamentos que permitem economizar o gasto de munições e treinar o pessoal sem desgaste dos instrumentos”, esclarece Contente Fernandes, acrescentando que “depois, há os sistemas de simulação táticos - onde entram os jogos de guerra - que permitem auxiliar o treino dos militares na sua capacidade de tomada de decisão”.

Isto porque segundo o especialista em Ciência Militar, esta simulação tática tem algoritmos que colocam os militares em diferentes situações que podem ser imprevisíveis. “Vão desde o deslocamento de unidades, à ocupação de posições e situações de combate”, explica ainda o Coronel Contente Fernandes.

Estas simulações são essenciais às Forças Destacadas que, quando partem para missões no exterior, “vêm ao simulador praticar missões em cenários operacionais com forças adversárias e organizações que vão encontrar no terreno”. Este treino acontece, por exemplo, quando os militares são destacados para a República Centro Africana.

E será uma ação a acontecer “nos próximos dias” para testar os militares portugueses que foram destacados para a missão de dissuasão da NATO na Roménia, no início de abril.

É nas salas de aula na Academia Militar, na Escola Naval e na Academia da Força Aérea que os militares recebem muitas das informações teóricas que depois têm de por em prática nos simuladores, ou nos exercícios que fazem em pequena ou larga escala no terreno.  Nestes, os militares mostram as suas técnicas individuais de combate e são avaliados até ao mais ínfimo detalhe. “Por exemplo, têm de mostrar que não batem com o cano da arma no arbusto, ou que amortecem a queda com os joelhos, com a coronha da arma para a frente”, exemplifica o Coronel Carlos Mendes Dias. Estes exercícios militares que são feitos na base de Santa Margarida, como no Gerês ou na Galiza mudam consoante os objetivos de cada Força Armada, mas têm sempre em conta as ameaças atuais à segurança nacional e internacional. 

Já nas salas de aula, estudam com detalhes algumas das batalhas que mudaram o mundo. Hoje em dia, a guerra do Golfo, a crise dos Mísseis de Cuba, ou a operação Marketgarden na Segunda Guerra Mundial, são das mais estudadas, mas também já se analisou a Batalha das Termópilas entre gregos e persas no ano de 480 a.C.

No quadro do ensino militar há uma lógica de lição recolhida

“Aquilo que é dado são as decisões, estratégias, operações de logística e tácticas que marcaram o conflito que se está a estudar”, explica à CNN Portugal, o Major-General João Vieira Borges, que foi comandante da Academia Militar até julho de 2020. Vieira Borges, atual presidente da Comissão Portuguesa de História Militar, sublinha que no seu conjunto, as unidades curriculares estudadas pelos militares são “regularmente influenciadas pelas guerras mais recentes em termos científicos, doutrinários e através dos estudos de caso” - feitos no âmbito de trabalhos individuais e de grupo.

Isto significa, garante Vieira Borges, que os soldados que estudam nos diversos institutos militares aprendem, entre outros, aqueles conflitos da era greco-romana, as manobras na Segunda Guerra Mundial, a crise dos Mísseis de Cuba e a Guerra do Golfo. “Tudo isto é dado, na Academia Militar, em unidades curriculares como Tática Geral e Operações Militares, História Militar, Sociologia Militar, Logística, Organização, Sistemas de Armas, Estratégia e Direito Internacional Humanitário e dos Conflitos Armados”, explica o Major-General Vieira Borges.

No entanto, como afirma o Coronel Carlos Mendes Dias, os planos curriculares são extremamente mutáveis. “No quadro do ensino militar há uma lógica de lição recolhida, os professores e instrutores tendem a passar as suas vivências dos conflitos aos seus alunos”, afirma. 

O novo armamento

Outra das apostas para a preparação dos militares é no conhecimento profundo do novo armamento. É o caso da espingarda de assalto FN SCAR L - 5,56x45mm, do Lança Granadas FN40 (40x46mm), das metralhadoras ligeiras e media 5,56x45mm e 7,62x51mm e da nova pistola Glock 17. Estas armas são, de acordo com o Major-General João Vieira Borges, “alvo de instrução na Academia Militar, no âmbito das unidades curriculares de sistemas de armas”. Já na Força Aérea, “a prioridade de aprendizagens está ligada ao programa Mid Life Update dos F-16, particularmente com a integração de um novo computador de missão e da atualização do radar APG-66”, diz o Coronel Carlos Mendes Dias. Por outro lado, acrescenta, os militares da Marinha têm de aprender as características próprias do NRP Arpão e do NRP Tridente, os dois submarinos da força. 

Contudo, há certos instrumentos e disciplinas que deixaram de ter tanta preponderância no estudo dos militares. “Por exemplo, antigamente os alunos trabalhavam com o óbus de 14 centímetros, ou com o óbus de 10,5 centímetros de cano curto. Hoje em dia, esses canhões foram substituídos pela Light Gun e pelo óbus de 15.5 centímetros”, detalha o Coronel Carlos Mendes Dias, referindo que mesmo a G3, a arma de eleição do exército português desde 1962, “tendencialmente vai desaparecendo da educação militar”. Mendes Dias salienta também que “no passado dava-se uma maior atenção à balística interna e externa e hoje essa atenção mudou particularmente para as áreas das ciências sociais, da geografia e da geopolítica”.

Para o Major-General João Vieira Borges, uma das grandes mudanças no ensino nas Forças Armadas surgiu após a Cimeira da NATO na Polónia, em 2016.   Aqui a ciberguerra entrou na ordem do dia.

Nessa altura a defesa cibernética passou a ser integrada no conjunto de áreas de operações, juntamente com as de teor terrestre, naval, aérea e espacial. “O novo ambiente ciber, foi introduzido no ensino superior militar ainda no século passado, mas, sobretudo depois da cimeira da NATO na Polónia, foi alterado, não só em termos teóricos, mas também em termos de formação e treino militar”, afirma o Major-General João Vieira Borges, sublinhando que a guerra cibernética é também posta à prova em exercícios práticos nas Forças Armadas, como é o caso do Ciber Perseu, um exercício anual que visa avaliar a capacidade de resposta face à ocorrência de ciberataques em terreno nacional e internacional.

À CNN Portugal, fonte do Exército Português garante que com a formação os militares ficam habilitados “a lidar com as guerras do presente e do futuro”. “A formação no Exército está orientada para a condução de operações em todo espetro, designadamente para operações ofensivas, defensivas, de estabilização e de apoio”, diz o Exército. Já fonte da Marinha sublinha que além dos treinos, simuladores e análise de batalhas e armas os militares aprendem valores, “como a disponibilidade, a lealdade, a integridade, a coragem, a camaradagem e a justiça”.

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