O tema do dia foi o almoço de família na sede do PSD. Como todos os almoços de família, com prós e contras, e até com aquele tio desagradável que estraga a festa. E, por falar em festa, ontem houve o sempre imperdível debate dos pequenos partidos
Empenhado em cumprir a promessa de reconciliar o PSD com a terceira idade, Luís Montenegro pagou ontem um almoço a um grupo de idosos (em Portugal, são as pessoas com mais de 65 anos e que têm direito ao atestado multiusos que permite, por exemplo, descontos em espetáculos e descontos ou borlas em transportes públicos e museus), mas também a pessoas que para lá caminham, embora tecnicamente ainda estejam na meia idade (ou seja, que não têm descontos em transportes públicos, mas também não precisam porque é a idade em que, sendo homens, compram um desportivo descapotável para lidar com a crise… da meia idade). Para provar que esta é mesmo uma prioridade, Montenegro ofereceu o repasto, não no Parque Eduardo VII, mas na sede do PSD, e em dia de aniversário do partido.
A forte presença de pessoas de idade avançada tinha a ver com a opção de celebrar o aniversário do partido com os ex-líderes que cumpriam três condições: estarem vivos, não serem Presidente da República e poderem deslocar-se à sede do PSD, na Lapa. Compareceram oito, faltaram quatro, números altos que se justificam pelo facto de nenhum partido português ter mudado tantas vezes de líder como o PSD. É uma história empolgante de golpes palacianos, traições à má fé, ódios remoídos e muitas horas de congressos e conselhos nacionais de língua afiada e facada nas costas. “Um partido belicoso quando se trata de democracia interna”, nas palavras quase sempre bonitas de Luís Filipe Menezes.
Por isso, ainda antes de se saber se Montenegro conseguiu ou não reconciliar o PSD com pensionistas e reformados, sabemos que conseguiu, pelo menos, sentar à mesma mesa um conjunto de velhas glórias do partido (chamemos-lhes assim por facilitismo) que, na maioria dos casos, se odeiam cordialmente. Só isso já foi um feito.
Os 9 da vida irada. Sentados numa mesa redonda pela ordem em que dirigiram o PSD, Fernando Nogueira estava à direita de Cavaco Silva, que o traiu de forma pública e notória na única campanha em que Nogueira dirigiu o PSD; e logo ao lado de Nogueira estava Santana Lopes, a quem Cavaco apelidou de má moeda, tendo ajudado a defenestrá-lo do Governo e do PSD quando era primeiro-ministro. Marques Mendes estava ao lado de Menezes, para quem perdeu umas diretas, acusando o vencedor de caciquismo, entre outros nomes feios.
Ao lado de Menezes sentou-se Manuela Ferreira Leite, que participou numa entusiástica campanha do baronato laranja contra o autarca de Gaia, nos poucos meses em que este se aguentou como líder. E, logo a seguir, Pedro Passos Coelho, ativo crítico da liderança de Ferreira Leite. E à direita de Passos, Rui Rio, o mais vocal adversário de Passos dentro do PSD, tanto quando este era primeiro-ministro como quando era apenas líder partidário. E Montenegro, claro, que tentou derrubar Rio quando este era líder, e tenta até hoje “matar” a sombra de Passos Coelho, que continua a assombrá-lo. Deve ter sido um almoço bem divertido.
O estraga-festas. Por falar em Passos Coelho, deve ter sido o único que não recebeu o memorando pedindo aos comensais para repetirem muitas vezes a palavra estabilidade quando falassem aos jornalistas (Rio recebeu o mesmo memorando, mas estava ali claramente contrariado e ali estar era frete que chegasse). Não é que Passos não tenha falado de estabilidade – conceito que parece ser o valor mais alto que se alevanta na cartilha da campanha montenegrista. O problema é que Passos pôs a par da estabilidade a importância do reformismo. “Há reformas importantes que o país ainda precisa de fazer para superar vulnerabilidade estruturais”, e “é preciso que exista verdadeiramente um espírito reformista que possa estar ao serviço dessa estabilidade”, alertou o ex-PM, dando a entender que não vê esse espírito reformista desde que saiu do Governo. É mais ou menos indiferente se Passos também se referia aos anos de António Costa, pois Costa já não vai a votos; quem levou com a crítica em cheio foi o atual Executivo.
Passos, que é tão parcimonioso nas suas aparições públicas, tinha mais uma coisinha para dizer: “É importante que o país não se alheie do que está a acontecer no mundo e se vá preparando para o que aí vem.” É verdade que Passos começa a parecer o Nostradamus da política portuguesa, ou a Cassandra, para quem prefira um registo mais clássico, e há anos que tem visões de crises económicas, da chegada do Diabo, e quem sabe até se de pragas de gafanhotos. Mas, desta vez, está acompanhado de tudo o que é entidade preocupadas com as contas do país e do mundo, nacionais e internacionais, que alertam para a conjuntura de incerteza devido às tarifas e outros vaipes de Donald Trump; a nova guerra fria EUA-China; e as guerras quentes que se desenrolam na Ucrânia, no Médio Oriente e, agora, entre Índia e Paquistão.
É muita incerteza junta, o impacto das tarifas pode ser brutal na economia global, e nada disto é refletido nos programas e promessas eleitorais dos partidos, sendo o PSD o campeão das visões unicórnios. Tem o cenário macroeconómico mais optimista, com o crescimento do PIB empolado à medida para acomodar promessas simpáticas para os principais nichos eleitorais que procura conquistar: pensionistas, funcionários públicos e jovens.
O programa do PS também sobre do mesmo mal – otimismo e cegueira em relação ao novo contexto económico internacional – mas, apesar de tudo de forma bastante mais moderada. Neste caso, o aviso de Passos tinha um alvo bem definido, e era o anfitrião que, atrás de si, esperava para irem almoçar.
“Nunca está satisfeito”. Como lhe competia, Luís Montenegro desvalorizou os recados de Passos, e deu a volta com pundonor. Leu nos alertas de Passos “sobretudo a expressão daquilo que é a essência do PSD. O PSD é um partido confiável, que assegura estabilidade e a interpretação da vontade política do povo, e, ao mesmo tempo, nunca está satisfeito, no sentido em que quer a transformação, o reformismo, a projeção do futuro.” As palavras “projeção do futuro” numa frase em que o referente é Passos parecem um exagero. Mas num ponto Montenegro acertou: Pedro-vem-Passos-aí-Coelho-o-diabo “nunca está satisfeito”. Sendo o mais jovem ex-líder na mesa (tecnicamente, o único sem idade para a reforma), tornou-se aquele tio que rezinga com tudo (isto, para tomar como boa a metáfora de Marques Mendes, que disse que ia a um almoço de família porque “as famílias comemoram os aniversários”).
O Luís a trabalhar na contra-reforma. O mal-estar entre Luís Montenegro e Pedro Passos Coelho não é novo. Ainda na segunda-feira, no debate das rádios, Montenegro garantiu que “isso não existe”, sendo “isso” uma suposta nostalgia na direita e no PSD pelo regresso de Passos Coelho. E há uns tempos Passos admitiu que, para se afirmar politicamente, Montenegro esteja a tentar “matar o pai” (esta expressão cruza mitologia e psicanálise, não é preciso chamar a polícia). “A mim, parece-me que foi muito evidente nos últimos tempos que houve essa preocupação de [Montenegro] tentar desligar [do seu legado passista]”.
Porque, lembrou Passos, Montenegro é um produto da sua escola: “Ele realmente foi um grande líder parlamentar [durante o Governo de Passos]. E foi aí que nasceu a possibilidade de ele criar condições para fazer o caminho para poder vir a ser líder do PSD. Portanto, ele faz parte dessa herança e desse legado.” Sim, Montenegro foi um dos leais soldados de Passos quando quase todo o PSD o era, mas agora quer arrumar Passos na galeria dos ex-líderes, e livrar-se da tralha passista. E está a fazê-lo a todo o vapor.
Se Passos Coelho viu na troika a oportunidade de fazer “reformas estruturais” (chamemos-lhes assim por caridade), cortando despesa do Estado com as pensões, castigando funcionários públicos e acicatando contra eles os trabalhadores dos privados, convidando os jovens sem perspetiva de emprego a sair da sua zona de conforto e a emigrar, Luís Montenegro tenta hoje desfazer-se e desfazer toda essa herança tóxica.
A contra-reforma em curso, que visa reconciliar o PSD com esses setores do eleitorado que decidem maiorias, tem passado por aumentar pensões, até com brindes “extraordinários” porque “a evolução da economia o permite” (não será assim, como disseram os dados do primeiro trimestre deste ano), “revalorizar” 19 carreiras da função pública às quais Passos tinha posto o garrote, e dar borlas fiscais aos jovens (pelo menos, a alguns), para tentar retê-los na pátria. Tudo isto tem custos.
Afinal, António Costa e a geringonça não foram assim tão longe nas reversões das políticas passistas-troikistas – tiveram um travão chamado Mário Centeno. Montenegro e o seu Miranda Sarmento, que tem os travões avariados, estão a ir mais longe no desmantelamento das ruínas do passimismo. Passos sabe disso e foi ontem dizer que está atento.
A foto. Dito isto, a foto de Luís Montenegro à mesa com oito ex-líderes do PSD dá, para dentro do partido, uma inegável imagem de poder e união. Resta saber se os eleitores em geral queriam ser lembrados de que Santana Lopes, Luís Filipe Menezes, Manuela Ferreira Leite ou Rui Rio em tempos dirigiram este partido, com resultados eleitorais sofríveis ou desastrosos (os que chegaram a ir a legislativas, o que não sucedeu com Marques Mendes e Menezes). E o eleitorado quererá mesmo um atestado de idoneidade ética e moral a Luís Montenegro passado por Cavaco, o líder de uma década em que a corrupção campeou no país, tendo o próprio Cavaco lucrado muito com umas misteriosas ações da SLN (ligadas ao BPN e a Oliveira e Costa)? O Cavaco que deu todas as garantias sobre o BES em vésperas do BES colapsar? Quizás, quizás, quizás…
Dez dias de solidão. A fartura de ex-líderes à roda de Montenegro contrasta com a penúria de apoios de peso na campanha de Pedro Nuno Santos. É verdade que Costa está no Conselho Europeu, Guterres está na ONU, Sócrates está a fazer manobras dilatórias para não ser julgado e só sobram, de ex-líderes socialistas, Vítor Constâncio, Ferro Rodrigues e António José Seguro – de todos, o mínimo que se pode dizer é que provavelmente não arrastam multidões.
Há mais baronato socialista, claro, e podem ser úteis se Pedro Nuno quiser mostrar que lidera um partido unido, ainda que a unidade seja postiça. Mas as coisas são como são: a solidão de Pedro Nuno resulta, antes de mais, da perspetiva de derrota. Os líderes que conduzem campanhas que cheiram a derrota são sempre, sempre, líderes solitários. Pedro Nuno não é diferente.
A alegria da pequenada. Com tudo isto, ficou para último plano o alegre debate televisivo de ontem, o último, feitos com os últimos: os partidos sem representação parlamentar. Estes debates, conduzidos com a mestria de sempre do Carlos Daniel, nunca desiludem. Ontem não foi excepção. Houve de tudo.
Trumpismo tuga. “Nem mais um cêntimo para estrangeiros enquanto houver um português com fome. Nem mais um euro para cidadãos imigrantes enquanto existir idosos a passar frio e fome em Portugal. Portugal aos portugueses e sempre os portugueses primeiros” (Joana Amaral Dias, que em tempos foi de esquerda e agora é do partido ultra-nacionalista ADN).
Poesia. “Há um conjunto de ilhas que compõem Portugal no seu todo”, na versão lírica de Filipe Sousa, do partido madeirense JPP, que vê ilhas nos jovens, ilhas nos idosos e ilhas na classe média.
Refrigério. “É impossível que as famílias continuem a crescer e a progredir se não houver ajuda do Estado”, afirmou Júlio Ferreira, que estranhamente representava a Nova Direita, um partido que se diz de direita e conservador. Para além de ser de uma direita que quer mais ajudas do Estado, é um conservador que não discrimina as famílias homossexuais, pois “família é família”.
Viagem no tempo. “Quem toma as decisões em Portugal é Bruxelas e Washington, por isso o que se tem de fazer é a revolução comunista”, afirmou João Pinho, do PCTP-MRPP. O mesmo João Pinho tinha avisado, num fulgor de sinceridade, que este ano “não há nenhuma novidade especial em relação às nossas propostas do passado”.
Teorias da conspiração. “Os portugueses estão a ser escorraçados da sua terra. (...) Há um conjunto de pessoas que não são portugueses, que nos odeiam, e controlam o poder político.” – Rui Fonseca e Castro. Sim, esse.
Forças tenebrosas. “Há questões gravíssimas no país que foram encobertadas (sic) pelo poder judicial, há muitas forças tenebrosas que estão a impedir estas investigações”, disse Raquel Coelho, do PTP, falando das investigações judiciais aos políticos.
Desinformação. A mesma Raquel (o Coelho é da parte do pai, José Manuel Coelho, ex-candidato presidencial) está convencida de que os dois últimos primeiro-ministros caíram por “estarem acusados de crimes no exercício de funções” – não estão.
Inovação. “Precisamos de mais bebés. Não de imigrantes, mas de bebés portugueses”, Joana Amaral Dias, aventurando-se nos terrenos novos do racismo neonatal.
Desilusão. “Ainda hoje estive no Martim Moniz e não esteve nenhum órgão de comunicação social a acompanhar a ação de campanha”, lamuriou Paulo Estevão, do PPM. Talvez por ser dos Açores, Estevão julgará que há jornalistas de plantão no Martim Moniz para o que der e vier. Em todo o caso, pode juntar-se a Rui Fonseca e Castro, que fará no Martim Moniz o comício de encerramento do seu partido e quer ver “quem é que me vai impedir” – provavelmente ninguém.
Faltam 11 dias para as eleições.