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Folhetim de voto | A campanha que ninguém pediu… e ninguém quer fazer (exceto o Goucha e a Júlia)

21 abr 2025, 16:18
Pedro Nuno Santos e Manuel Luis Goucha

Arranca hoje o Folhetim de Voto, uma coluna de análise e opinião diária que regressa com as eleições, assinado pelos jornalistas Filipe Santos Costa e Pedro Santos Guerreiro, que alternam entre esta rubrica e outra também diária, o Bestiário. Manuel Luís Goucha e Júlia Pinheiro são os protagonistas inesperados de hoje, depois das entrevistas aos líderes da AD e do PS nos chamados “canais abertos”. Faltam 27 dias para as eleições

OS UNIDOS DO CONTRA.  Falta menos de um mês para as eleições e, segundo a agenda da Lusa, para esta segunda-feira estão programadas duas ações (2!!!) de campanha eleitoral: os dois debates agendados para hoje, na RTP e na SIC-N. Como ninguém debate sozinho, isto significa que hoje alcançamos o impressionante número de quatro (4!!) líderes partidários a fazer campanha eleitoral em estúdio: Pedro Nuno Santos, Paulo Raimundo, André Ventura e Mariana Mortágua…. durante meia hora, o que dá cerca de 15 minutos a cada um (menos no caso de Ventura, que como fala por cima do adversário, fala sempre mais). Deve ser uma estafa.

Parece pouco, mas tudo indica que é mais do que os próprios querem fazer e muito mais do que o país quer ver. Aparentemente o desinteresse coletivo por estas eleições (que se mede na quase inexistência de ações de campanha mas também na descida, embora ligeira, das audiências dos debates) envolve votantes e candidatos. Parecendo uma coisa má, tem pelo menos um lado positivo: por uma vez não há um divórcio entre políticos e eleitores. Estão todos na mesma onda. Ninguém quer realmente saber. 

 

GRI-GRI... GRI-GRI...  Por isso se compreende que se passem dias e dias sem campanha que se veja para além dos debates televisivos. Nos últimos três dias, em que os debates entraram em abençoada pausa pascal, foi o silêncio total e absoluto. Foi bom em geral, embora seja mau para esta crónica em particular.

 

MAIS UM DIA BANAL DE PROPAGANDA.  Afinal, ninguém pediu estas eleições. Ou melhor, pediu-as o Governo, com uma moção de confiança que sabia que seria chumbada. Essa responsabilidade talvez levasse o executivo a empenhar-se um bocadinho mais na contenda – mas, até agora, só temos visto o dia a dia normal de um Governo que vive em campanha eleitoral permanente desde o momento em que tomou posse, utilizando tudo para croquetes, ou, no caso, para propaganda. Luís Montenegro não se cansa de mencionar as 19 carreiras da função pública que passaram a ganhar mais graças a este Governo de apenas 11 meses – não vá dar-se o caso de se esquecerem da mão que lhes dá o aumento. E a cada oportunidade enumera os apoios sociais que reforçou, os beneficiários que aumentou; enfim, todas essas coisas horríveis que o Governo anterior fazia e a que Montenegro chamava compra de votos, clientelas eleitorais e subsidiodependência, mas que, mal se viu no poder, tratou de aumentar, para – dizem – reconciliar o PSD com os eleitores mais velhos, aqueles a quem Passos e Gaspar fizeram as maiores patifarias e depois alavancaram as vitórias eleitorais de António Costa. Montenegro sabe do que a casa gasta, e gastou desde a primeira oportunidade.

 

A CAMPANHA DE CUCOS.  Hoje foi a ministra da Saúde a dar uso à tesoura de cortar fitas, a ver se com inaugurações se ergue das profundidades de impopularidade onde habita. Foi cortar a fita a um laboratório de investigação biofarmacêutica, uma unidade de transplante de medula óssea, e o novo edifício da unidade local de saúde da Arrábida. Desconheço a história destas obras em particular, mas tenho um dedo que adivinha e estou capaz de apostar que foi tudo decidido, programado e lançado pelo governo anterior. Se estiver enganado, aqui me chibatarei. Mas suspeito que não ando longe da verdade… Quem inaugura é o poder que está de turno quando a obra fica pronta. Feliz do Governo que herda do antecessor tantas casas, e unidades de saúde, e lares, e empreendimentos em geral para inaugurar em pré-campanha eleitoral. Uma espécie de campanha de cucos, que também são avezinhas de deus. 

 

É FAZER AS CONTAS.  Por falar em saúde, aconteceu ontem um pequeno mas instrutivo bate-boca sobre a escandalosa e recorrente prática de encerrar urgências (sobretudo de obstetrícia e maternidades) aos fins de semana e particularmente em fins de semana assinalados. Só ontem, dez urgências estiveram encerradas. Consta que no sábado, foram seis (um dia feliz, portanto – não é à toa que se chama Sábado de Aleluia).

Fernando Araújo, primeiro diretor-geral do SNS, contratado no tempo de António Costa, veio dizer que o rei vai nu, o que é sempre oportuno em período pascal, sobretudo para quem seja fã do Antigo Testamento. Araújo é agora o cabeça de lista do PS às legislativas pelo círculo do Porto, pelo que as suas declarações devem sempre ser lidas com o distanciamento necessário quando se sabe que está a falar em interesse próprio. Mas neste caso, era mesmo só uma questão de números, facilmente demonstrável e comprovável: Araújo alertou que o número de urgências fechadas nesta Páscoa é o dobro do que se verificou no ano passado, e que a situação é “preocupante”. Segundo a TVI, “se olharmos para os números, de facto este ano há o dobro dos serviços fechados”.

 

O FUNDO DO TACHO.  Como nos últimos quatro anos vivi do outro lado do mundo, e regressei muito recentemente a Portugal, houve alguns pequenos detalhes que me escaparam. Um deles foi Álvaro Almeida. Não me tinha dado conta de que o Governo já ia no 3.⁰ CEO do SNS, e que a senha n.⁰ 3 era do engenheiro Almeida, um quadro social-democrata sempre disponível para contribuir para a causa pública com a sua falta de brilho, como demonstrou no passado na Assembleia da República e na Câmara do Porto.

Álvaro Almeida pode ter sido a segunda escolha do Governo para o lugar de diretor-geral do SNS, o que faz dele o equivalente político àquela casquinha meio-queimada que se rapa no fundo do tacho, mas nem por isso defende a sua dama com menos desvelo (e há quem aprecie genuinamente o casquinho que se cola ao fundo do tacho). E foi (des)vê-lo a argumentar que esta Páscoa as coisas estavam bastante melhores do que no ano passado. “Estamos gradualmente a melhorar”, jurou, com óculos novos. É claro que dez urgências fechadas é melhor do que cinco urgências fechadas – mas só no universo paralelo onde Álvaro Almeida vive e foi contratado para funções públicas. Em todo o caso, como o SNS funciona “em rede”, “há sempre resposta do SNS e aquilo que asseguramos é que haverá um ponto da rede de urgências do SNS que responderá a todas as solicitações.” Traduzindo por miúdos: uma grávida que entre em trabalho de parto em Setúbal (onde a urgência estava fechada) será atendida, nem que seja no Hospital de São João. 

É reconfortante saber que, segundo Álvaro Almeida, “a Direção Executiva esteve a planear este fim de semana.” Como diria em tempos Luís Montenegro, o SNS está melhor, a experiência dos portugueses com o SNS é que ainda não melhorou. Felizmente a vergonha alheia não mata, pois as poucas urgências abertas corriam o risco de encerrar (e, só à cautela, convém também na abusar da capacidade de resposta do INEM).

 

MANEL & JÚLIA.  No deserto que tem sido a campanha eleitoral, dois oásis destacaram-se na semana passada, infelizmente em horários abstrusos em que os habituais consumidores de política estavam distraídos a queixar-se de não haver política para consumir. Na quarta-feira à tarde Pedro Nuno Santos abriu a alma a Manuel Luís Goucha, e na tarde seguinte Luís Montenegro disse a Júlia Pinheiro o que dizem os seus olhos. Foram duas entrevistas que recomendo (sem ironia).

"O LUÍS" E O CANDIDATO.  “Vamos receber o Luís Montenegro! Faça o favor de entrar!...”, anunciou Júlia Pinheiro, com pompa de corneta, mas quem esperava aplausos ficou à espera, porque nem uma palminha ressoou no estúdio – nem sequer daquelas enlatadas que é só carregar num botão. O PM entrou, com passo algo hesitante, envergando a típica farda informal da Geração X: calças de ganga, camisa branca e blazer navy, mas não hesitou na hora de responder ao primeiro dilema colocado pela apresentadora: “O que é que fazemos: um beijinho ou dois beijinhos?” “Eu… [e vai um beijinho] sou um português típico… [e vai outro] dois beijinhos”. “Muito bem, como sabe isto é muito revelador, não é?”, asseverou Júlia, referindo “um certo universo social”, mas sem desenvolver o assunto. Foi pena, porque talvez fosse a oportunidade de densificar (como dizem os professores de Direito) a questão do Luís-Montenegro-rural, em tempos levantada pelo Presidente da República.

Ainda a conversa estava a aquecer e, para além de sabermos que Montenegro é um português “típico” como o mocassim preto e meia preta que calçava, ficámos a saber que o convidado de Júlia, embora rural, é complexo e contém multidões, como escreveu o nobel Bob Dylan e o nosso Fernando Pessoa: é primeiro-ministro em exercício, é candidato a primeiro-ministro, é Presidente do PSD e é simplesmente “o Luís”, como em tempos houve uma simplesmente Maria. Júlia não estava ali para facilitar e foi direta às questões ontológicas, exigindo saber com qual daqueles vários cavalheiros iria conversar. 

“Hoje, aqui, está em que pele?” 
“Eu acho que estou como Luís, porque é aquilo que é suposto, não é? Falar um pouco também de uma faceta não só política, pessoal, mais transversal.”

 

“Porque é que está aqui hoje?”, disparou Júlia, sem largar o osso das questões que nos determinam a existência.
“Para já, estou aqui porque fui convidado, e agradeço. E porque acho que também é importante que as portuguesas e os portugueses nos possam ouvir falar não apenas em politiquês.”

Estava resolvido o mistério que nunca o foi: Montenegro estava ali como líder do PSD e candidato a primeiro-ministro, em campanha eleitoral, para vender o seu peixe. No caso, o peixe era o “Luís”, o seu alter-ego programado para não falar em politiquês.

Do ponto de vista do arranque da conversa, a de Manuel Luís Goucha com Pedro Nuno Santos começou com bastante menos emoção. Não houve a pífia entrada em estúdio (Pedro Nuno já estava sentadinho no seu lugar de entrevistado, de mãos cruzadas, casaco e gravata, sem saber para que câmara olhar, pronto para ir a exame), e não foram alimentadas dúvidas ontológicas sobre quem era aquela pessoa com quem Goucha iria conversar: o apresentador destrunfou à partida que se tratava de “Pedro Nuno Santos, secretário-geral do Partido Socialista e candidato a primeiro-ministro”, pelo que era possível que se falasse politiquês. Ou não…

THE LILI CANEÇAS ISSUE.  Apesar da simplicidade do lançamento, o primeiro tema da conversa de Goucha com o líder da oposição foi Lili Caneças, o que significa que os temas sumarentos e que realmente importam às pessoas estavam engatilhados para o bloco a seguir a um anúncio de implantes dentários sem planos de carência. Parece que a socialite acha o socialista demasiado carrancudo e zangado (tendo em conta o sorriso que usa permanentemente afivelado, é natural que ache isso de toda a gente que não frequenta as mesmas festas e as mesmas mesas de cirurgia). Mas Pedro Nuno aproveitou para explicar que lhe acontece muito: as pessoas acham-no tenso e carrancudo, na campanha de 2024 passou essa imagem, mas na verdade ele também gosta de rir e até foi eleito Mister Simpatia no ISEG. Depende. “Nós somos também muitas vezes o produto das nossas circunstâncias”. 

“Ao longo da vida vamos amadurecendo. Há coisas que eu fazia quando tinha vinte anos que não faço agora que tenho 48. Vamos ao longo da vida evoluindo, amadurecendo. (...) Eu acho que levava [o papel de líder do PS] demasiado a sério, colocava-me muito à defesa no confronto político, hoje encaro-o de outra maneira, com mais leveza.” Estava passada a mensagem: no fundo, Pedro Nuno é um gajo porreiro com quem podemos ir beber umas cervejas; se ele parecer carrancudo é porque está a pensar quem vai pagar a conta, que reflexo isso terá no défice, e a quem deve mandar um WhatsApp sobre isso.

RINDO POR FORA, CHORANDO POR DENTRO... OU O CONTRÁRIO.  E vamos a ver, também Luís Montenegro sofre do mesmo mal de Pedro Nuno, mas ao contrário. Enquanto o socialista franze o sobrolho, o social-democrata está sempre sorridente. O que, admitamos, pode ser um problema. É seguramente um problema, quando a situação leva a entrevistadora a perguntar se o entrevistado costuma sorrir em funerais… Júlia fez mesmo essa pergunta. Mas, antes, lançou a questão com mais tacto:

“Às vezes quando o vejo, com o seu sorriso, o seu sorriso é ótimo, distendido, às vezes quando o vejo dá-me a sensação de que não vê o mesmo país que eu vejo, parece que tem uns óculos cor-de-rosa.”

Montenegro, que sabe que o seu “sorriso ótimo” pode ser um problema, respondeu que, “sobre o sorriso, e agradeço essa menção, porque é uma das minhas maiores mágoas.” Olhando Júlia com os seus olhos azuis, sorrindo um sorriso que escondia uma grande mágoa, Luís explicou-se: “Eu quero que as pessoas saibam quem eu sou, como é que eu penso, e como é que vivo a minha vida. Eu tenho de facto um sorriso que, para quem não me conhece, pode ser mal interpretado, pode ser quase de gozo, de desvalorização, sobranceiro, matreiro até. Eu quero dizer às pessoas: façam um esforço para me reconhecer que isto é uma coisa mesmo natural. Eu até sorrio às vezes a falar de coisas sérias, não é para desvalorizar as coisas, é porque é uma força de expressão. Não consigo evitar isto. Os meus assessores dizem: é preciso disciplinar-se. Mas eu tenho muita dificuldade em deixar de ser como sou porque isto está mesmo dentro de mim. Eu se for de outra maneira, aí sim, estou a ser de plástico, não estou a ser autêntico.”

E para provar que era autêntico, na resposta seguinte, sobre um tema qualquer, soltou duas vezes a expressão “que diabo!”, que deve ser uma coisa muito autêntica em Espinho.

ISTO CUSTA MUITO... AOS OUTROS.  Se Pedro Nuno e Luís se queixam de problemas inversos na sua mensagem facial, ficámos ainda a saber que partilham uma inquietação: a preocupação com a família e os amigos, e o impacto das suas opções políticas sobre esses seres inocentes que sofrem devido a escolhas que não fizeram. 

O socialista reconheceu que o protagonismo político acabou por o obrigar a expor o seu círculo mais pessoal, algo a que começou por resistir. “Eu durante muito tempo achava que a vida privada era irrelevante para o exercício da função política, mas não é verdade. Porque a forma como nos relacionamos com os nossos amigos, com a nossa profissão, com a nossa família, diz muito também da forma como nos relacionamos com as pessoas que trabalham connosco, com os portugueses.” João Galamba talvez tenha uma ou duas ideias sobre este assunto.

Já o social-democrata confessou a Júlia que “a coisa que mais me custa na minha dimensão política e pública é o impacto que isso causa nas pessoas que me são próximas, nomeadamente na minha família, porque é um preço muito elevado. Aquilo que mais me preocupa é o futuro dos meus filhos.” Montenegro até acrescentou que o filho mais velho, um gestor em início de carreira, coitado, já vê “muitas pessoas que lhe estão a fechar as portas”, só por ser filho de quem é – da única vez que vi o moço, os olhos azuis e o sorriso pareciam capazes de lhe abrir muitas portas. Quanto ao filho mais novo, já topou tudo: “Já percebi que vou ter de sair de cá”. Talvez as coisas não ganhassem tal dimensão se o pai e marido extremoso não tivesse passado para nome da mulher e dos dois filhos uma sua empresa que continuou a render avenças quando Luís Montenegro já era primeiro-ministro. É só um palpite.

QUASE QUASE.  Mas, enfim, quem nunca cometeu os seus pecadilhos? Pedro Nuno fez coisas aos vinte anos que não faz aos 48; o Luís fez coisas aos 48 que não repetiria aos 52. Afinal de contas, o Pedro e o Luís são humanos, e estão a amadurecer, que a Geração X, ao que parece, é uma estirpe que amadurece mais tarde. Se não acreditam, vejam-nos nos programas de entretenimento da tarde. Parecem quase quase quase genuínos, que diabo! Só não conseguem deixar de falar politiquês. A língua de pau é mais forte do que eles. Ainda mais forte do que sorrir a despropósito ou carregar o sobrolho por instinto.

 

Leia aqui o Bestiário.

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