Folhetim de Voto | Não sabia? "A democracia pode estar em causa" (Manuela dixit)

8 mai 2025, 09:45
Marques Mendes com Manuela Ferreira Leite no almoço de aniversário do PSD (Lusa/ Miguel A. Lopes)

Continua a digestão do almoço dos ex-líderes do PSD. Aos reformados, voltou a ideia dos cortes do tempo de Passos. “Estamos noutra fase”, respondeu Montenegro, como que a “virar a página da austeridade”. E Manuela Ferreira Leite voltou às reflexões sobre a democracia. É ler para crer

Um dia depois de ter almoçado na sede do PSD, rodeada de ex-líderes do PSD e ciceroneada pelo líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, ex-secretária de Estado, ex-ministra, ex-líder parlamentar, ex-presidente e sempre-leal militante do PSD, veio defender o voto no candidato do PSD a primeiro-ministro. Lá diz o ditado que não há almoços grátis, mas em circunstâncias destas o pagamento pode ser, sei lá, a 30 dias, dá menos nas vistas. 

Numa entrevista à Rádio Observador, a ex-secretária de Estado, ex-ministra, ex-líder parlamentar e ex-presidente contou que o almoço da véspera foi “muito afetivo”, o que não custa nada a acreditar, tendo em conta as toneladas de ódios recíprocos que pesam nas relações entre os comensais.

 

Ai, a democracia!... Mas a parte mais interessante da entrevista foi quando Ferreira Leite refletiu sobre algumas questões que marcam a campanha e podem moldar o futuro da nossa democracia. Manuela, como o leitor bem se lembra, é uma teórica e, em simultâneo, uma amante da democracia – e só por pensar tanto no assunto e amar tanto a dita, se questionou uma vez “se a certa altura não seria bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia". É uma questão que continua por responder, e não se sabe se a ex-líder do PSD a lançou ontem para debate durante o almoço. Só para animar a conversa…

O facto é que Ferreira Leite parece ter evoluído no seu pensamento, e vê agora com preocupação a possibilidade de a nossa democracia estar em perigo. Não é um cenário teórico, diz, mas um real. Tentarei explicar o raciocínio. Não garanto que consiga. 

Tudo começa nas dúvidas éticas que se têm levantado pelo facto de Luís Montenegro, já enquanto primeiro-ministro, continuar a beneficiar de avenças da sua empresa familiar, aquela que ele fundou e depois passou para nome da mulher e, mais tarde, para nome dos filhos. Segundo Ferreira Leite, este não devia ser um tema de campanha (pudera!), porque “todos os órgãos decisores deste país” concordam que não há nada de criticável nem eticamente repreensível no caso Spinumviva, pois “ainda não houve nenhum tipo de acusação.” 

Em primeiro lugar, Ferreira Leite devia ir ao dicionário afinar o significado de “todos”. de “concordam”, de “criticável” e de “repreensível”. Ou da frase toda, se der menos trabalho. 

Em segundo lugar, Manuela usa a velha trapaça de que onde não há crime não há má conduta. E por defender isso, acha que o tema Spinumviva devia simplesmente ser obliterado da agenda.

… pode estar em causa. “Neste momento estamos em campanha eleitoral, vamos escolher um Governo, os argumentos que existem sobre Luís Montenegro ainda não surgiram. A única coisa que pode surgir é aquilo que ele promete que vai governar (sic). Só para isso é que temos eleições e só para isso neste momento é que serve a campanha eleitoral. Nós estamos a deturpar o sentido útil do voto e a democracia pode estar em causa. Temos de ter isso em consideração.”

Traduzindo: o único assunto de campanha devia ser o programa eleitoral do PSD (e tanto que haveria para dizer sobre isso, a começar pelo cenário macroeconómico…),pelo que discutir outras coisas é “deturpar o sentido útil do voto”, e “a democracia pode estar em causa”. Suponho que tenha sido com argumentos destes que líderes dos tempos dourados da democracia conseguiram resultados acima dos 90% em países como a Albânia ou a Roménia. Isso sim, eram democracias como deve de ser.

Não ocorre à doutora Manuela que o voto possa ter um sentido igualmente útil quando se escolhe, não quem governa, mas quem faz oposição. Ou ainda quando se escolhem partidos que podem governar mesmo não sendo os mais votados. Ou que o voto possa ser determinado por uma avaliação do caráter, dos atos e omissões dos líderes partidários (de todos eles, e não apenas de Luís Montenegro), independentemente do que estes escrevam nos programas eleitorais e debitem nos discursos. Que se possa votar por razões positivas, de adesão, mas também negativas, de rejeição. E que tudo isto seja a democracia a funcionar, e não a democracia em perigo. 

Democracia em perigo é querer decretar que temas podem ou não podem ser discutidos numa campanha, que argumentos podem ou não podem ser esgrimidos, sobretudo quando estamos em matéria de opinião ou a discutir assuntos envoltos em omissões, secretismo e meias-verdades.

Pensar fora da caixa. Em todo o caso, é sempre refrescante ouvir Manuela Ferreira Leite. Questionada sobre a avença do Casino de Espinho que continuava a chegar à empresa familiar dos Montenegro mesmo quando este já era PM, a entrevistada respondeu assim: “E se houver um primeiro-ministro que recebe uma avença do pai, porque o pai tem uma empresa e lhe dá uma avença todas as semanas ou todos os meses, isso já não tem mal?” Ora aí está uma pergunta que ainda ninguém tinha feito. Por boas razões.

Em todo o caso, é bom não esquecer que foi derrotada por José Sócrates dizendo a verdade sobre os perigos da demagogia socrática. Isto é um elogio, sincero. Por alguma razão ninguém a quis ouvir, o que talvez lhe tenha abalado a fé na democracia. São razões atendíveis. 

Da não repugnância. Questionada sobre eventuais alianças do PSD para formar uma maioria parlamentar, Ferreira Leite está satisfeita por Luís Montenegro “ter afirmado categoricamente que não é não” em relação ao Chega.

E a Iniciativa Liberal? “Não vejo nenhum motivo para que seja um partido cujas ideias possam criar alguma repulsa por parte das ideias da AD. Parece-me que é uma possibilidade que não me repugna.” A escolha de palavras mostra que o entusiasmo é palpável.

Apaguinho. Luís Montenegro, talvez por não ter ouvido as declarações tremendistas de Manuela Ferreira Leite, acha que são os seus adversários que andam “todos os dias zangados” e “aziados”. Ter um rádio de pilhas à mão é muito útil, e nem é preciso que haja um apagão. 

Pedro Papão Coelho. Ainda consequências do almoço dos chefes na sede do PSD. Parece que a aparição de Pedro Passos Coelho deixou sobressaltados alguns idosos e pensionistas que ainda não se esqueceram do que o Governo Passos lhes fez, com o apoio entusiástico de Luís Montenegro, que era então líder parlamentar do PSD. Escreve o Expresso: “No mercado do Livramento, em Setúbal, Luís Montenegro ouviu queixas de reformados que se queixavam dos cortes nas pensões do tempo da troika. Coincidência ou não, um dia depois de Pedro Passos Coelho ter estado ao seu lado, no almoço para comemorar o aniversário do partido.” Talvez o dito almoço, tão elogiado por tantos comentadores, não tenha sido uma ideia assim tão espetacular. Mas a vantagem da AD sobre o PS parece ser tanta que até se pode dar ao luxo de cometer erros não forçados.

Às preocupações dos reformados escaldados que de Passos têm medo, Montenegro mostrou-se compreensivo, mas deixou uma garantia: “Estamos noutra fase”. Lembrei-se de António Costa a prometer “virar a página da austeridade”. 

Eis a maior ironia desta campanha: sem uma mensagem clara de Pedro Nuno Santos, que ainda parece condicionado pelo fantasma de António Costa, Montenegro faz o pleno. Consegue ao mesmo tempo passar uma mensagem de “continuidade” em relação às políticas simpáticas do PS (gasta o superávit que recebeu de Fernando Medina com pensionistas, funcionários públicos e jovens), e de “mudança” em relação à austeridade do papão troikista. 

Pedro Passos Coelho foi à sede da Lapa exigir reformas, mas Montenegro responde com contra-reformas. E ainda alimenta “o monstro” da despesa com a Função Pública, que em tempos tanto incomodava Cavaco. Chapeau!

Pôr reformados a trabalhar. Não foi só Luís Montenegro que chamou para a sua beira as velhas glórias do partido. O Bloco de Esquerda fez o mesmo. Com propósitos diferentes: Montenegro só queria reconciliar-se com os reformados e pensionistas, dando-lhes um almoço; em troca, esperava aquele aconchego dos idosos que perdoam tudo ao delfim, até negócios obscuros e empresas familiares que colocam problemas éticos básicos. Rui Rio não foi na cantiga, Pedro Passos Coelho também não, mas ao menos Cavaco e Manuela Ferreira Leite lavaram-lhe os pecados.

No BE o regresso dos anciãos é outra questão. é mesmo tirá-los da merecida reforma e pô-los a trabalhar quando deviam gozar os seus dias dourados a ver o Goucha e a Júlia. O facto é que Francisco Louçã, Fernando Rosas e Luís Fazenda lá tiveram de descalçar as pantufas e vestir o fato de campanha, para acudir a Mariana Mortágua e à restante juventude que dirige o partido e que, sozinhos, parecem não estar a dar conta do recado (a julgar pelas sondagens que, mais décima menos décima, colocam o BE como lanterna vermelha da esquerda parlamentar).

Louçã é brat? Chamados de novo ao combate, os fundadores do BE foram confrontados com um problema comum às pessoas na sua situação: fazer novas aprendizagens para responder aos novos desafios do mercado. E eis que Rosas, Louçã e Fazenda protagonizam a banda sonora original da campanha do BE, com as vozes dos fundadores embrulhados em roupagens eletrónicas muito up to date. Segundo a Lusa, o primeiro ‘remix’ foi revelado no comício de quarta-feira à noite, em Leiria, com a voz de Fernando Rosas a entoar: “50 fascistas no parlamento? Não, não pode ser. Vamos à luta outra vez”.

Francisco Louçã será brat? Só saberemos a 13 de maio, quando o BE fizer o seu comício em Braga, por onde o ex-líder é cabeça de lista. E o remix de campanha vocalizado por Luís Fazenda será revelado no dia seguinte, no círculo por onde concorre, Aveiro.  

Ah!, o bom velho sectarismo. Para além de aprender novas competências, os fundadores do BE têm a oportunidade de fazer aquilo que mais gostam: zurzir na esquerda. É mais forte do que eles, são muitas décadas desectarismo, e burro velho não aprende línguas nem muda de discurso. Ontem à noite, em Leiria, Fernando Rosas matou saudades das boas velhas fraturas à esquerda, para saber quem é mesmo de esquerda e quem é burguês com pele de cordeiro, e garantiu “Não somos a esquerda de que a direita gosta”. 

No fim do dia, em particular no fim do dia 18, veremos qual é a esquerda de que os eleitores gostam.

Ousar sonhar. Alheio a estas bicadas, Rui Tavares mostra-se ousado. Sobretudo, ousa sonhar. Há dias, sonhava com ministros do seu partido, e diz que os tem de sobra para contribuir para uma coligação de esquerda que nenhuma sondagem faz antever. Mas, dirá Tavares, que eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida (ou será a outra esquerda que diz isto?... não pode ser património comum?... espero não melindrar nenhuma delas…). Ontem, Tavares acrescentou ao seu discurso outra ousadia, desta vez uma meta eleitoral: quer “ser maioria”, não apenas “ser nicho”. E isto vai lá por baby steps. Primeiro passo: “o Livre tem como objetivo, por exemplo, disputar o quarto lugar como partido à Iniciativa Liberal”.

Ousar mandar. Mas Rui Rocha não anda a dormir e também tem um sonho. Ou melhor, vários. apontemos dois, destacados ontem. Sonho nº1: “acabar com a doutrinação nas escolas”, que como sabemos é um flagelo que surge em todas as sondagens no topo das preocupações dos portugueses comuns. Sonho nº2: encher a a máquina do Estado de gente da IL. Quem nunca pregou contra o Estado, ambicionando, em simultâneo, atafulhá-lo de amigos e correligionários, que atire a primeira pedra. Para começo de conversa, Rocha diz que tem “quadros qualificadíssimos” para formar um Governo, com “pessoas e ideias para todos os ministérios”, recusando escolher qualquer pasta, porque “quer todas”. Quem diz que as campanhas eleitorais não são esclarecedoras?

E no fim… nada. Foram horas de excitação porque Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos estariam a fazer campanha à mesma hora na mesma cidade. Ontem, ao fim da tarde, em Évora. O que aconteceriam quando se cruzassem? Não se cruzaram. Foi um não acontecimento.

Decisão 25

Mais Decisão 25