O Chega vai dar à luz um governo-sombra para infernizar a vida à AD. E a Montenegro. Acaso não tenha reparado, bastou dia e meio após as eleições para o PGR exumar a investigação a Spinumviva. É preciso fazer o desenho?
Ventura agora mete medo. É impressionante ver o número de pessoas, sobretudo de esquerda, que desde as 20 horas de domingo dizem e escrevem que o Chega pode ganhar as próximas legislativas. A miúfa não chegou ainda à AD, que depois da vitória está sob o efeito eufórico de quem inspira oxigénio puro, mas lá chegará. Viu as notícias de ontem? Montenegro não terá descanso.
Bastou um dia e meio para perceber o plano de ataque de Ventura: o exército será um governo-sombra, a brecha do castelo será a corrupção, o grito de guerra será de que a AD também é de esquerda – e o alvo será o próprio Luís Montenegro.
Amadeu Guerra parece não saber como desembrulhar este presente sem estragar o futuro, mas as suas declarações indiciam que, ao contrário do que a direita quer impor como axioma, o caso Spinumviva não foi uma invenção política que morreu nas eleições. O PGR quer mais informações para uma averiguação preventiva que já devia ter acabado, o que no mínimo adia um arquivamento e no máximo sugere um inquérito, decisão que se exigia em dois dias e se arrasta há mais de um mês. Isso é válido tanto para Pedro Nuno Santos como para Luís Montenegro, mas o líder do PS já é farelo neste totobola. Sob a forma de processo judicial ou de comissão de inquérito, o tema percutirá a armadura do primeiro-ministro ao som do tambor do Chega no “país dos corruptos”.
Não se lincha um homem quando ele cai, como uma turba que antes levava aos ombros Pedro Nuno Santos agora covardamente faz. Coragem é criticar um homem quando ele está forte. Por isso escrevo já: Montenegro, que nunca devia ter tido uma empresa avençada enquanto era primeiro-ministro e a devia ter encerrado depois de rebentar a controvérsia, agarrou-se ao governo e à AD para se salvar, o que conseguiu nas eleições. Mas atrelou o destino do governo e da AD ao seu, e se o ovo mexido de agora um dia passar a ovo estrelado, ele será responsabilizado pelo resvalamento.
O que para a AD é agoiro, para o Chega é augúrio. Em 2019, quando foi ridicularizado por prenunciar que o Chega seria o partido mais votado dali a oito anos, Ventura estaria a contar com duas eleições legislativas. Talvez venham a ser quatro até ao seu triunfo da vontade. Para já, será um líder da oposição feroz, negociando diplomas com a AD e minando a sua governação e autoridade.
A AD irá virar inevitavelmente à direita, descerá impostos e pagará pensões extra este ano, mesmo se a economia não cresce o que se queria e a margem orçamental já não tem o que devia; apertará a imigração e endurecerá o discurso; e provavelmente cortará apoios sociais, primeiro porque as contas públicas o vão exigir, depois para captar parte do discurso Chega: será o “acabar com a mama” com outras palavras, talvez “cortar o despesismo”.
Mas há palavras iguais. “Procuraremos ser um farol de estabilidade”, disse ontem Ventura, equivalendo-se ao ufanismo de Luís Montenegro, que na campanha napoleonicamente de coroou como “o farol deste país”. Este par de faróis irá encadear-se um ao outro com o excesso de luz de dois governos, o governo AD que tem o poder executivo e o governos-sombra que terá o poder destrutivo.
Montenegro quis estas eleições mas não quer as próximas. Depois de apequenar a CDU, o PS e o BE, o Chega já rodou o alvo dos seus canhões. A AD não perde pela demora: deixa o Luís acordar.
PEDRO NUNO: AGORA É FÁCIL BATER. O espaço público está agora cheio de galarós aos pontapés ao líder caído. Nuns casos, é coerência. Noutros, é covardia. Quanto a nós, já havíamos escrito o que pensávamos: que ele é “um tempestuoso que se vê como um intrépido” e “quer ter o amplexo do herói que defende os fracos e corrige as injustiças do mundo”, num tempo em que “o cartão de crédito do sonho que reinterpreta o real para proteger a visão heroica esgotou o plafond”. Foi antes das eleições, aqui.
COSTA, AGORA É FÁCIL CULPAR. É outra das novas doutrinas, a de que o antigo primeiro-ministro é um dos responsáveis pelo descalabro do PS. Concordamos. E escrevemo-lo também antes das eleições, aqui: “António Costa, o homem que fez chorar as esquerdas e chover as direitas”.
BETOS E RAPPERS. “Lutamos com leões na cidade safari / Enquanto alguém que gere o povo manda vir um Ferrari”. Assim escreve Rapdiva, eleita pelo PS, uma das 44 novas caras na Assembleia da República. No extremo oposto do discurso está Ricardo Lopes Reis, que depois da morte de Odair Moniz escreveu “menos um criminoso… menos um eleitor do Bloco”. A lista inteira está aqui.
AS RAPIDINHAS DE MARCELO. Foram encontros “curtos, muito curtos”, mas correram bem, garante o Presidente da República. Mas foram só os primeiros: depois dos resultados da emigração, Marcelo voltará a reunir-se com os líderes da AD, Chega e PS.
O REDUTO DE MENDES. A eleição de Henrique Gouveia e Melo para Presidente da República “pode ser um risco enorme” e “um perigo para a democracia”, avisa o candidato Luís Marques Mendes. As próximas presidenciais vão ser um frenesim, sobretudo se Ventura se candidatar. O candidato da direita do regime (Mendes) e da esquerda do regime (Seguro?) contra o antiregime (Ventura?) e o de fora do regime (Gouveia e Melo). Muitos reis magos a caminho de Belém.
JOSÉ LUÍS, A PRÓXIMA VÍTIMA? “Apresenta-se como um tipo normal, sotaque nortenho, às vezes um ar de seminarista. Não é um carismático ou um predestinado. Mas são conhecidos os resultados do último carismático/predestinado que o PS escolheu”. O perfil escrito pelo Filipe Santos Costa está no Bestiário de hoje. A primeira entrevista de José Luís Carneiro como provável candidato foi à CNN e pode ser revista aqui.
MARIANA, DISPOSTA E DISPONÍVEL? “Estou disponível a ajudar o PS das mais diversas formas a encontrar um caminho que seja de união”, disse Mariana à SIC Notícias. Entre si e José Luís Carneiro, o costismo está de regresso.
VENTURA, HOJE À NOITE. Será a primeira entrevista desde as eleições. O líder do Chega estará esta quarta-feira à noite na TVI e na CNN Portugal. Nós, que estamos cá sempre, voltamos amanhã.