Folhetim de voto | Coragem, portugueses, só vos falta uma semana!

12 mai 2025, 08:01
Luís Montenegro em Espinho (MIGUEL A. LOPES/LUSA)

Já temos um farol, motas na estrada e tinta verde. O que pode correr mal?

Já só falta uma semana, gentes de Portugal, uma semana disto. E isto é uma campanha que – é justo e preciso reconhecê-lo! – se proibiu às baixezas dos ataques éticos e debates diabéticos, e elevou os candidatos a emular o grande poeta Fernando António Nogueira Pessoa, e o seu heterónimo Álvaro de Campos: todas campanhas eleitorais são ridículas! E não seriam campanhas eleitorais se não fosse ridículas!

É nosso encargo estar e ver e ler tudo o que acontece na campanha para que não tendes vós, Fernandos e Ofélias de Portugal, tudo acompanhar. E aqui chegados podemos dizer-vos que perdereis muito se não verdes esta finalíssima semana, em que aparenta haver uma compita para provar que, ao contrário do que soe dizer-se, o ridículo não só não mata como muito aviva.

Montenegro chama as câmaras para o vermos a suar nas areias e a despir o tronco e pernas para o mergulho nas barbas de Neptuno; Ventura faz um discurso motivacional e convoca o leão que há dentro de cada um de nós; Pedro Nuno encapaceta-se e capacita-se com eias! num esquadrão de motas como se de uma gesta de cavaleiros que chegam de vitoriosa batalha. Isto não é bem uma campanha, é um espectáculo de variedades. 

Os candidatos a primeiro-ministro estão na meia-idade, é preciso compreensão para as suas crises particulares, mas é ainda assim surpreendente como passámos de no ano passado todos irem chorar à televisão para este ano todos empinarem as atratividades dos homens que são. Ou como terá dito Alexandre, o Grande certamente pressentindo as grandes exaltações animalescas de André Ventura, “Eu nunca tenho medo de um exército de leões liderados na batalha por uma ovelha”.

A uma semana do fim do campeonato eleitoral, o cume das frases pertence, no entanto, não ao produtor de ódios Ventura mas ao reprodutor de amores Montenegro. Ele - diz ele dele próprio - é o farol de Portugal.

O farol!

Barcos do meu país, naus dos nossos mares, navios sob estes céus: a salvo estamos. O mergulho no Tejo de Marcelo Rebelo de Sousa na campanha eleitoral de 1989 foi batido na história dos momentos de coragem; a corrida de António Costa de um Ferrari contra um burro foi ultrapassada nos episódios de rasgo – esta é sem dúvida a campanha mais superficial e burlesca de que pode haver memória.

E tão diferente da de há um ano! Em 2024 não foi apenas a choradeira nos programas de entretenimento que marcou o ritmo, havia por exemplo uma obsessão com as contas que hoje se extinguiu. Os partidos assumem todos crescimentos económicos e propõem todos descidas de impostos que só fazem sentido no papel de embrulho dos presentes de natal, mas disso nem se discute. Talvez porque as eleições que ninguém queria não sejam de facto sobre escolhas de políticas públicas, mas apenas um referendo a se o governo anterior se mantém ou não – e com que forças relativas. Educação, saúde, pensões? É só dizer “mais”. Impostos? “Menos”. Salários? “mais”. Corrupção? “Menos”. Justiça? “Mais”. Imigrantes? “Com regras”. Jovens? "Futuro". Idosos? "Respeito". 

Perante tamanha pobreza programática, apõe-se a riqueza do gesto, das danças, cantorias, arruadas, às cavalitas, aos pulos, acenando, rindo.

Fazemos assim: terminamos de novo com modernistas – com outro vulto do Orpheu, José de Almada Negreiros, a quem roubaremos descaradamente mais uma citação para fazer pandã com do início deste texto. É aquela célebre citação sobre o povo completo, que “será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos”. E apliquemos a frase aos líderes políticos desta campanha: Coragem, portugueses, só lhes faltam as qualidades!

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