O líder quasi-eleito do PS vai almoçar com os fundadores do partido. Quer ouvir a voz da experiência sobre como ter péssimos resultados e seguir em frente. Por falar nisso, no PSD vai ecoar a palavra de ordem: "Mendes, vai em frente, tens aqui a tua gente quatro meses depois de ter teres apresentado como candidato presidencial". Mas o apoio do PSD só se consuma depois da candidatura do Almirante
É natural que já ninguém se lembre, mas Marques Mendes apresentou formalmente a sua candidatura a Presidente da República há quase quatro meses. Foi a 5 de fevereiro, naquela altura em que Marcelo Rebelo de Sousa garantia que não haveria crise política e que isto da Spinumviva não era nada. Mendes, que fala muito com Marcelo, ficou tão convencido que não haveria crise que achou que devia dar o tiro de partida para as presidenciais (neste particular, Mendes, que também fala muito com Montenegro, devia ter falado mais com Montenegro do que com Marcelo).
Pois, estando Marques Mendes vai para quatro meses como candidato presidencial, recebeu ontem um apoio. Manuela Ferreira Leite, sua amiga e cúmplice desde o tempo em que os animais falavam (ou desde que estavam ambos nos conselhos de ministros de Cavaco Silva – é escolher a possibilidade mais antiga), declarou que Marques Mendes, e passamos a citar, “pela sua história, surge como candidato natural do PSD à Presidência da República”, merecendo o apoio da própria Manuela “não por amizade ou disciplina partidária, mas por convicção”. Apesar da convicção, a ex-ministra não esconde a amizade com o ex-ministro, que conhece “há muitos anos, nem sei dizer quantos”. Ora bem…
O apoio de Manuela Ferreira Leite a Luís Marques Mendes é tão surpreendente como se Frederico Varandas apoiasse Viktor Gyökeres para a Bola de Ouro. Aliás, a própria Ferreira Leite, que antes de ser cavaquista e marquesmendista já era sportinguista, e também apoiaria Gyökeres para a Bola de Ouro. Se pudesse, se calhar até o apoiava para a Presidência da República.
Já temos candidato e meio. As coisas são como são, e para já a corrida a Belém só conta com um candidato e meio – não, não é uma indireta sobre a estatura de Marques Mendes (que eu não tenho créditos para escrever sobre esse assunto), é sobre o estatuto do Almirante. Mendes é o único candidato inteiro que está na corrida; e na quinta-feira receberá oficialmente o apoio do seu partido que, tal como Ferreira Leite, o conhece “há muitos anos, nem sabe quantos”.
O meio-candidato é o Almirante, que há dias anunciou que anunciará a sua candidatura na próxima quinta-feira. O Conselho Nacional do PSD foi cirurgicamente marcado para depois do lançamento (salvo seja) do Almirante, talvez na esperança de ofuscar o olho azul com o apoio laranja.
Febre de quinta à noite. A concentração de acontecimentos político-presidenciais previstos para a tarde/noite da próxima quinta-feira tem a ver com a véspera, dia em que ficarão contados os votos da emigração, serão distribuídos esses quatro deputados, e se encerra o processo das eleições legislativas. Seria de mau-tom por o carro à frente dos bois e lançar uma candidatura presidencial sem estarem resolvidas as eleições legislativas – o Almirante pode fazer uma TED Talk sobre isso. Neste ponto, Marques Mendes é inocente: quando pôs o carro à estrada, ainda não havia bois.
Entretanto, no PS… Tanta reflexão que ia brotar em cada esquina, tanto questionamento que estava recalcado, tanta folha de chá para ser lida, tanto búzio para ser lançado, tanto soul searching à espera de acontecer, tantos planos, tantos anos, tantas noites/ Sem nunca sentir a paixão… Era agora que tudo ia acontecer e mudar. Afinal, não é sempre que o PS leva uma abada nas eleições legislativas, e nunca tinha ocorrido o risco de ficar em terceiro lugar, e essa conjugação de fatores desenhou o mapa astral de uma refundação que só não aconteceria se o partido não quisesse. Deu-se o caso de não querer.
Porque a reflexão, o questionamento, o soul searching, a análise dos dados, o regresso da paixão ao fim de “tantos anos tantas noites” implicava, segundo os seus proponentes, que o PS ficasse uns meses com um líder provisório que ninguém escolheu (o pater familias Carlos César), enfrentando, entre vivos encontros federativos e animados colóquios, umas eleições autárquicas, umas presidenciais, e a entrada em funções de um novo Governo, com Programa para censurar ou viabilizar, e Orçamento para chumbar ou deixar passar.
Algumas das melhores cabeças do PS propunham repensar o partido como nunca sido repensado, ir ao fundo e voltar com o graal que haveria não só de evitar a morte do partido, que alguns já auguram como certa, como rejuvenescer e tornar o PS um bom partido, belo e atraente para jovens e idosos, funcionários públicos e trabalhadores por conta própria, urbanos e rurais, recém-formados em início de carreira e pensionistas. Mas a maioria esmagadora do partido disse-lhes, na manhã de sábado, que tem mais o que fazer, e tem outros quereres: quer um líder, quer ordem na casa e quer sossego para fazer a campanha autárquica.
O líder está escolhido, e será José Luís Carneiro, aparentemente por ausência de concorrência. Nenhum dos barões que ambicionava refletir (estaremos a falar de reflexo narcísico?) mostrou a ambição de ir a votos agora, sem tropas, com o terreno já batido por José Luís, e com um longo deserto de oposição pela frente. Pudera.
Carneiro ouve os fundadores. É claro que não há nada que impeça José Luís Carneiro (JLC) de andar e mastigar pastilha elástica ao mesmo tempo (embora os seus detratores mais ácidos duvidem desse nível de multitasking). Ou seja, de ser eleito e pôr a casa em ordem, deixar correr uma campanha autárquica cujos candidatos já estão escolhidos e começar, em simultâneo, a escavar as razões para o PS ter chegado aos níveis de miséria a que chegou.
O primeiro momento desse processo será já hoje, num almoço de JLC com seis fundadores do PS. Gente que passou por muito – pela clandestinidade, pelas primeiras eleições, pelo desafio de governar uma democracia nova a estrear, e até por eleições legislativas em que o PS se ficou por 20,7%, e por 22,2%. Foi em 1985 e 1987, na década cavaquista, quando o PS caiu no purgatório eleitoral e penou para se reerguer. Talvez os fundadores, que passaram por tudo isso e depois ainda viram o partido conquistar duas maiorias absolutas, tenham algumas ideias sobre como atravessar o deserto espinhoso que José Luís Carneiro tem pela frente.
Para já, em entrevista à CNN, Carneiro assumiu um duplo compromisso: “Farei da minha candidatura o momento para ouvir os meus camaradas, mas também ouvir a sociedade civil, as instituições. Todos nós somos corresponsáveis pelos resultados eleitorais.” Garantiu que não chumbará o Programa do Governo, espera para ver o que traz o Orçamento do Estado e vai enterrar a ideia de uma CPI ao caso Spinumviva, que está “na esfera da Justiça”. Quanto à Revisão Constitucional, não acha prioritária, mas até tens uns temas para dar para o peditório, relacionados com a resposta perante crises sanitárias, condições relativas ao uso de metadados e alargamento dos poderes e autonomia das regiões autónomas.
Mais que isso, depende do partido maioritário. “AD e Governo têm de clarificar quem é o parceiro para negociar e dialogar sobre as matérias de regime.”
O sociólogo que quer dados antes de fazer analises. Não sendo um fundador do PS, mas um senador muito ouvido por Carneiro, e até sociólogo, Augusto Santos Silva deu os seus cinco cêntimos para este debate, considerando que “só compreenderemos bem o que se está passando no fim deste ciclo eleitoral. Portanto, guardo opiniões um pouco mais definitivas para depois das eleições autárquicas e presidenciais. Porque nessa altura teremos uma ideia de como está a relação de forças entre os diferentes partidos políticos, e o tipo de eventual enraizamento que a extrema-direita já tenha na sociedade portuguesa, e que fatores confluíram para explicar os resultados.” Segundo Santos Silva, as autárquicas testam a implantação territorial dos partidos, e nas presidenciais a natureza do regime estará em causa – e só olhando todos os resultados em perspetiva será possível retirar conclusões sólidas.
Quanto à parte que toca ao PS sobre presidenciais, Santos Silva tratou-a como se tratam os assuntos chatos, e remeteu para a jurisprudência: “Há uma decisão da CN do PS nos termos da qual o PS escolherá quem vai apoiar entre as pessoas que se disponibilizarem para se candidatar.” Simples.
Assim falou Pitonisa. José Miguel Júdice, que não é fundador de nenhum partido democrático (andava por outros caminhos nessa altura), mas tem memória da democracia toda, suspeita que o PS está hoje, pelo menos, em tão maus lençóis como estava nos anos 80. “[Vítor] Constâncio deu 10 anos de maioria absoluta, mudou a História de Portugal. Este [Pedro Nuno Santos] está a fazer o mesmo.” Com a agravante de que não só ofereceu uma vitória reforçada ao PSD como se deixou ultrapassar pelo Chega, como se verá no dia 28. Uma das explicações para o hecatombe socialista, segundo Júdice, que se dá ares de príncipe do regime, mas fala como um cocheiro, “é que a incompetência dele [Pedro Nuno] via-se, cheirava-se.”
Da mesma entrevista de Júdice ao Observador: “António Costa era o oportunista-mor do Reino”; “Marques Mendes é o Marcelo dos pobres”; “Rui Rio era um caso de mediocridade política absoluta”; “Marcelo foi um dos piores Presidentes da III República”. Bem vistas as coisas, Pedro Nuno até se sai da coisa com alguma galanteria.
Um muito convicto harakiri. Consumou-se a carreira do líder que se julgava carismático, mas era só casmurro. Na hora do adeus, Pedro Nuno Santos continuou a insistir na desqualificação do seu adversário político, o primeiro-ministro reeleito com uma “maioria maior” do que a que tinha antes. Parece que PNS saiu sem admitir erros, mostrando a mesma firmeza com que conduziu o partido até ao seu terceiro pior resultado de sempre. A firmeza que o fez duvidar sobre se viabilizaria o programa do Governo, que viabilizou, garantir que não deixaria passar o Orçamento do Estado, que deixou, e prometer que não faria entendimentos com a AD, que fez.
No fundo, a firmeza com que PNS se opôs ao programa então defendido por José Luís Carneiro, acabando, em boa medida, por fazer aquilo que o seu adversário interno havia proposto. Quando decidiu pela sua cabeça, contra aliados e adversários, e optou por chumbar a moção de confiança, fez harakiri e nem se deu conta. Quando o desastre se tornou impossível de disfarçar, já havia vísceras pelo chão. (Peço desculpa pela linguagem gráfica, mas há palavras que não se podem usar impunemente, e uma delas é harakiri).