ENTREVISTA || Mesmo que sempre tenha existido, a fome emocional tornou-se um tema. “Não se deve a uma coisa só”, antes a vários “desequilíbrios” combinados, explica Conceição Calhau, professora catedrática na NOVA Medical School. Por isso, não é tratada só no consultório do nutricionista. Há pacientes a quem se recomenda um acompanhamento paralelo por um psiquiatra. Caso contrário, sem ir à raiz, é estar a “varrer o problema para debaixo do tapete”
O tratamento faz-se passo a passo, assente em três pilares identificados por Conceição Calhau em entrevista à CNN Portugal. Evitar as batatas fritas, os chocolates ou os bolos na despensa não chega, porque “a fome emocional é exigente naquilo que vou querer comer” – ao ponto de fazer alguém sair de casa para comprar aquilo que se deseja.
“Não posso achar que trato a adição com açúcar dizendo à pessoa que ela não vai comer açúcar. É como dizer a um toxicodependente que não vai usar cocaína”, compara.
Conceição Calhau sente na pele um outro problema: a pressão dos pares – que, defende, “não ajuda nada” quem está a tratar a fome emocional. O verão, que multiplica os convívios, pode transformar-se na pior altura para julgamentos à mesa.
O tema da fome emocional parece estar mais atual do que nunca. O seu “Engolir Sapos Engorda – O Poder das Emoções na Saúde e na Balança” foi um dos livros publicados nos últimos meses sobre esta questão. A que se deve esta atenção à fome emocional?
Isto sempre foi um tema. O livro fala mais do stress, da gestão do estilo de vida, das variáveis que modificam o funcionamento do nosso metabolismo. Há variadíssimos fatores para isso. O stress é um deles. E quando falo em stress, falo de cortisol.
Cortisol, que é uma das palavras muito repetidas nas redes sociais nos últimos tempos.
Há quem diga que virou moda, mas não, sempre existiu. Se temos uma necessidade de adaptação do organismo, no sentido da fuga e da luta, há uma subida do açúcar no sangue – e, como resposta, a subida do cortisol.
E a fome emocional, onde é que entra na equação?
Acaba por surgir num contexto em que tudo isto começa a ficar desajustado, em que apetite e saciedade não estão ajustados. Ou seja, não temos esses sensores a funcionar bem. E, se comermos mal durante o dia, acabamos por ter mais fome emocional à noite. Depois, se há stress e um estado de alerta constante, temos necessidade de uma recompensa, de uma compensação.
Depois também há a plausibilidade biológica de o organismo estar a pedir para comer mais, porque podemos comer muito do ponto de vista calórico, mas do ponto de vista nutricional os alimentos serem muito pobres naquilo que o organismo verdadeiramente precisa. Por exemplo, se temos deficiência de magnésio, é muito provável que tenhamos mais fome por doces. Por isso, a fome emocional acaba por ser o resultado de todas estas disfunções, estes desequilíbrios. Não se deve a uma coisa só.
Na sua prática clínica, nota que este tipo de casos de fome emocional estão a tornar-se cada vez mais frequentes? Faz mais diagnósticos?
Sim, quando publiquei o livro “Deixemo-nos de Tretas - A Ilusão da Comida Saudável” [em 2024] também já alertava para estes desequilíbrios. As pessoas têm uma má relação com a comida. Há quem ache que não tem interesse nenhum e não cuide. E há quem tenha uma obsessão. Procura-se nos alimentos recompensas, satisfações, que depois viram adições. Não falamos de alimentação de uma forma não emocional, mas quando as pessoas têm muita emoção em relação a alguns alimentos há alguma coisa que está mal.
Todos temos momentos em que utilizamos a comida como uma forma de compensação, precisamente porque ela ativa esses mecanismos de recompensa no nosso cérebro. Quando é que esta relação deve gerar preocupação, ao ponto de se consultar um profissional de saúde?
Quando esse relato não é esporádico. Agora, isto não é zero ou 100. As pessoas vão tendo isto gradualmente. E depois há de vir a adição. Mesmo que o grau de dependência seja variável, há um sistema de alerta. Agora imagine alguém que come um chocolate ou um doce todas as noites: se alguém em consulta diz para [o doente] não comer, isso não vai resultar, porque a pessoa tem um apelo.
Então como é que se faz esse processo?
Há três coisas que falham para isto acontecer. Uma delas é a atividade física ou o exercício físico. É a prioridade. Se tivermos estímulos à massa muscular, temos também a libertação de substâncias que nos dão prazer e aumentam a autoestima. Toda a parte da alimentação vai estar suportada se começarmos por aqui. É importantíssimo para controlar o apetite e a saciedade, portanto, temos menos fome emocional.
E quais são os outros dois vértices?
A qualidade do que comemos e a hora a que comemos. Por exemplo, se não faço refeições com fibra, não vou ficar saciada. À noite, vou estar com uma confusão entre o que é fome emocional ou fisiológica. E esta confusão acontece, muitas vezes, porque as pessoas saltam refeições, comem qualquer coisa a despachar. À noite, com a descompressão do stress, a recompensa e o prazer acabam associados à comida.
Fala aí do reflexo à noite. A fome emocional nota-se mais nos jantares reforçados ou nos snacks?
Na fome fisiológica, se estou com fome, como. Se tenho fome emocional, não vou comer qualquer coisa. Tem de ser algo específico, como batata frita, um chocolate ou um bolo. É a grande diferença. A fome emocional é exigente naquilo que vou querer comer.
Tudo depende então de como nos comportamos durante o dia…
Se trabalhar estas três variáveis durante o dia, aumento a probabilidade de os sensores de apetite e saciedade funcionarem bem. E torna-se muito menor a probabilidade de uma adição, por exemplo, com açúcar. Agora, não posso achar que trato a adição com açúcar dizendo à pessoa que ela não vai comer açúcar. É como dizer a um toxicodependente – e o açúcar também é uma droga, embora muitas vezes não seja entendido como tal – que não vai usar cocaína.
O caminho passa por uma redução gradual da quantidade?
Essa pessoa tem de ser tratada porque tem uma adição. Tem de ser levado a sério, mesmo pela área da psiquiatria. O apoio psicológico é importante porque, de outro modo, é como se estivéssemos a varrer o problema para debaixo do tapete, seja ele uma vinculação, uma frustração, uma falha de personalidade.
Falamos então de um tratamento coordenado. Uma fome emocional nunca se cura só no consultório do nutricionista. Posso concluir isto?
Sim, muitas vezes é o que faço em consulta. Peço ao paciente para ter esse apoio paralelo, porque há um apelo, uma frustração, matérias a trabalhar.
Estamos no verão. Como queremos estar na nossa melhor forma, é uma altura em que prestamos grande atenção à comida. Mas, ao mesmo tempo, também estamos mais relaxados. E em que dizemos muitas vezes ‘eu mereço’ na hora de fazer uma asneira alimentar. Há alguma relação com a fome emocional?
Acho lamentável que as pessoas entendam que as férias são a desbunda completa. Não me parece. Posso é aproveitar para o contrário: descansar mais, ter menos preocupações para gerir, ter mais momentos sociais. E num momento social não tenho necessariamente de embebedar-me ou de entupir-me de chocolates e doces.
Mas existe essa pressão dos pares…
Isso é todo um outro tema muito importante. Há a pressão para beber álcool ou mesmo a pressão das ‘dietas’. Eu própria sinto isso quando estou num jantar e peço fruta como sobremesa. Há sempre alguém que diz ‘mas estás de dieta? Come para a frente’. Isto é pressão social, bullying mesmo. É uma coisa que não devemos ignorar.
Andamos todos a falar de saúde, de alimentação saudável. E os momentos sociais são necessariamente do desvario. E quem não tem esse comportamento quase que é erradicado do grupo. Muitas vezes, dou por mim a declinar o convite, porque já sei que vão passar a refeição a azucrinar-me a paciência, a perguntar se podem comer isto ou aquilo, só para me fazerem sentir mal por eu não ter optado por comer o mesmo. Se eu não como e a outra pessoa comer, tudo fantástico, não me meto. Mas há aquela sensação de que somos umas aves raras.
E a pressão social, pode ser um gatilho para a tal fome emocional?
Quando falamos de fome emocional, falamos de outra coisa. Ainda assim, se já tenho uma predisposição para comer por razões emocionais, posso sentir-me mais autorizada a comer um bolo, porque está toda a gente a fazer o mesmo. E se não tivesse essa aprovação dos pares, talvez seguisse para a peça de fruta como sobremesa, porque é o meu doce de eleição. Quando se está a fazer o trabalho de tratar a fome emocional, os pares não ajudam nada.
Sobretudo se não existirem sinais exteriores? Uma pessoa pode ser magra e ter fome emocional?
Com certeza, podemos ser magros e doentes. A saúde não se mede ao peso. A obesidade é visível. Agora, a hipertensão arterial, a diabetes ou a insuficiência renal não são visíveis.
E como esses indicadores não são visíveis, qual é o momento em que uma pessoa deve pedir ajuda pela sua fome emocional?
Quando percebe que tem uma má relação com a comida, quando a comida é um tema.
Imaginemos alguém que tem uma adição com batatas fritas. Evitar ter pacotes de batatas fritas em casa pode ajudar nesse processo?
Pode ajudar, mas a verdade é que não estamos a tratar o problema. Estamos a adiar o tratamento. Até porque há pessoas que depois saem de casa para ir comprar esses pacotes de batatas fritas. Ficam a ativar zonas do cérebro, que está em privação, deixando o organismo em estado de alerta. Por isso é que se diz que engordamos mesmo sem comer, só de olhar. A informação que passa para o cérebro é a de que vai entrar gordura. Então, o corpo prioriza a formação de gordura. Há um registo do peso no cérebro, que tem a ver com aprendizagem, com rotina, com consistência. Se tenho comportamentos erráticos, o organismo entra em modo de sobrevivência.
