Folhetim de voto | Temos farol, temos governo-sombra, temos garantia, temos PS, teremos "convergências alargadas". Portugal! Portugal!

22 mai 2025, 08:30
A entrevista a André Ventura na íntegra

Portugal tem tudo o que precisa para rumar ao futuro. Montenegro será o timoneiro, Ventura será o farol e a sombra, o PS será qualquer coisa e a esquerda fará “convergências alargadas”. Marcelo dá garantias. Aguiar-Branco senta-se. Ponde o cinto de segurança, concidadãos.

“Sem triunfalismo”, André Ventura deu ontem à noite a sua primeira entrevista como putativo líder da oposição (estatuto que ainda espera confirmação). Foi aqui, na TVI-CNN. “Sem triunfalismo”, Ventura retirou as suas conclusões das eleições de domingo: “As pessoas disseram isto: o PS e o PSD que se entendam e continuem a formar os seus governos de bloco central e de entendimento; há um novo líder da oposição, que tem o dever de fazer oposição e ser alternativa. É o Chega e sou eu.” Sem triunfalismo, claro.
Mais uma vez, Ventura interpreta a realidade à luz da sua entendida excepcionalidade: a teoria diz que quem derruba governos é penalizado, Ch e PS chumbaram a moção de confiança da AD, logo, previa-se a penalização de ambos nas urnas; mas isso só aconteceu a um deles. “Sem triunfalismo”, o Ch não só não foi castigado, cresceu, “superou todos os limites de votação e acabou com todas as sondagens”. 
Ventura, que diz que recebeu de Nossa Senhora a missão de salvar Portugal, diz agora que recebeu dos eleitores a confirmação dessa missão: “Os eleitores disseram ao Ch que esteve bem. Mas o ‘esteve bem’ não é ‘faça o que entender’, e não é entrar numa espiral de caos; é ‘seja responsável mas seja o líder da oposição’.”
Agora que é “o farol da oposição”, Ventura promete ser oposição ao Governo (AD), mas também à oposição (PS). Mas põe-se de fora de acordos com o Governo, precisamente porque é “o farol da oposição”. Fazer maiorias é lá com o PS. “Eles entendem-se há 50 anos, por que é que não hão de se entender agora?” 

À sombra do André. E como irá Ventura fazer tanta oposição? Sendo Governo. Para já, governo-sombra. “As pessoas desta vez deram ao Ch o mandato de ser a voz do ressentimento – e há muito ressentimento, eu também tenho ressentimento –, mas temos de ser também o partido que diz: quando este Governo cair, o Ch tem de estar preparado para Governar”. Porque, como a vida nos ensina, “os governos caem”.
Pouco confiante na capacidade executiva dos que o rodeiam, Ventura prometeu ir à sociedade civil buscar independentes, “pessoas com valor”, “que tenham currículo”, e dizer aos portugueses: estaremos cá para ser Governo. Nas “próximas semanas” Ventura pretende apresentar esse governo-sombra. É curioso notar que, ao contrário do Reino Unido, a figura do governo-sombra não é assim tão comum em Portugal. O PS de Guterres fê-lo, com pouco sucesso. Nesses tempos, um partido que também era visto como “partido de um homem só” tentou contrariar essa imagem desmultiplicando-se em rostos de ministros-sombra. Esse partido era o CDS. Diogo Pacheco do Amorim, um dos atuais ideólogos do Ch, era então um dos ideólogos do partido de Manuel Monteiro. O CDS de Portas seguiu essa prática. Nunca deu grande resultado, para além de contrariar a ideia da solidão do líder. 
Só que, no caso de Ventura, e tendo em conta o seu entorno, dir-se-ia que a solidão é uma mais-valia. Num partido solipsista, o “governo-sombra” existirá à sombra do grande farol que é o líder.
Gasta e ressequida é a outra promessa de Ventura: financiar um programa eleitoral megalómano indo buscar dinheiro “ao desperdício, à fraude e ao abuso”. E aos “tachos” e aos “subsídios à preguiça”, claro. Enfim, as velhas “gorduras do Estado”, que agora incluem diversos apoios sociais e “coiso-ideologia-de-género”. Como o discurso, é decalcado de Trump, talvez Ventura arranje um Elon Musk e uma motosserra. Como fonte de financiamento de políticas, é quase nada.

Mama e chora. Por falar em gorduras, o partido de Ventura verá bastante engordada a subvenção estatal a que tem direito por ter sido um dos grandes vencedores da noite eleitoral. Ainda não o vimos propor cortes nesses subsídios, apesar de ter prometido que “acabou a mama”. Há mamas e mamas, e esta é das boas. Mas Ventura é do tipo que mama, e chora. Foi essa a outra nota da sua entrevista: o político que toda a vida teve mais destaque mediático do qualquer outro líder partidário nas suas circunstâncias, queixou-se de não ter “representatividade” nos canais de televisão. Mimimi, os painéis de comentadores... Mimimi, as sondagens… Mimimi, “cuspidelas de ciganos, morteiros que me passaram a centímetros, ofensas, ataques, provocações, ameaças à minha vida em várias mensagens”, gente que o quer “agredir, matar e ofender”. 
Ah!, e mimimi, “um dos momentos mais dramáticos da minha vida”. O momento em que “o farol” sentiu azia ao vivo e em direto. “Tive uma enorme sensação de queimação interna”, confessou o farol. “Nesse momento perdi o controlo de mim próprio, e tive a sensação de que tinha sido envenenado”. Não foi. Mas mimimi…

Petit comité. A burguesia do PS quer tempo e vagar para refletir, ir às profundezas da alma do partido e às misérias do resultado eleitoral, e daí retirar… um candidato à liderança que não seja José Luís Carneiro. Desconfio que se Carneiro não fosse “um rural” (para usar a palavra do Presidente Marcelo), ex-autarca de Baião, com sotaque nortenho e ar de bom rapaz saído da terra, a burguesia do PS não estaria tão empenhada em ungir em petit comité um líder que não tem e, aparentemente, ninguém quer ser. A ideia de serem liderados pelo José-Luís-de-Baião não lhes entra na cabeça. Foi o mesmo preconceito de classe, e de origem, que no passado fez Carneiro enfrentar uma oposição feroz na distrital do Porto, e o impediu de ser candidato à Câmara da Invicta. Se ao menos fosse o José-Luís-da-Foz, ou de Coimbra-dos-doutores, ou do Bairro Alto, ou educado no Pedro Nunes… Mas parece que é o José Luís errado, por isso uma parte do partido pede reflexões e procura de candeia quem queira fazer manobras respiratórias ao partido. Desde que não seja o José Luís. Que por acaso tutelou a Administração Interna e a proteção civil, e sabe o que fazer em caso de terramoto. Que foi o que aconteceu ao PS.

Mistério público. O Ministério Público, que em plena pré-campanha eleitoral abriu “averiguações preventivas” sobre suspeitas envolvendo Luís Montenegro (caso Spinumviva) e Pedro Nuno Santos (aquisição de imóveis), abriu após as eleições um inquérito aos vídeos racistas publicados por André Ventura nas redes sociais durante a campanha eleitoral. Em causa estão dois vídeos com acusações dirigidas à comunidade cigana. Segundo os queixosos – dez associações cívicas –, os vídeos são casos claros de “incitamento ao ódio” por parte do líder do Chega. Entretanto, a PGR também pediu elementos adicionais a Montenegro e Pedro Nuno, para juntar às “averiguações”, que continuam a ser “preventivas”.

O garante. O Presidente da República costuma ser referido como o garante da Constituição. Tratando-se de Marcelo Rebelo de Sousa, garante muitas coisas, pois fala sempre com certeza e garantia, embora nem sempre as mais acertadas. Há dois meses, antes da crise política, garantiu que não haveria crise política.  Agora, garante que “vamos ter estabilidade”. Quem garante a garantia de Marcelo?

Na cadeira do poder. José Pedro Aguiar Branco surpreendeu cerca de zero pessoas ao “disponibilizar-se” (eufemismo de chegar-se à frente) para continuar a servir a Pátria como presidente da Assembleia da República. “A minha posição é muito simples”, disse aos jornalistas. Se algum apostou que a posição seria sentado, enganou-se. “É uma posição de disponibilidade para poder voltar a ser o presidente da Assembleia da República”. Por razões que não vêm ao caso, as declarações de Aguiar-Branco foram feitas depois de ter recebido no Parlamento o cantor e compositor Rui Veloso, intérprete de versos imortais da pop portuguesa, como estes: “Para de sorrir/ E exibir a tua felicidade/ Só por leviandade/ Se pode sorrir assim/ Num estado de graça/ Que até ofende quem passa.”

Uma questão de (re)visão. Rui Tavares foi o único líder da esquerda que, em devido tempo, chamou a atenção para uma das possíveis consequências de uma grande vitória da direita nas legislativas de domingo: a possibilidade de o PS deixar de ser necessário para os dois terços de deputados que podem aprovar uma revisão constitucional. Ou seja, a direita poder mexer na Constituição sem dar cavaco à esquerda. 
A direita respondeu que eram “papões”. Mesmo depois de os resultados terem confirmado essa maioria qualificada à direita, o aviso do líder do Livre foi desvalorizado e até ridicularizado por comentadores e atores políticos. 
Ontem, a IL anunciou que irá apresentar uma proposta de revisão constitucional para reduzir o "papel central" do Estado na economia. A iniciativa avançará “nos próximos dias”, prometeu Rui Rocha. “Não é um ajuste de contas com a História”, garantiu, mas a oportunidade de reescrever “uma Constituição que traz mais liberdade e que tem menor pendor ideológico” – ou seja, menor pendor ideológico à esquerda e maior pendor ideológico à direita. 
Na entrevista à CNN, André Ventura alinhou de imediato numa revisão constitucional, apontando como prioridades a reforma da Justiça (incluindo pena de prisão perpétua), a redução do número de deputados e a “despolitização do Estado” – “se o PSD estiver de acordo com isto e quiser avançar, temos maioria à direita.” 
Contrariando o voluntarismo da IL, a pressa do Chega e o currículo do PSD, que no passado também apresentou propostas de revisão para aliviar a Lei Fundamental do “pendor ideológico”, Augusto Santos Silva não vê “condições nenhumas para haver revisão constitucional em Portugal na próxima legislatura.” Será que Santos Silva também garante?

Esquerda esbelta. O Bloco de Esquerda reúne-se no sábado para debater os “erros e acertos” que levaram ao seu pior resultado de sempre em eleições legislativas. Presume-se que a parte sobre os acertos serão aqueles cinco minutos em pé para tomar café. A dos erros talvez demore mais um bocadinho. Mesmo antes dessa jornada de introspecção, o BE já definiu um projeto para o futuro: “novas convergências alargadas no campo democrático em defesa da Constituição de Abril”. Por “campo democrático” o BE quer dizer esquerda. 
Este projeto coloca vários problemas. O primeiro é que, por muito que convirja, convém à esquerda alargar-se. Em tempos, um ministro das Finanças, para não ter de admitir que o país vivia um período de “vacas magras”, sugeriu que as vacas estavam “esbeltas”. Pois, esbelta está a esquerda. Qualquer que seja a esquerda de que falamos, esbelta é o adjetivo. Esquálida é outra possibilidade.
Neste momento, a esquerda à esquerda do PS (ou seja, a esquerda que por vezes jura que o PS é de direita) ocupa 10 lugares num Parlamento de 230 – e isto, contando com o Livre, que cresceu para seis deputados. Mas atenção: o facto de, num contexto de “avassaladora viragem à direita” (palavras de um comunicado do BE), o Livre ter aumentado a sua bancada em 50% faz suspeitar que, embora jure ser de esquerda, talvez o Livre não seja mesmo esquerda, segundo a outra esquerda. Mesmo juntando o PS (que, como se sabe, só é de esquerda para a direita), a esquerda só tem 68 lugares num Parlamento de 230. Não chega a 30% do hemiciclo. Por muito que convirja, tão cedo não alarga. 
De qualquer forma, Rui Tavares, o coordenador do Livre, também se propõe andar pelo país a juntar a esquerda, já nas eleições autárquicas… A esquerda "deve despertar" para a realidade e fazer o que estiver "ao seu alcance" para que haja “listas progressistas em que os eleitores saibam que podem votar".

Centeno adivinhando “ajustamentos”. Andou Mário Centeno a fazer cenários macroeconómicos com simulações de centenas de páginas, a bater com a cabeça contra os cabeçudos de Bruxelas, a deixar os colegas do Conselho de Ministros com a cabeça em água por causa das cativações, para conseguir o primeiro superávit orçamental da história da democracia… para agora ir o equilíbrio orçamental por água abaixo. O Banco de Portugal já tinha avisado que corremos esse risco e a Comissão Europeia também antevê o regresso do país aos défices, já no ano que vem. 
Ontem, o ainda governador do banco central voltou a deixar o alerta: há riscos de desequilíbrios na economia nacional, que nos podem levar outra vez ao aperto dos “ajustamentos”. Os riscos internacionais são óbvios, a começar pela perturbação perpétua provocada por Donald Trump, mas os riscos nacionais também contam. “A estabilidade é um bem precioso”, avisou Centeno. Se não era um recado para o PS – presente e futuro –, parecia. 
Mas o homem das contas certas disse mais: “É só necessário reconhecer o momento em que a economia, as finanças públicas e privadas estão, e atuar dentro dessas restrições. Lembramos apenas que existem equilíbrios essenciais que é preciso respeitar”. À atenção do próximo Governo. Não há almoços grátis.

Aqui posto de escuta.  Portugal vive tão focado no seu umbigo (viu-se na campanha), que deixou de ouvir o ruído do mundo. Entretido com os GPMD (grandes, pequenos e médios dramas) da política caseira, o país desapercebeu-se de que o mundo ruge. Nesta opção aparentemente deliberada pela ignorância, o banco central parece ser dos poucos postos de escuta que ainda capta o bruá que optámos por não ouvir.

Decisão 25

Mais Decisão 25