Com o PS a lamber fraturas múltiplas, José Luís Carneiro é o único candidato à liderança. Mas muitos apoiam a sua tese de que o PS deve dialogar com a AD. Pedro Nuno deixa de ser líder no sábado, Carlos César será governante interino, e quer um líder eleito até ao verão. Mas há quem peça mais tempo para reflexão… Entretanto, o partido que prometeu “acabar a mama” viu aumentar a “mama” a que tem direito
Habemus candidato... José Luís Carneiro confirmou na CNN que irá candidatar-se de novo à liderança do PS, ano e meio depois de se ter oposto a Pedro Nuno Santos, perdendo então as diretas com 40% dos votos. E propõe agora a mesma linha alternativa que já então havia desenhado, e que o PS desdenhou: moderação e possibilidade de acordos pontuais com a AD, para não deixar o País cair em bloqueios institucionais e não permitir que o Chega seja a única alternativa de diálogo para a coligação alcançar a maioria que lhe falta.
Curiosamente, o próprio Pedro Nuno acabou por fazer essas cedências pontuais à AD, por exemplo viabilizando o Programa do Governo e o Orçamento do Estado e chumbando moções de censura. Mas, no caso de Pedro Nuno, parecia conviver mal com esses “entorses” a uma linha mais à esquerda, mais dura, mais fraturante em relação ao Executivo de Montenegro – que teve o seu epílogo no chumbo da moção de confiança e no abismo cavado entre os dois líderes, com o socialista a dizer, ainda agora, que Montenegro “não tem idoneidade para ser primeiro-ministro”. Pedro Nuno começou por defender um PS durão, acabou por liderar um PS disponível q.b. à negociação pontual, e acabou queimando todas as pontes de possível diálogo com o Governo.
José Luís Carneiro propõe voltar à sua tese inicial de 2023 – que é uma forma diplomática de dizer que estes foram tempos perdidos. Quer o PS como “fator de estabilidade e confiança no futuro”, dando desde já a garantia de viabilização do programa do Governo de Montenegro. E exige um “impulso reformista” que implica acordos pontuais no Parlamento entre o PS e a AD, em áreas “vitais” como o crescimento da economia, atração de investimento estrangeiro, política fiscal, combate à pobreza e valorização das condições laborais e dos rendimentos, mas também no reforço dos esforços de Segurança e Defesa. Carneiro ainda juntou reformas do sistema de segurança e justiça, e requalificação do sistema político e eleitoral, defesa do SNS, escola pública, sistema de pensões e respostas na habitação. Estes pontos “exigem” entendimentos “da parte dos dois principais partidos”. Estes pontos, note-se, é quase tudo o que importa numa governação.
Apesar da longa lista de possíveis entendimentos, sempre ao nível da negociação parlamentar, Carneiro garante que “estamos fora da opção do Bloco Central. Não é necessário e seria prejudicial”.
A alternativa de diálogo proposta por Carneiro carrega uma crítica implícita à liderança de Pedro Nuno, mas na entrevista à CNN o candidato recusou-se a atribuir culpas à direção cessante pela hecatombe de domingo. “O PS tem uma responsabilidade fundamental com o País. Estar a fazer uma análise dessa natureza em nada contribui para que o PS se possa reconstituir como aquilo que é, uma grande força politica”.
Nem mesmo o apelo de Pedro Nuno para que o PS não dê qualquer apoio à AD no Parlamento parece ter deixado eco ou condicionado o eventual sucessor. “Julgo que nenhum socialista se sentiu condicionado”. Rei morto, rei posto.
Mas ficou também o recado à AD, para que tenha “a humildade democrática” de respeitar os partidos da oposição e não ter a tentação de impor o seu programa, sufragado apenas por 32% dos portugueses. Paulo Rangel, também na noite passada na CNN, concordou que terá de haver esse esforço de aproximação mútua. "A AD também terá de fazer algumas cedências, com certeza, porque para haver soluções que possam funcionar vai ser necessário isso.”
…E haverá mais? Num partido quase em estado de coma, não é provável, contudo, que Carneiro tenha passadeira vermelha para a liderança. Logo no domingo Fernando Medina considerou “chocante” o resultado do PS, e a história do partido diz-nos que esse adjetivo costuma ser mais do que um recurso retórico. Contudo, Medina tem-se mostrado desinteressado numa candidatura. O mesmo em relação a Duarte Cordeiro, que exigiu “uma reflexão profunda”, mas já garantiu que não será candidato. Sérgio Sousa Pinto considerou “uma excelente notícia” a recandidatura de José Luís Carneiro, ainda que não o tenha apoiado em 2023 – e, embora questionado muitas vezes ao longo da noite eleitoral da CNN, Sousa Pinto nunca foi perentório na recusa de entrar na contenda. Nalguns momentos, pareceu até declamara de cor um programa eleitoral para a disputa interna.
Também Alexandra Leitão não foi taxativa quando questionada no programa “O Princípio da Incerteza” sobre se poderá ser candidata a secretária-geral. Limitou-se a dizer que já anunciou a candidatura à Câmara de Lisboa e que é nessa corrida que está “concentrada”.
A maior ou menor disputa eleitoral dependerá, em boa medida, da pressa que o PS tenha em arrumar a casa.
É preciso ter calma... Miguel Prata Roque, que a televisão transformou numa estrela mediática do PS, embora tenha pouquíssimo peso no partido (foi derrotado em janeiro na corrida à FAUL, a distrital de Lisboa), tomou a iniciativa de se colocar entre os candidatáveis, ao enviar às redações uma declaração política duríssima em relação ao estado do PS, descrito como "partido de funcionários", que "funciona em circuito fechado". O comentador da SIC-Notícias defende que sejam realizadas primárias para a escolha do próximo secretário-geral em finais de Outubro, após as autárquicas. Até haver novo líder, Prata Roque concorda que Carlos César, presidente do PS, seja secretário-geral interino.
A ideia de que o PS deve prolongar a “reflexão profunda” exigida por muitas vozes, mesmo que isso implique adiar para depois das autárquicas a eleição do novo secretário-geral, foi ontem defendida por outros barões. José António Vieira da Silva, ex-dirigente e várias vezes ministro, foi um deles. Francisco Assis foi outro. “Para o PS deve haver um período de reflexão e não uma precipitação”, defendeu Vieira da Silva, dando a entender que o calendário das autárquicas não deve condicionar ou apressar o processo de debate interno. Os candidatos autárquicos, defende o ex-ministro, “correm numa pista própria”. Considerando o novo quadro parlamentar como “uma mudança forte e pesada”, Vieira da Silva sustenta, em declarações ao Público, que “as mudanças não são idênticas às que se fazem numa situação estável”.
Também ao Público, Assis defendeu que “haveria vantagem em que o presidente do PS [Carlos César] assumisse a condução do partido nos próximos meses”, adiando a sucessão de Pedro Nuno Santos para um momento posterior às autárquicas.
Ana Catarina Mendes, ex-ministra de Costa e em tempos olhada como possível candidata à chefia do partido, é outra das vozes que veio pedir “uma reflexão profunda”, lamentando “que este seja o resultado do PS e do país”. Era um dos rostos mais fechados na sala do Altis onde Pedro Nuno Santos anunciou a demissão. Mas hoje ninguém a olha como possível competidora pela liderança, apesar do seu conhecimento da máquina do partido, acumulado nos anos em que foi secretária-geral-adjunta de Costa. Por um lado, porque o legado de Costa é cada vez mais questionado; por outro, porque foi ela, enquanto ministra, quem dirigiu a política de imigração e teve a responsabilidade política da criação da AIMA, cuja ineficiência e incapacidade de resposta levou à crise de centenas de milhar de imigrantes sem a sua situação legalizada. O peso dessa herança foi reconhecido pelo próprio Pedro Nuno Santos, quando se distanciou das políticas protagonizadas por Ana Catarina Mendes.
…E é preciso ter pressa. Só no sábado se reúne a Comissão Nacional do PS, convocada por Pedro Nuno ao anunciar a sua demissão na noite eleitoral. Da ordem de trabalhos faz parte a “análise da situação política face aos resultados eleitorais” e a “aprovação de calendários e regulamentos eleitorais”. Será também o momento de Pedro Nuno alijar a carga e passar para Carlos César a liderança interina do partido. Mas o açoriano que presidente ao PS e o dirigirá neste período transitório, não o quer prolongar excessivamente.
A proposta que vai apresentar à Comissão Nacional não deixa a eleição do novo líder para as calendas: defende eleição do secretário-geral até fim de junho, princípio de julho, com a possibilidade de deixar congresso para depois das autárquicas, de forma a não se intrometer no trabalho das candidaturas no terreno. Segundo José Luís Carneiro, até agora o único candidato disponível, “o quadro apresentado parece adequado”. Por um lado, porque “todas as nossas energias devem estar no apoio aos candidatos autárquicos”, por outro, porque evita um vazio de liderança que poderia prejudicar a eficácia da mensagem do PS. Para além disso, permite estabilizar mais depressa a liderança do grupo parlamentar e definir as primeiras decisões que será necessário tomar na Assembleia da República.
Augusto Santos Silva já veio dar força a esta linha, pedindo ao partido “cabeça fria” e uma “direção plenamente legitimada o mais depressa possível”, acrescentando que o PS deve chumbar qualquer tentativa de derrubar um governo da AD.
À cautela, Marcelo, que recebe hoje os três partidos mais votados, já adiantou que poderá voltar a ter outra ronda de encontros com AD, PS e Ch na semana que vem, já com os votos da emigração contados, e com as decisões do PS sobre o seu futuro imediato tomadas. “No caso do PS há uma substituição de liderança e portanto é importante que o PS tenha tempo para se perceber qual é o processo, o tempo, o calendário de substituição e o posicionamento em relação ao Governo”, explicou o chefe de Estado.
A “obrigação” do diálogo. Enquanto o PS tenta perceber o que lhe aconteceu no atropelamento a alta velocidade de que foi vítima, todas as vozes socialistas que se têm pronunciado mostram-se favoráveis a que Montenegro possa formar novo Governo e entrar em funções. Este é o entendimento tanto de apoiantes de Pedro Nuno como de vozes mais distantes. Já referimos as posições de José Luís Carneiro e Augusto Santos Silva, mas também Francisco Assis, eurodeputado que apoiou PNS, considera que "os partidos democráticos têm a obrigação de estabelecer um diálogo entre si" para que o país "não ande de eleições em eleições todos os anos". Sérgio Sousa Pinto, que se distanciou desta direção ao ponto de recusar integrar as listas de candidatos, disse no domingo à noite na CNN que “o que compete ao PS é criar condições para que o PSD governe (...) e deixar o Ch num lugar marginal e insignificante.” António Vitorino, noutra televisão, disse parecido, “como é óbvio”.
Não sendo essa a posição pessoal de Pedro Nuno Santos, o que dirá o líder cessante do PS ao Presidente da República a esse respeito é uma das poucas incógnitas da jornada de hoje.
Montenegro, parte 2. Depois de uma noite de choque e pavor, o PS passou o dia de ontem a lamber as fraturas múltiplas com que saiu das eleições. Ainda não se confirmou que o partido de André Ventura é o maior partido da oposição, mas é uma questão de tempo e de probabilidade: o tempo para contar os votos da emigração e a probabilidade de o Chega voltar a eleger dois dos quatro lugares em disputa, e de o PS conseguir, quando muito, um desse lugares. Atualmente empatados com 58 deputados, o desempate está por dias – a contagem está marcada para 28 de maio
Sem poder basear-se numa probabilidade, por muito alta que seja, o Presidente da República recebe hoje em Belém os três partidos mais votados, pela ordem dos votos já contados: AD (32,1%, 86 deputados), PS (23,38%, 58 deputados) e Chega (22,56%, 58). (Os votos dos emigrantes – cuja abstenção é muito alta, e até terá sido empolada, mais uma vez, por falhas no sistema e no funcionamento da rede consular – até podem não chegar para o partido de Ventura ultrapassar em votos os socialistas. Até agora chegaram os votos de 12,2% dos emigrantes registados, pouco mais de 192 mil envelopes. Mas, quer ultrapasse ou não o PS em percentagem, tudo indica que o Chega ficará com mais deputados.)
Marcelo, que tinha dito não ter pressa em nomear um novo primeiro-ministro, não terá alternativa se não convidar Luís Montenegro a apresentar um novo Governo, apesar de não haver maioria absoluta. AD+IL não perfazem os 116 deputados necessários para mais de metade do hemiciclo (ainda que por absurdo a AD conquistasse os quatro lugares de emigração, ficaria curto), e Montenegro reafirmou o “não é não” ao Chega (embora agora Paulo Rangel diga que “haverá diálogo com todos” e “flexibilidade”).
Não havendo alternativa, Marcelo “seguramente indigitará Luís Montenegro para formar governo”, conforme disse ontem Marques Mendes, na rara tripla condição de comentador político, conselheiro do Presidente da República no Conselho de Estado, e candidato à Presidência da República.
A campanha acabou? Comece a próxima. Mais do que saber o que Marcelo fará agora, Mendes sublinhou que “a questão coloca-se mais tarde, por exemplo, quando houver orçamentos (...) Vai ser preciso fazer pontes de entendimento para evitar crises” – e é para isso que Marques Mendes se apresenta a votos, segundo o próprio. A prova de que este será um ano non stop de campanha eleitoral, é que ontem Mendes deu um ar da sua graça na corrida a Belém, e Carlos Moedas também arranjou forma de ser notícia, para chamar a atenção na sua recandidatura a Lisboa (ainda não anunciada, mas cujo anúncio será tão surpreendente como foi o do Almirante Gouveia e Melo – que ontem, estranhamente, não apareceu).
No BE pede-se “radicalidade”. Não é só o PS que está em sofrimento com a digestão dos resultados de domingo. No BE, que viu o grupo parlamentar de cinco encolher para uma deputada única (a coordenadora Mariana Mortágua), a tradicional corrente crítica, protagonizada pelo ex-deputado Pedro Soares, já se pôs em campo. Segundo o crítico interno, o problema do BE não é ter sido demasiado radical, mas, pelo contrário, é que não foi suficientemente radical nas suas propostas políticas. Soares pede “outra radicalidade” em alternativa à linha política de Mortágua, centrada “no calculismo, na moderação, na governabilidade”.
No PCP, outra vez arroz. O PCP reúne hoje o Comité Central para "analisar a situação política e social", os resultados eleitorais e a "ação e iniciativa política do partido". Será a primeira declaração pública dos comunistas depois de no domingo Paulo Raimundo ter garantido que o partido manteria os quatro deputados (na realidade, perdeu um). Mas o secretário-geral do PCP já na noite eleitoral elogiou a “notável jornada” eleitoral do partido, e a sua capacidade de resistência. Apesar de ter sido o pior resultado de sempre da CDU, o secretário-geral comunista elencou uma lista de razões exógenas para este desfecho, sem apontar qualquer responsabilidade própria no mau desempenho eleitoral do partido. Não é provável que o Comité Central o contrarie. Como sempre, “com toda a confiança, a CDU avança”.
Mama mia. No seu estilo inconfundível, André Ventura anunciou no domingo que “acabou a mama” para os partidos “do sistema”. Contudo, o provável maior partido da oposição – que nessa qualidade tem um papel muito específico “no sistema” – irá receber uma subvenção anual de cerca de 4,7 milhões de euros (segundo contas da CNN, ainda sem os votos da emigração). Ou seja, cerca de 715 mil euros a mais do que já recebia por ano. Eis uma “mama” a que o Chega nunca renunciou, e que em vez de acabar, engorda. O PS, ao invés, vai perder 1,3 milhões de euros por ano, e terá de se contentar com 4,9 milhões. A AD, vencedora das eleições, receberá uma subvenção de quase 7 milhões de euros (mais 460 mil do que recebia). A mama a quem trabalha!