Folhetim de voto | Uma campanha que é um espetáááááculo!

15 mai 2025, 07:30
Luís Montenegro em Espinho (MIGUEL A. LOPES/LUSA)

Montenegro canta, salta, nada, joga vólei; Pedro Nuno anda de mota, conhece a Lili Caneças e tem de enfrentar uma Joana Amaral Dias. A campanha é cada vez mais um espetáculo de variedades. Menos para Gouveia e Melo, que não precisou de fazer figuras tristes para fazer triste figura

Um dia, nos alvores da democracia, o Expresso (leia-se: Marcelo Rebelo de Sousa) teve acesso ao programa de um fim-de-semana de Mário Soares, secretário-geral do PS, no Alentejo. Soares era reconhecido como um animal político, uma máquina de campanha capaz de uma surpreendente espontaneidade. O programa, publicado pelo Expresso, era detalhado e previa, entre outros pontos:

“Dia 17, 11h50: Passagem por Borba, concentração de socialistas junto à sede, visita à sede e dez minutos para secretário-geral beber um café e dizer duas palavras.”

“12h50: Chegada a Elvas, Mário Soares fala na sede concelhia, dá uma volta a pé e toma café.”

“Dia 18, 22h30: Mário Soares chega a Samora Correia, permanece 45 minutos, fala, come e dança.”

Imagine-se o desgosto dos militantes socialistas de Borba e Elvas ao descobrirem que Soares não tomou café com eles por lhe apetecer, mas porque estava no programa, e os de Samora Correia ao saberem que não foi a gastronomia da terra ou a alegria local que puxaram Soares para um repasto e um pé de dança. Era tudo por dever de agenda. Tudo planeado. E estávamos nos anos 70. O que se “avançou” de então para cá na política-espetáculo.

(É claro que nalguns momentos Soares se dava a liberdades fora do guião, como quando saiu do carro e desatou a beijar toda a gente que o esperava, sobretudo mulheres e crianças, e acabou a beijar um anão, que não achou graça a ser num adereço na beijoquice soarista.)

 

Viva o engraçadismo. Não é de hoje a tendência dos políticos em campanha para fazerem ações mais ou menos espetaculares/absurdas/patetas que puxem para o seu lado os holofotes da comunicação social. Cavaco e Eanes mostravam a sua boa forma física subindo para o tejadilho de viaturas quando tinham banhos de multidão, e só isso era notícia (Cavaco também trepou um coqueiro, mas não foi em campanha, por isso não conta neste campeonato. E Soares cavalgou uma tartaruga, mas nesse caso a façanha foi da tartaruga). 

Marcelo, o verdadeiro e inimitável one man show, atirou-se ao Tejo, conduziu um táxi e fez recolha de lixo durante uma noite na sua mais louca campanha, nas autárquicas de 1989, em Lisboa. E isto quando só havia um canal de televisão. Agora, que a competição é feroz entre os canais 24h/dia, a campanha espetacularizou-se como nunca. Como escrevia ontem a Ana Sá Lopes, “o ‘engraçadismo’ tomou conta desta campanha. Os líderes dos principais partidos estiveram mais disponíveis para dar entrevistas a todos os programas de entretenimento e todos os programas de humor e limitaram ao máximo as entrevistas à imprensa”.

 

Tiro no porta-aviões. Curiosamente foi a boa velha tradição de fazer declarações políticas sérias à imprensa de referência que marcou as últimas horas, animando o final de campanha. O caso envolveu o almirante Gouveia e Melo e a Rádio Renascença. Nem o facto de envolver um Almirante e uma rádio respeitada tornou o episódio menos absurdo/pateta. Gouveia e Melo deu uma entrevista para anunciar que anunciará no fim do mês aquilo que já toda a gente sabe: será candidato presidencial. O “anúncio oficial” será no dia 29, e o anúncio do anúncio oficial foi ontem. 

A única novidade do anúncio é ficarmos a saber que Gouveia e Melo é tão capaz de faltar à palavra dada como qualquer outro político. Tinha prometido que nada revelaria sobre o seu tabu presidencial (bocejo!...) até acabar o processo das legislativas. "Não quero contribuir nesta fase para um ruído que acho que é desnecessário na altura em que estamos concentrados nas eleições legislativas", disse Gouveia e Melo. Tão perto da meta, faltou à promessa. De forma nada surpreendente, será candidato, quando antes tinha feito uma daquelas juras tremendas de que a politiquice está cheia: “Se isso acontecer, deem-me uma corda para me enforcar.” 

O que revela duas caraterísticas muitos relevantes sobre o provável futuro Presidente da República: não tem noção de timing nem de ridículo. E nem precisa de estar em campanha para fazer asneira. E muito menos de ir a programas de entretenimento para provocar vergonha alheia. Só nisso parece diferente dos outros políticos.

 

Tiro ao jornalista. No processo em curso de substituição da política pelo engraçadismo e dos jornalistas pelos reis do entertainment, o ponto alto foi quando Luís Montenegro censurou um jornalista da SIC por lhe fazer uma pergunta sobre a Spinumviva (para quem já não se recorde: a razão por que estas eleições e esta campanha existem), argumentando que “ainda ontem estive na SIC e até respondi a questões à volta disso”. 

“Ainda ontem” Montenegro tinha estado no programa de humor de Ricardo Araújo Pereira. Que lhe perguntou se Montenegro não estará com “problemas na próstata, porque tem revelado os clientes da Spinumviva às mijinhas”. O líder da AD deu “quase a certeza” de que não tem problemas na próstata. Sobre a Spinumviva, nada. Para Montenegro, bastava e sobrava. Pudera.


Breve resenha para memória histórica. Com a campanha a dar as últimas, aqui fica uma lista, não exaustiva, de inesquecíveis momentos de campanha “para o boneco”. Luís Montenegro foi à praia jogar vólei com amigos, de calções e mangas cavas, e aproveitou o dia escuro e a água fria da Praia Azul para dar um mergulho e mostrar-se ao país em tronco nu (leitura política: está em melhor forma e menos peludo do que Marcelo Rebelo de Sousa, que também se põe em calções sempre que pode). 

Rui Rocha também foi à praia jogar vólei, mas não se despiu nem mergulhou. Rui Tavares foi à mesma praia (Carcavelos), mas não jogou vólei, nem mergulhou, nem se despiu; mas tirou o casaco e arregaçou as mangas da camisa, que para ele deve ser o cúmulo da ousadia. Ena! Inês Sousa Real também dedicou um tempinho ao desporto – no caso, ao andebol feminino. Mas limitou-se a ver um jogo em Paredes. Mariana Mortágua jogou Minecraft, mas foi só uma desculpa para falar das suas políticas de habitação e transição verde.

 

Motoqueiros e ciclistas. Pedro Nuno Santos fez um dos percursos da campanha de mota, devidamente equipado e com um look muito cool. No dia seguinte, André Ventura não resistiu a parecer igualmente cool, e chegou a uma ação de campanha de mota. Mas à pendura, porque não tem carta de mota, e com ar de quem estava no limite do stress. O desporto radical preferido do líder do Chega não é sobre duas rodas, mas no meio de uma roda de seguranças: quando está a uma distância q.b., rodeado de gorilas da sua guarda pretoriana (calma, pessoas do Chega, não tem nada a ver com preto), vira-se para os grupos de ciganos que têm protestado contra o racismo do Chega, bradando “racistas são vocês!”. Mas sempre naquele quentinho de quem sabe que ali ninguém lhe toca.

Rui Tavares, em nome da descarbonização, não montou uma mota, mas uma bicicleta, para fazer um percurso junto ao Tejo. Rui Rocha também montou uma bicicleta, mas não saiu do mesmo sítio, ao pé de um cartaz onde se lia “Portugal precisa de mais pedalada”. Ele pedalava… e… pedalada, perceberam? [e saem umas gargalhadas enlatadas como nas velhas sitcoms]. Mariana Mortágua, ao contrário do líder da IL, deu corda às sapatilhas numa corrida do BE, e, também ao contrário do líder liberal, chegou a algum sítio.

 

Mestre de culinária. Rui Rocha, apesar de desempoeirado e liberal, tem-se empenhado na gastronomia tradicional portuguesa – abriu ostras no Mercado de Setúbal e foi a Aveiro fazer ovos moles, concluindo que “o partido tem as pessoas, os ingredientes e a visão certa para o país”, mas precisa de “um fogão maior”, o que deveria ser uma metáfora de mais votos. Rui Rocha não só é bom em metáforas, como fala de si na terceira pessoa, um talento que se julgava exclusivo de jogadores da bola: “O Rui Rocha está convencido de que vai crescer”, dixit.

Pedro Nuno Santos também foi ao Mercado de Setúbal mas teve menos sorte do que Rocha – não é que tenha apanhado uma ostra estragada, mas apanhou uma adversária política azeda: o frente a frente com Joana Amaral Dias por pouco não virou peixeirada. Mal por mal, já estavam num mercado. Houve um tempo em que  Amaral Dias fez uma campanha quase toda ao lado de Pedro Nuno, na última corrida presidencial de Mário Soares. Eram jovens, ela ainda era de esquerda e ainda não tinha descoberto que podia ser uma estrela do escândalo nas redes sociais. Esta foi a segunda vez que Amaral Dias emboscou um político famoso; antes já tinha feito o mesmo com Luís Montenegro. Nenhum lhe deu corda.

 

Nossa Senhora do SNS o acuda. Agora que sabemos que André Ventura está bem e continua “fortíssimo”, podemos salientar a mais espetacular, original e impactante iniciava de campanha nestas duas semanas. A 13 de maio, o homem que diz que foi escolhido pela Virgem “para salvar Portugal”, discursou a desancar no Hospital de Faro, falando de “caos” e de “macas nos corredores”, que o Governo só não via porque nunca ia ao hospital à noite. Tudo normal. Mas, como no bom cinema, esta iniciativa teria um dramático pay-off. Ventura sentiu-se mal num comício, ai meu deus que me dá uma coisa má, e teve de ser levado de urgência… para o Hospital de Faro. Ficaria provada a tese do caos e do mau serviço prestado pelo SNS? Não. Nem era caso grave, mas Ventura passou à frente de toda a gente e ficou internado num quarto privado na Unidade de Cuidados Intensivos. O mesmo Ventura que, há umas semanas, tinha acusado Montenegro de receber tratamento de privilégio quando precisou de ser assistido no Hospital de Santa Maria… 

Numa demonstração de cara de pau que o coloca na pole position para próximo líder do Chega, o líder parlamentar Pedro Pinto explicou que não havia contradição nenhuma, porque o doutor Ventura é um líder partidário “especial, porque é ameaçado nas ruas.” Por isso teve o tratamento VIP que critica aos outros: “Não podem querer que André Ventura vá para uma cama onde ao lado esteja, por exemplo, alguém de etnia cigana.” Tem toda a razão: ninguém merece, num momento de aflição, ainda levar com André Ventura na cama ao lado.

 

Álcool, cantigas e voo livre. Pedro Nuno Santos meteu-se na ginginha e no moscatel, Rui Rocha botou abaixo uma imperial de penalti, mas nenhum ultrapassou a façanha de Mariana Mortágua que, no podcast do comediante Guilherme Geirinhas, se submeteu a uma prova cega de cervejas e acertou em tudo. Nos bons velhos tempos de Jerónimo de Sousa, talvez pudéssemos ver o líder comunista numa prova cega de Brandymel e produtos aparentados. Com Paulo Raimundo, o máximo de política espetáculo é o secretário-geral a posar para selfies. E genuinamente admirado por haver quem queira uma selfie com ele.

Rui Tavares não só se deixou fotografar com completos estranhos como parou, numa feira, para fotografar galinhas que lhe eram completamente estranhas. 

Montenegro sabe as letras de Tony Carreira, e fez um dueto com o famoso cantor romântico, em São Bento, pago por todos nós. Mas, numa entrevista também em São Bento para o Geirinhas, mostrou que não sabe coisas básicas da vida como fazer par ou ímpar ou pedra, papel ou tesoura. Para compensar, sabe rodear-se das pessoas certas, e não o esconde. No comício a partir da varanda do Theatro Circo, em Braga, estava aos saltos ladeado por João Rodrigues, o candidato do PSD à autarquia bragantina. Até aqui, nada de especial. Mas Rodrigues é um dos "filhos" na Joaquim Barros Rodrigues & Filhos, a famosa gasolineira que era ao mesmo tempo uma excelente cliente da empresa Spinumviva, dos Montenegro, e um generoso financiador do PSD. E salta, Luís, e salta, Luís, olé.

Pedro Nuno Santos não cantou, mas encantou-se ao conhecer Lili Caneças. E dançou com velhinhas que se mexiam como novas (nenhuma era a Lili Caneças). Por falar nisso, Fernando Rosas protagonizou um videoclipe de música eletrónica com sampling de uma frase sua e com os seus suspensórios vermelhos, pronto para caçar fascistas. E Francisco Louçã respondeu à acusação (do Chega) de que não passava de uma bengala de Mariana Mortágua atirando-se de um avião a cinco mil metros de altitude.

Felizmente tinha paraquedas. O país é que não. 

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